Filho de Gonet pediu a Vorcaro para ir a evento em Londres com despesas pagas, diz PF

O filho de Paulo Gonet, procurador-geral da República, pediu a Daniel Vorcaro para ir a um evento custeado pelo então banqueiro em Londres, com despesas pagas, aponta um relatório da Polícia Federal que analisou mensagens do dono do Banco Master.
O evento, um fórum jurídico que ocorreria no ano passado, acabou não acontecendo. No mesmo ano, o Master e Vorcaro estiveram na mira de uma operação que levou à prisão do ex-banqueiro, em novembro. Procurado por meio da assessoria de comunicação, Gonet não se manifestou. O PGR participaria desse fórum.
A interlocução de Gonet com Vorcaro aconteceu por meio do advogado Ciro Soares, inicialmente em abril de 2024.
Na ocasião, aponta a PF, o advogado escreveu a Vorcaro “Amizade é tudo viu irmão”, e complementou: “Gonet é firme”. Inicialmente, eles trataram de questões relacionadas a Jarbas Soares Júnior, ex-procurador-geral de Justiça de Minas Gerais.
No ano seguinte, Ciro e Vorcaro passaram a tratar da organização de um evento que aconteceria em Londres, com financiamento do Master.
Em março, Ciro manda a Vorcaro uma foto acompanhado de Gonet, e diz: “Liga aqui. Ele quer falar com você”.
No mesmo mês, o advogado encaminha mensagens a Vorcaro dizendo “Já estou com saudades de você! Estou embarcando para Roma. Manda essa mensagem para ele”. Ciro diz que as mensagens foram enviadas por “Gonet”.
“O advogado responde que ‘lhe adora’, depois acrescenta ‘Ele vai para Londres com a gente’ Por fim envia mensagem encaminhada ‘Oba!!! Tomara que tenha charuto e macalan!'”, relata a PF, anexando as capturas de tela das mensagens.
No dia seguinte, Ciro diz que Gonet perguntou se o filho dele pode ir para a viagem a Londres. “Óbvio, né”, responde Vorcaro.
“No dia 11/04/2025, a funcionária de Daniel Vorcaro cujo contato está salvo em seu aparelho celular como ‘Ana Matos Mkt’, questiona o banqueiro se os nomes ‘estão aprovados por vc para irem pra Londres com despesas pagas por nós’. Vorcaro não concorda com a lista de nomes, mas faz a ressalva que “Pedro e ciro ok” teriam as despesas pagas para ida a Londres, em menção a Pedro Gonet e Ciro Soares”, acrescenta o documento da Polícia Federal.
Procurado, Ciro Soares diz em nota que “não há nenhum segredo na lista de convidados para o mencionado seminário. Por um motivo simples: os nomes dos participantes constam em listas e outros documentos do evento aberto ao público”.
“Aliás, é importante destacar que o evento nem se concretizou. Não há qualquer ilegalidade em convidar líderes empresariais, advogados, administradores e palestrantes em geral para participar de seminários”, acrescenta.
Em mensagens de março de 2024, Márcio Conjur e Daniel Vorcaro discutiram a participação do então ministro do STJ (Superior Tribunal de Justiça), Luis Felipe Salomão, em um evento em Londres.
Em uma das conversas, Márcio afirma ter falado com Salomão e relata que o ministro teria perguntado se poderia levar o filho.
“O ministro Alexandre realmente mandou whatsApp para os colegas. Falei com ministro Gilmar agora. Ele confirmou ter recebido mas diz que ainda ‘vai olhar’ a possibilidade. Difícil alguém não aceitar convite de AM”, disse.
“O ministro Luis Felipe Salomão, por exemplo, disse que como o Xandão nunca nega fogo, ele vai de qualquer forma. Salomão perguntou se pode levar o filho. Eu disse que acho que sim. Gilmar mandou eu falar com o chefe de gabinete, o Granzotto”, acrescentou.
O ministro foi consultado por meio da assessoria, mas não houve retorno.
No começo desta semana, o ministro André Mendonça, relator do inquérito do Master no Supremo, pediu que a PGR (Procuradoria-Geral da República) se manifeste sobre um documento da PF no qual há mensagens em que Vorcaro pede a um interlocutor a atuação de “Andrei e Paulo” a seu favor.
A pessoa para quem tinha sido enviada essa mensagem não havia sido identificada inicialmente, mas a PF aponta suspeita que o interlocutor seja Moraes.
As referências seriam a Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e a Gonet.
A reportagem procurou, por mensagem às assessorias às 9h40 desta terça-feira (1º), Andrei, Gonet e Moraes, mas eles ainda não se manifestaram.
Mendonça deu um prazo de cinco dias para que a PGR se manifeste a respeito do documento da PF.
Folha de São Paulo



