Flávio toca um disco velho

Começou uma campanha eleitoral imprevisível e com cheiro de mofo. Lula foi a São Bernardo para relembrar as greves históricas de 1979, e Flávio Bolsonaro retomou o discurso errático de seu pai.
A imprevisibilidade começa quando, segundo a última pesquisa da Quaest, a percentagem de entrevistados que desaprovam o governo (48%) é superior à dos que aprovam (46%). Na realidade, esses números refletem um empate, e esse equilíbrio se repete num eventual segundo turno: Lula tem 43% e Flávio, 40%. As entrelinhas dessa pesquisa não permitem saber com precisão para onde irão as preferências dos outros candidatos num eventual segundo turno.
O cheiro de mofo vem da escolha de Lula para começar a campanha onde começou sua vida pública, há 47 anos. Cheira a mofada a essência do discurso de Flávio Bolsonaro em Copacabana, ecoando as falas do pai.
Em 2018, o antipetismo era difuso, Lula estava na cadeia e o comissariado enfrentava a adversidade com olímpica soberba. Hoje a situação é outra, prova disso é que o centrão declarou-se neutro. A consequência dessa posição só poderá ser medida na noite de 4 de outubro, com as urnas computadas.
Em 2018, Bolsonaro carregava o estandarte de Paulo Guedes, hoje seu filho oferece sucedâneos. O antipetismo de 2026 perdeu seu caráter difuso e ficou restrito a um horror visceral.
Nos últimos anos a economia viu a queda de gigantes da economia, como as redes varejistas tradicionais, as Americanas e as Casas Bahia, recorrendo à recuperação judicial. As causas das dificuldades são diversas. Nas Americanas vinham da fraude. Nas Casas Bahia há o fator tecnológico. Nos dois casos, a taxa de juros lunar.
Essas crises desempregam mais gente que os tarifaços de Trump, mas o governo, como todos os anteriores, acha que nada tem a ver com o problema, pois a taxa de juros vem do Banco Central. Verdade, mas quem expande os gastos públicos é ele.
Lula começou seu terceiro governo achando que poderia ajudar a acabar com a guerra da Ucrânia e chega ao final encrencado com dois encrenqueiros: Donald Trump e Javier Milei. Flávio Bolsonaro apresenta-se como remédio para esses males. Promessa de campanha. A Trump ele não pode e não deve dar o que ele quer. A Milei pode dar discursos e pouco mais que isso.
Com pouca plataforma, Bolsonaro 2º foi ao arquivo e de lá tirou o tema mofado das urnas eletrônicas, que seriam produzidas por uma empresa da Venezuela chavista. Não só essa patranha já foi desmentida, como o sistema eleitoral brasileiro, instalado há 30 anos, é defendido hoje pelo presidente do TSE, Kassio Nunes Marques. Quem o colocou no STF em 2020 foi Bolsonaro 1º, a partir de uma articulação de Flávio Bolsonaro. Sua recente desconfiança nas urnas é apenas falta de assunto.
O cheiro de mofo da campanha torna-se tóxico quando a operadora de planos de saúde Hapvida diz que poderá aumentar suas mensalidades em dois dígitos e nenhum candidato pergunta onde foi parar o estudo que pretendia debulhar a composição desses reajustes.
A campanha começou rala e mofada. Tomara que tome jeito.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Folha de São Paulo



