Flávio Bolsonaro tenta driblar suspeitas para chegar ao Planalto e livrar o pai

Quando disse que havia um preço para não levar sua candidatura até o fim, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 45, lançou a primeira das suspeitas que iriam recair sobre ele na campanha que pode levá-lo à Presidência da República neste domingo (25). Foi em 7 de dezembro de 2025, dois dias após ter se lançado contra Lula (PT) com o aval do pai, Jair Bolsonaro (PL).
Na ocasião, o entendimento foi que a exigência seria a soltura do ex-presidente, condenado por tentativa de golpe de Estado, mas Flávio logo ajustou o discurso para dizer que sua candidatura era irreversível. “Não reeleger Lula é o que vai salvar o Brasil e vai salvar o meu pai da prisão”, respondeu à Folha a respeito de qual projeto priorizaria, o de governar o país ou o de vingar Jair.
Com os interesses entrelaçados e almejando subir a rampa do Planalto ao lado do pai, Flávio venceu o primeiro turno por 47,03% a 45,16% —resultado mais apertado desde a redemocratização. Dois dias depois, afirmou que usaria a ampla maioria da direita eleita para o Congresso para “mudar a Constituição” e “redemocratizar este país”.
As mudanças não foram detalhadas, mas entre elas está a proibição da reeleição para presidente da República, o que abre espaço para ampliação do tempo de mandato. Flávio também quer tirar do STF (Supremo Tribunal Federal) a competência para julgar crimes de congressistas.
Ao mesmo tempo em que prometeu perdoar os crimes do pai, soltar os presos do 8 de Janeiro e viabilizar o impeachment de Alexandre de Moraes, Flávio disse, no último dia 8, que, se eleito, iria “traçar uma linha e olhar para frente, quebrar o retrovisor”.
VORCARO E TESOURAÇO
No segundo turno, com a perspectiva de vitória, escândalos como o da rachadinha, as suspeitas de envolvimento com a milícia e o paradeiro dos R$ 134 milhões que Flávio pediu a Daniel Vorcaro para o filme “Dark Horse” deram lugar a questionamentos sobre o eventual novo governo.
O candidato foi pressionado a explicar o tesouraço de R$ 250 bilhões inspirado em Javier Milei que o fez conquistar o apoio da Faria Lima. O mercado esperava, conforme sinalizaram integrantes da campanha em encontros fechados, a desvinculação de benefícios sociais em relação ao salário mínimo e o corte de despesas de saúde e educação.
Mas, diante da opinião pública, o senador não só prometeu manter ganho real para aposentados como ampliar benefícios do Bolsa Família e do Fies, indicando um estelionato eleitoral adiante. Em entrevista ao Jornal Nacional, resumiu seu ajuste fiscal a tirar o PT do poder e combater a corrupção.
A preocupação de não soar impopular também orientou mudanças de direção em relação ao fim da escala 6×1 e à proibição de bets. No primeiro caso, Flávio votou sim já com o plano de rever a medida e, no segundo, passou a diferenciar apostas esportivas de cassinos online. Por via das dúvidas, a campanha evitou detalhar propostas de modo geral.
Outra desconfiança que pairou sobre Flávio foi o papel da sua família e seu compromisso com o projeto negacionista e golpista do pai —afinal ele já negou a ditadura de 1964 e elogiou o coronel Ustra. Também não admite que houve uma tentativa de golpe em 2022.
Depois de aprender com a rejeição e derrota de Bolsonaro em 2022, o candidato se declarou moderado e vacinado, prometeu que o irmão Eduardo não será ministro e afirmou que um cargo para Jair “não está no radar”.
PREOCUPAÇÃO COM DEMOCRACIA E ALINHAMENTO A TRUMP
O esforço para atenuar o bolsonarismo rendeu uma cena simbólica. Em um evento com Flávio e governadores eleitos, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), que foi de preterido a cabo eleitoral fiel, se comprometeu com o aliado: “Conte com nosso esforço, com nossos acampamentos mobilizados, para que a gente possa entregar uma grande vitória”.
Flávio se apressou para esclarecer a força de expressão. “Só para corrigir o Tarcísio, porque qualquer palavra que eu, você, qualquer um aqui, dê um pouquinho fora do contexto, já distorce. Tarcísio, não são os acampamentos, pelo amor de Deus, que a gente não vai desmobilizar. São os nossos comitês eleitorais, não é?”, disse, abraçando o governador e arrancando risadas.
O eventual segundo mandato do bolsonarismo, que acampou em quartéis por não aceitar o fim do primeiro, vai ser acompanhado de maioria no Congresso e, até 2030, também no STF, além de alinhamento sem ressalvas a Donald Trump, num novo teste para os freios e contrapesos da democracia.
Em campanha, Flávio se reuniu com o presidente dos EUA para pedir que o crime organizado seja considerado terrorismo e tentar melhorar o revés do tarifaço incentivado pela família Bolsonaro. O candidato já disse que, se eleito, o Brasil vai integrar a coalizão militar de Trump, o Escudo das Américas.
INQUÉRITOS NO STF E RELAÇÃO COM MILÍCIAS
O segundo turno trouxe também o segundo inquérito de Flávio no STF —o primeiro investiga se houve corrupção no caso Dark Horse. O novo caso apura se o senador se associou ao seu amigo Willer Tomaz para lavar dinheiro por meio de bets. Com isso, o candidato do PL está implicado tanto no caso Master como no do INSS, do qual Willer é um dos suspeitos.
Um receio a mais é que a Presidência seja vista por Flávio como um meio de se blindar, como sugeriu Eduardo ao recomendar que o irmão viaje para os EUA caso perca. Se eleito, a possibilidade de prisão fica afastada por quatro anos e o andamento das investigações seria incerto.
Faltaram esclarecimentos ainda sobre a relação de Flávio com as milícias, já defendidas por ele na Assembleia do Rio de Janeiro, fora o fato de o então deputado ter empregado familiares do matador de aluguel Adriano da Nóbrega, a quem concedeu uma homenagem. No Jornal Nacional, ao ser questionado sobre apoiar um projeto que retirava a marcação de balas, disse que isso era um detalhe.
Não só isso teve efeito na rejeição a Flávio na reta final, mas sobretudo nas estratégias do PT de mobilização nas ruas e nas redes e de pânico moral, ferramentas outrora dominadas pelo bolsonarismo.
A campanha de Lula quis despertar medo no eleitorado ao tratar de programas sociais. O candidato disse ser alvo de fake news e teve que usar discursos e lives para debelar a dúvida sobre acabar com o Bolsa Família ou a Farmácia Popular.
Em resposta ao primeiro turno, o PT ainda exibiu multidões em diversas capitais, ao que Flávio reagiu com uma massa de apoiadores nos bloquinhos animados por hits de jingles. A disputa se estendeu a canais de WhatsApp para ações coordenadas na internet —primeiro veio o “Exército do Lula” do deputado André Janones (Rede-MG), com 10 milhões de seguidores até a noite de sexta (23), seguido da “Tropa do Flávio”, com 2,1 milhões.
ANTIPETISMO E ATUAÇÃO NO TSE
Ministro escolhido por Bolsonaro, o presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) Kassio Nunes Marques chegou a censurar o canal de Janones no último dia 11. Em paralelo, a Folha revelou que funcionários da Meta admitiram que Lula foi prejudicado pela plataforma, acusada de manipulação.
Se no primeiro turno a crise moral do STF e decisões individuais de ministros a favor do PT acabaram impulsionando Flávio, na segunda etapa a atuação dos tribunais pesou para o outro lado.
Tudo isso culminou numa disputa voto a voto nas últimas horas. Aliados de Flávio mantêm a confiança e afirmam que ele soube captar a vontade de mudança. Ao contrário do pai, o senador apostou em uma rede de palanques pelo país e teve uma campanha profissionalizada, que falou de endividamento, custo de vida e insegurança.
Ao fim, porém, a força do antipetismo e da direita radical garantiram competitividade a um candidato desacreditado pelo centrão e pelo PL, que concorreu em uma chapa isolada, com ameaça de ser substituído após cair nas pesquisas por causa da relação próxima com Vorcaro. Ainda que saia derrotado, Flávio foi alçado à liderança de um movimento político que arrebatou metade do país.
Com qualquer resultado, a eleição marca o fim de uma carreira de 24 anos no Legislativo sem feitos relevantes —Flávio vai deixar seu gabinete no 17º andar do Senado, uma referência ao número de urna do clã em 2018.
E uma lembrança da época em que o filho 01 compartilhava publicamente as opiniões de Bolsonaro em relação a urnas eletrônicas, tratamento precoce, isolamento social, ditadura militar, milícia, direitos das mulheres, homens gays e outros, sem antever a versão que adotaria no futuro.
Folha de São Paulo



