Política

Flávio busca vacina para campanha nos EUA, mas reforça que tarifaço é político

O pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) desembarcou em Washington com a difícil missão de produzir um fato político que sirva como vacina contra o tarifaço de Donald Trump e impeça que ele continue contaminando sua campanha ao Planalto. A argumentação apresentada pelo senador ao USTR (Escritório do Representante Comercial dos EUA), porém, corre o risco de produzir o efeito oposto.

Tanto nas declarações feitas nesta terça-feira (7) quanto nos comentários escritos encaminhados na última quinta (2), Flávio reforçou justamente os aspectos políticos das sobretaxas e da investigação comercial aberta contra o Brasil no ano passado.

Em documento protocolado no USTR, o presidenciável disse que o próprio Trump justificou as medidas pelo tratamento dispensado a Jair Bolsonaro no processo judicial por tentativa de golpe de Estado —classificado pelo americano de “vergonha internacional” e “caça às bruxas”.

Já no testemunho ao USTR, o pré-candidato disse que o objetivo do tarifaço era “pressionar” o governo Lula e que os resultados pretendidos pelos Estados Unidos não foram alcançados. “Em vez disso, elas [tarifas] foram politicamente exploradas pelo atual governo brasileiro; o governo que essas medidas buscavam pressionar saiu fortalecido”, declarou.

É uma estratégia arriscada e que não rebate, pelo contrário, corrobora, o discurso de Lula de que a família Bolsonaro instigou uma potência estrangeira a penalizar a economia brasileira para alcançar seus interesses pessoais e políticos —no ano passado, a reabilitação de Bolsonaro.

Solicitar, como fez Flávio na carta ao USTR, que os americanos adiem qualquer ação contra o Brasil para depois das eleições vai na mesma direção e sugere que o senador está realmente preocupado com os impactos sobre sua viabilidade política.

Em outras palavras, faz com que qualquer fala de Flávio no sentido de que atua para proteger empregos brasileiros ou mesmo o Pix pareça, no mínimo, insincera.

No campo prático, não é possível, neste momento, antecipar se o USTR manterá a recomendação de um tarifaço de 25% ou se proporá um caminho alternativo (como uma sobretaxa menor ou uma lista de exceções mais ampla).

Qualquer que seja a decisão, dificilmente o USTR poderá acolher os argumentos apresentados por Flávio porque eles podem ter implicações jurídicas.

Se Flávio sugere que a finalidade é influenciar o cenário político brasileiro, fica mais difícil para o USTR defender que a investigação teve motivação exclusivamente técnica.

No ano passado, as primeiras sobretaxas de Trump foram prontamente judicializadas por atores que se sentiram prejudicados, entre eles importadores e associações. A Suprema Corte dos EUA deu razão a esses agentes e derrubou a primeira muralha tarifária do republicano.

A expectativa, portanto, é que eventuais novas sobretaxas, mesmo que sob outras justificativas, sejam mais uma vez questionadas por quem acabar lesado por elas.

Admitir que a apuração comercial foi desenhada para ajudar o bolsonarismo a retomar o poder —adiando sua implementação para depois do pleito, por exemplo— deixaria o USTR mais vulnerável a sofrer um revés nos tribunais americanos.

Folha de São Paulo

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