Política

Facebook fatura R$ 159 milhões na eleição e expõe dependência das campanhas em relação às Big Techs

Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revelam que a Facebook Serviços Online do Brasil Ltda. é, isoladamente, a maior fornecedora das campanhas eleitorais deste ano. A gigante da tecnologia já faturou R$ 159,3 milhões em impulsionamentos e serviços prestados a candidatos e partidos, um montante que escancara a dependência do processo eleitoral em relação às chamadas “Big Techs“.

A verba destinada ao Facebook supera com folga fornecedores tradicionais de mídia, serviços gráficos e produtoras de publicidade. A destinação massiva de recursos públicos para uma corporação privada estadunidense coloca a soberania do pleito em risco e chama a atenção de Rodolfo Avelino, professor do Insper e conselheiro do Coletivo Digital, para quem o montante expressivo não chega a ser uma surpresa, mas dimensiona a gravidade do cenário.

“As grandes plataformas digitais se tornaram parte da infraestrutura das campanhas eleitorais. O crescimento disso torna mais visível o tamanho dessa dependência. Para mim, a princípio, a questão não é somente quanto está sendo gasto na Meta ou Facebook, mas o que esse movimento representa”, pontua.

O professor destaca a contradição de utilizar dinheiro público para fortalecer monopólios de comunicação de outros países, neste caso os Estados Unidos. “Uma parcela cada vez maior desses recursos destinados à comunicação política passa por empresas globalizadas. Elas controlam a infraestrutura, os meios de segmentação e, de certa forma, também o método da distribuição e circulação desses conteúdos. Além da questão econômica, esses são recursos públicos que acabam alimentando uma estrutura digital concentrada em pontos americanos. O problema que vejo é o investimento de campanha para comunicação vindo de fora”, critica.

A dependência das plataformas também gera fragilidade tática para as próprias candidaturas, em especial as progressistas. A Meta, controladora do Facebook e do Instagram, é comandada pelo bilionário Mark Zuckerberg, cujo alinhamento com a extrema-direita internacional e figuras como Donald Trump tem se consolidado por meio de acenos regulatórios e tolerância com discurso de ódio dentro da plataforma.

Entregar o controle do debate público brasileiro a uma corporação com agenda política própria e declarada publicamente coloca a integridade das eleições em xeque, alerta Avelino. “Vários candidatos aprenderam bastante a usar redes sociais, mas existe uma diferença em saber produzir conteúdo para uma rede e compreender a lógica da tecnologia que está por trás dela. Mas não podemos ignorar, para não sermos inocentes, que quem controla essa infraestrutura pode influenciar no movimento, no engajamento e no funcionamento, favorecendo um lado ou outro”, explica.

Avelino alerta que a concentração de estratégias digitais em uma única plataforma deixa a política à mercê de decisões corporativas unilaterais: “O problema é você investir toda a sua área digital numa empresa que, de uma hora para outra, pode mudar a forma de operar. O candidato que concentra a comunicação numa plataforma se vê refém das alterações dessa empresa”, finaliza.




Brasil de Fato

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo