Ex-pobre tem memória curta

Há muitos anos que o Brasil me oferece lições políticas valiosas.
Fui conhecer a fundo e de ponta a ponta o país que fez o meu pai, um empresário da clássica direita europeia conservadora, dizer, no início deste século, uma frase que nunca mais esqueci: “O Brasil nos faz centrar. Não entendo como os brasileiros não se revoltam”.
Perceber as dinâmicas cruéis de uma desigualdade social extrema, o abismo intransponível entre ricos e pobres, o racismo estrutural enraizado e a desumanização do outro porque não pertence à mesma classe é qualquer coisa que tem de fazer refletir quem, estando do lado dos privilegiados, tem um cérebro pensante e mínimos de empatia.
Lembro-me bem do choque que senti quando vi que no condomínio de luxo de uns amigos em São Paulo havia zonas comuns e jardins onde babás e empregados não podiam permanecer. Ou quando ouvi outros, igualmente ricos, dizerem que “a gente não fala com serviçal”. Ou como me custou a adormecer, ainda criança, na primeira vez que fui ao Rio, num hotel de cinco estrelas com a favela ali mesmo ao lado, a pensar na sorte da minha circunstância —e se eu tivesse nascido ali? O que, na minha cabeça jovem, entendi como um indecente apartheid não oficial ajudou a moldar a minha consciência política, juntamente com a educação em uma escola alemã progressista.
Ver nascer e progredir uma classe média apoiada pelos programas de apoio social que surgiram neste século alimentou a minha fé na humanidade, na democracia e numa sociedade mais igualitária —afinal, vantajosa para todos. Ver os filhos dos tais serviçais poderem estudar na universidade e chegarem a médicos e advogados me fez acreditar no poder de revolução pacífica da mobilidade social. É claro que em Portugal isso também aconteceu, mas não de forma tão exuberante e tão rápida como no Brasil.
Por estes dias, o Brasil continua a me fazer pensar. E a me inquietar. As últimas eleições são paradigmáticas nos fenômenos de rejeição, de polarização afetiva, a força do voto identitário e a escolha política por clubismo, por pertencimento ou por aspiração. E também é notável o poder das redes sociais, algoritmos e bolhas digitais para mobilizar fatias cada vez maiores do eleitorado —já lá vai o tempo da televisão como canal privilegiado de “mass media”.
Mas é sobretudo um caso de estudo como o ressentimento, o grande combustível político dos nossos dias tão bem usado pelos populistas, pode atordoar tanto as pessoas que as faz até votar contra os seus próprios interesses pessoais —como a barata que vota no chinelo ou no inseticida.
É impressionante ver como a turma que escapou da pobreza pode ter memória curta. Como se continua a repetir, contra fatos e evidências, que os programas sociais como o Bolsa Família produzem preguiçosos e que os pobres não fazem esforço para deixarem de ser pobres. Como uma vez ascendendo socialmente e deixando de precisar de assistência pública, se pode esquecer de onde veio a sua família e o que custou para lá chegar.
Olhando para os dados de renda do eleitor brasileiro, as propostas dos candidatos e a forma como se comportaram as fatias da população mais pobres e as que ganham entre dois e cinco salários, nunca me fez tanto sentido o velho ditado português: “Nunca peças a quem pediu, nunca sirvas a quem serviu”.
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Folha de São Paulo


