Política

‘Esquerda precisa renovar quadros’, diz Elmano de Freitas, reeleito no Ceará

O governador do Ceará, reeleito em primeiro turno em 4 de outubro, Elmano de Freitas (PT), disse em entrevista à Folha nesta quinta-feira (15) que a esquerda precisa fazer um trabalho de renovação de quadros. “Liderança nacional não se decide em reunião de diretório e nem em gabinete”, declarou, cobrando que as lideranças regionais do partido viajem pelo país.

Eleito com 53,19% dos votos contra o ex-governador Ciro Gomes (PSDB), que teve 46,22%, Elmano afirmou que seu adversário tem uma “dificuldade enorme de perder”. A coligação de Ciro Gomes acionou a Justiça Eleitoral pedindo a cassação da chapa de Elmano e novas eleições.

O petista, que acredita que a maior parte dos que se abstiveram vota no atual presidente, também avaliou que a campanha de Lula cometeu erros no primeiro turno e que a extrema direita agiu de forma descarada ao votar favorável à PEC contra a escala 6×1.

Ele destacou ser contra uma redução da maioridade penal, que o aliado Camilo Santana (PT) articulava apresentar como emenda à PEC da Segurança Pública. “Tenho o direito de pensar diferente.”

Seu adversário Ciro Gomes (PSDB) pediu à Justiça Eleitoral a cassação da chapa do sr. e a realização de uma nova eleição, alegando abuso de poder midiático relacionado à exibição de propaganda nos dias que antecederam as eleições. Como o sr. responde à ação e o que espera do processo?

Primeiro, eu respondo que demonstra uma dificuldade enorme do candidato Ciro Gomes reconhecer que perdeu. Uma dificuldade enorme de perder, de aceitar a vontade soberana do povo, e precisa encontrar alguma desculpa para não ter que dizer ‘perdi’.

A ação em si é absolutamente esdrúxula, porque não é sequer contra a minha candidatura, mas contra o Poder Judiciário. Ele diz que utilizei tempo de inserção depois do dia 3 [de outubro]. E as que ele usou como direito de resposta contra mim? Ele cresceu na campanha usando um direito de resposta que era meu.

O resultado eleitoral é muito expressivo, é uma diferença de quase sete pontos. Falar que isso tem efeito suficiente para o resultado é apenas dificuldade de reconhecer que ele ativamente perdeu voto.

Como o sr. avalia o resultado de primeiro turno para presidente com Flávio Bolsonaro à frente e quais as possibilidades de virada?

Nós temos uma situação de empate técnico com a perspectiva de Lula ultrapassar. Fiquei evidentemente surpreso com Flávio ter terminado à frente. A nossa diferença no Nordeste pode ser um pouco maior e ela tem espaço para crescer agora no segundo turno e está crescendo. A população está fundamentalmente distinguindo quem é Flávio e quem é Lula e o que cada um representa para a sociedade brasileira.

O sr. acha que o PT errou ao focar em temas como soberania e defesa da democracia no primeiro turno? Será que não faltou focar em temas mais próximos do dia a dia da população?

Eu acho que a campanha teve um erro, que foi focar muito no que era a história do Lula e o que ele tinha feito antes, e focar menos no que ele pretendia fazer. Por exemplo, ficou-se falando do Pé de Meia que ele tinha feito, e eu vejo agora ele falando do Pé de Meia para universitários.

Acho que era razoável que no primeiro turno já tivesse ficado mais claro quem é Flávio Bolsonaro para o eleitorado brasileiro.

E o tema da soberania e outros poderiam ter tido um peso menor. Acho que a população quer muito mais saber o que é que o presidente vai fazer para melhorar a sua vida. Então, acho que a campanha do segundo turno está muito mais equilibrada.

O PL, partido do adversário de Lula, teve resultados expressivos no Congresso Nacional e nas disputas estaduais. O que a população está comunicando com esses resultados?

Eu penso que o país tem uma divisão e acho que isso vai perdurar ainda muito tempo. Nós temos um trabalho na esquerda muito importante a fazer de renovação de quadros e de fazer um governo ainda mais intenso de melhoria da vida do povo. E acho que é isso que de fato vai poder permitir a gente superar essa polarização existente.

A direita tem um problema no país porque está sendo hegemonizada pela extrema direita. A direita tem um setor ponderado, compromissado com a democracia, com a Constituição, mas esse setor se transformou em uma ala minoritária.

Lula venceu em todos os estados do Nordeste no primeiro turno, mas perdeu para Flávio no Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Qual é a dificuldade de conseguir melhores resultados nessas regiões?

Tenho a impressão de que nós ainda sofremos uma coisa importante nessas regiões, que foi a mudança do mundo do trabalho. Há uma mudança muito significativa de como o PT surgiu nessas regiões, como era a sociedade organizada desse período.

Essa sociedade se transformou radicalmente e nós do PT e da esquerda não conseguimos acompanhar essa mudança. Há uma necessidade de reconfiguração da nossa forma de organizar politicamente nessas regiões.

Apesar de ser o principal reduto de Lula, o Nordeste deu menos votos a ele em comparação com 2022, inclusive no Ceará. O que explica essa redução?

Em três estados do Nordeste que são os maiores, Bahia, Ceará e Pernambuco, tivemos eleições muito acirradas pelo governo do estado. Então, nós estávamos muito envolvidos na eleição das nossas bancadas.

É meio natural que a militância tenha priorizado e pedido votos para nós ganharmos as eleições de nível estadual.

Outro aspecto é que que parte da nossa militância achou que a eleição nacional era relativamente fácil de ganhar. Muita gente não foi votar, a abstenção foi elevada.

Tenho convicção de que a ampla maioria de gente que não foi votar é eleitor de Lula. Daí que nosso esforço é muito grande para que o eleitorado nordestino vá votar no segundo turno.

A ex-senadora Kátia Abreu (PT) afirmou que a campanha de Lula foi comandada por “paulistas sem voto”. Neste segundo turno, nomes do Nordeste como Camilo Santana e Rui Costa assumiram postos-chave na campanha. Você acha que é a hora do PT do Nordeste assumir maior protagonismo dentro do partido?

Não. Acho que o PT é um partido nacional. Nós só ganharemos a eleição com um bom resultado em São Paulo, em Minas, no Rio. Não existe presidente do país com votação boa apenas no Nordeste.

Em 2018, tivemos uma votação muito boa com o [Fernando] Haddad e perdemos a eleição porque Jair Bolsonaro teve uma vantagem muito grande em Minas, no Rio. Temos que ter uma votação boa no país como um todo e uma votação diferenciada no Nordeste.

Como seria sua relação com um eventual governo Flávio Bolsonaro?

Na minha cabeça, é absolutamente um pesadelo. Porque eu sei o que significa Transnordestina parada, ter um tratamento do câncer com 90% de corte do orçamento, instituto federal do Ceará sem dinheiro para terminar o ano, universidade sem poder pagar a conta de água.

A PEC do fim da escala 6×1 foi aprovada no Senado de forma quase unânime, contando com voto de políticos da direita e da esquerda. Você acha que houve unidade em torno da pauta ou cálculo político?

Essa é aquela situação que o povo brasileiro diz nas ruas ‘ah, se tivesse eleição todo ano, como era bom’, porque até a extrema direita vota favorável ao fim da escala 6×1. Mesmo anunciando que, se ganhar, ela desfaz o que votou. É tão descarada que vota a favor dizendo que, se ganhar, vai desfazer aprovando a flexibilização total da jornada de trabalho.

A PEC da segurança pública também está em pauta. A oposição buscou incluir uma emenda para reduzir a maioridade penal e o seu aliado, Camilo Santana, em resposta, coletava assinaturas para uma emenda que também tratava do tema. O sr. concorda com a redução da maioridade penal no país, mesmo essa sendo uma pauta que historicamente o PT não defende?

Eu sou contra a redução da maioridade penal. Acho que isso vai apenas criar mais problemas ao sistema prisional brasileiro e nos dificultar a recuperar jovens que têm uma possibilidade de não entrar para o mundo do crime.

Mas o seu aliado estava colhendo assinaturas para apresentar uma emenda de redução da maioridade penal.

Eu sou contrário e tenho o direito de pensar diferente sobre determinados temas.

O tema das facções criminosas e da segurança pública foi central na disputa do Ceará. Você está satisfeito com a forma como o governo Lula lidou com a segurança pública?

Esse tema precisa ter um acordo nacional. Acho que o presidente Lula acertou em apoiar e ajudar a aprovar a lei antifacção, que considero das mais importantes no enfrentamento do crime organizado. O presidente acerta quando faz a PEC da segurança pública e, infelizmente, há setores contrários à aprovação.

Por que o tema do combate à violência é tão associado à direita? O discurso da esquerda é ruim?

Primeiro, o maior fracasso de política e segurança pública do país é da extrema direita, é o Rio de Janeiro. Mas nós não temos nenhum estado que possa dizer que a segurança é um tema resolvido. Até porque nenhum estado é capaz de sozinho resolvê-lo.

Nós da esquerda elaboramos por muitos anos políticas de prevenção à violência, e menos políticas de enfrentamento. A direita tem um discurso muito forte de enfrentamento e pouca experiência em prevenção. Nós precisamos reunir essas experiências e fazer uma grande política nacional de segurança pública.

Mas a direita no Brasil não tem moral para falar de política de segurança pública, porque ela não tem nenhum exemplo em um estado que dirige e pode dizer que a segurança pública está bem, está resolvida.

Como o sr. avalia o tema de impeachment de ministros do STF, que têm ganhado espaço no debate político e no discurso de Flávio Bolsonaro?

Olho como algo que está previsto na Constituição. É fundamental para aqueles que são eleitos respeitar a Constituição.

Há sempre a possibilidade de acontecer impeachment de qualquer autoridade. Isso está posto e efetivamente tem sido realizado a partir dos fatos e das provas, e não porque não gosto de um ministro ou porque o ministro decide de tal maneira que me desagrada.

A eleição de 2026 deve ser a última disputada pelo presidente Lula. Como o PT tem organizado a renovação de suas lideranças e quais nomes o senhor considera capazes de representar o partido em futuras eleições presidenciais?

Nós temos várias lideranças novas, muito valorosas e capazes. Eu vejo no Camilo Santana uma grande liderança. Vejo no Haddad, no Alexandre Padilha, no Rui Costa. Mas nós temos lideranças regionais.

Nós hoje temos a necessidade de que as nossas lideranças regionais se disponham a fazer o que o presidente Lula fez a vida inteira, viajar o Brasil. Para ser liderança do país, tem que andar o país.

Liderança nacional não se decide em reunião de diretório nem em gabinete. Se decide na relação dessa liderança com o povo. E só se sabe disso quando a pessoa vai para a rua, andar o país, conhecer as realidades.

Raio-X – Elmano de Freitas, 56

Nascido em Baturité (CE) em 1970, Elmano de Freitas é formado em direito pela Universidade Federal do Ceará e filiado ao Partido dos Trabalhadores desde 1989. É filho de um agricultor e de uma professora. Foi advogado do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Eleito deputado estadual em 2014 e 2018, venceu para governador em 2022.

Folha de São Paulo

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