Política

Esquerda precisa abandonar discurso de superioridade moral, diz Guilherme Cortez

Guilherme Cortez, 28, passou uma década de sua jovem vida indo a manifestações contra alguma coisa. Contra o impeachment de Dilma Rousseff (PT), as reformas trabalhista e da Previdência, o “#elenão” para Jair Bolsonaro (PL), a privatização da Sabesp.

Tudo importante, mas não basta. “A esquerda precisa apresentar uma saída melhor, animadora. Foi isso que a campanha do Lula conseguiu fazer no segundo turno”, diz o deputado estadual paulista que, a partir de 2027, dará expediente em Brasília como um dos 14 deputados eleitos pelo PSOL.

Cortez não é o único a diagnosticar que seu campo andava muito pessimista, com a extrema direita o empurrando para o papel de “bombeiro”, apagando um incêndio atrás do outro. O alemão Martin Schulz, ex-líder do Parlamento Europeu, já disse algo nessa linha. Mas também apostou na vitória de um “essencialmente otimista” Lula (PT), “alguém que, em toda a vida, não se permitiu ficar cabisbaixo”.

Para o psolista, o presidente encorpou suas chances de bater o bolsonarismo quando passou a falar mais de pautas bem concretas para o eleitorado, como o fim da escala 6×1. Se antes sua equipe jogou parada, achando que bastava contrapor “um adversário muito ruim” com “o maior líder da história do país”, a bordoada eleitoral deixou marcas.

Flávio Bolsonaro (PL) ficou à frente na primeira rodada de votos e, três dias depois, Lula fez a proverbial autocrítica do PT num encontro com agitadores digitais como André Janones (Rede-MG) e Ana Elisa (PT-MG), Cortez incluso. O petista saiu convencido da importância de dar mais as caras nas redes sociais. No mesmo dia, num inédito vídeo em formato selfie, pediu: “Bora, gente, pra rua”.

“Concluímos naquela reunião que você não ganha da extrema direita na inércia”, diz Cortez, que garantiu a nona melhor colocação entre os 70 deputados eleitos por São Paulo, com 275,5 mil votos. “Eles têm uma militância muito mobilizada. Agora a esquerda também tem.”

As urnas deram “um recado claro”, e seria tolo tapar os ouvidos, afirma. “Tanto à esquerda quanto à direita, os deputados mais votados foram figuras jovens dessa política contemporânea, que falam de pautas concretas, de futuro, e mexem na rede social. O eleitor acelerou o processo de renovação da esquerda.”

Basta lembrar que o octogenário José Dirceu (PT-SP), aposta do PT como puxador de votos na Câmara, não se elegeu, enquanto 31,6 anos é a idade média dos dez deputados mais bem votados do país, todos craques na comunicação digital —seis à direita, quatro à esquerda.

Não que o PT seja obrigado a nada, como deixar de privilegiar sua velha guarda para dar espaço a jovens aliados. Mas, para Cortez, “as coisas vão se impondo”. O progressismo precisa dessa juventude “para ser relevante e continuar falando com uma nova geração que não tem fidelidade obrigatória à esquerda, isso se quiser disputar de igual para igual com os Nikolas e Pavanatos”.

O desafio é convencer um eleitor que cresceu em meio a crises econômicas, pandemia, emergência climática, um combo apocalíptico e tanto, maximizado pela urgência das redes sociais.

São jovens que podem até ter sido beneficiados por políticas como Bolsa Família e cotas raciais, mas não necessariamente conhecem o Brasil antes delas, então é pouco efetivo bater bumbo para gestões petistas anteriores. “A gente precisa falar mais de futuro do que de passado.”

Cortez vem de uma família de classe média da zona sul de São Paulo. Filho de publicitários, cresceu em um ambiente no qual o voto dos pais era tradicionalmente destinado a uma direita que hoje soa vintage, “aquela coisa engomadinha do PSDB”. Tem até uma foto bebê ao lado de Mário Covas.

Ainda guri, curtia a prefeita petista Marta Suplicy. Achava-a “uma figura muito simpática, uma diva pop da política”. No pleito de 2010, encantou-se com Marina Silva, “minha primeira referência política”.

Três anos depois, em 2013, veio a onda de protestos que ricocheteou pelo país. Cortez tinha 15 anos e foi com o pai a um dos atos. Estudava numa escola técnica com forte mobilização estudantil, numa fase de tríplice fronteira na sua vida, quando ocorreram simultaneamente “minha tomada de consciência política, minha puberdade e eu assumindo a minha sexualidade”. É bissexual, o “b” de LGBTQIA+.

No último ano do ensino médio, participou da ocupação de uma escola estadual em oposição ao então governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, ainda na plumagem tucana. Onze anos depois, gravou vídeos com o ex-rival, já no PSB e vice de Lula. “A extrema direita deu um salto tão grande que fez todo mundo se juntar, e não me arrependo.”

Ele fez direito na Unesp (Universidade Estadual Paulista) e em 2020 concorreu a vereador pelo PSOL em Franca (interior de SP). Terminou entre os mais votados, mas não entrou por causa das regras do sistema proporcional de votos. Dois anos depois, foi eleito deputado estadual após ganhar projeção por um embate com Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente na esplanada bolsonarista. Chamou-o de “ecocida”.

No Legislativo paulista, aprovou um projeto de lei para incluir educação climática nas escolas estaduais, mas que acabou vetado pelo governador Tarcísio de Freitas. Também encampa o combate contra taxas abusivas de ingressos e o cambismo digital.

Agora, diz querer atuar na Comissão de Trabalho na Câmara. “Sou uma pessoa LGBT, e por isso acham que a gente só vai falar sobre os nossos temas. Não existe isso, porque LGBTs também trabalham, dependem de transporte público”, diz. A pauta da escala 6×1, lembra, foi protagonizada por Erika Hilton, mulher trans, e Rick Azevedo, homossexual, ambos do PSOL.

Promete ainda ser o pesadelo de Nikolas Ferreira (PL-MG), o campeão de votos na Câmara. “Por muito tempo ele nadou sozinho ou com poucos adversários à altura. Realmente, está sentado numa montanha de seguidores e consegue fazer um estrago. Mas o segundo turno mostrou que ele pode ser derrotado.”

A tentativa de ampliar o diálogo, para Cortez, passa por uma revisão da maneira como parte da esquerda trata quem vota na direita. Ele rejeita a generalização de que todo eleitor de Bolsonaro seja fascista e considera contraproducente usar expressões como “pobre de direita”.

Cortez critica o que vê como prepotência de setores progressistas. “É uma ideia meio moralista de que nós somos racionalmente superiores”, diz. “A esquerda aprendeu várias maneiras de xingar quem achamos que têm a obrigação de concordar com a gente. Isso só deixa as pessoas mais bravas. Ninguém é obrigado, independentemente de ser pobre, de ser trabalhador, de ser mulher.”

Na sua avaliação, a extrema direita entrega soluções falsas para frustrações reais. Em vez de discutir a raiz de sufocos econômicos, atribui a culpa ao feminismo e à presença feminina em espaços antes ocupados predominantemente por homens, por exemplo. “E falam que se todo mundo for coach, empreendedor ou jogar no tigrinho, ninguém precisa se preocupar com as relações de trabalho.”

Ele admira o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, por comunicar “de maneira simples” temas com apelo popular: creches acessíveis, tarifa zero, controle do preço dos aluguéis e por aí vai. “Ele vai falar do preço do kebab que você compra ao mesmo tempo em que não tem medo de dizer que é socialista.”

Cortez só discorda de uma tese vendida no atacado da análise política: a de que a esquerda brasileira perdeu a conexão com o povo. “Há certo exagero em dizer isso, porque senão a gente não ganhava eleição mais.”

Isso não significa ignorar os avanços da direita. Reconhece que seu campo perdeu vínculos cotidianos mantidos no passado por meio de sindicatos, comunidades eclesiais de base e presença comunitária.

Cortez diz ter alertado que a esquerda poderia vencer a eleição presidencial e, ao mesmo tempo, perder espaço entre os jovens. Para ele, o galope de discursos antifeministas e masculinistas pode ser um estorvo a longo prazo. “Você ganha eleição, ganha quatro anos. Agora, se tem uma geração que vai votar pelos próximos 40 anos com ideias de que mulher não deveria votar, de tradwives, machos alfas e red pills, isso é muito pior do que perder uma eleição, porque daí você perde a perspectiva de futuro.”

Folha de São Paulo

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