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Fotógrafo que criou raízes em GO fica cego e precisa se adaptar

Diário de poesia


A poesia é uma mulher que se sentou para escrever um diário
Depois de sentir o mar molhando seus pés
De sentir a manhã
De trazer o sol atrás de si
De cabelos soltos, de rosto corado de sol
Descalça, num vestido leve, lilás

É assim que começa um dos poemas de Luciano Ambrósio, 57 anos. Nas palavras, uma mulher caminha descalça, sente o mar, carrega o sol atrás de si e se senta para escrever. Há uma delicadeza nessa cena, mas também uma pergunta: de onde vem a imagem de quem já não pode vê-la?

Luciano é poeta e fotógrafo. Cego desde os 25 anos, ele encontrou na poesia e na fotografia duas maneiras de continuar se relacionando com o mundo. Em novembro, lança “O Meu Olhar”, livro que reúne cerca de 100 poemas e dez fotografias. A obra será apresentada ao público na Biblioteca do Senado, em Brasília, onde ele mora.

O título é também uma declaração. Luciano não fotografa apesar da cegueira. Não escreve apesar dela. A deficiência, diz, faz parte da matéria-prima de sua arte.

“A cegueira não me limita, mas serve de insumo para a minha arte”, afirma.

Luciano nasceu no interior de Lajinha, na zona da mata, em Minas Gerais, e viveu durante dez anos entre Anápolis e Alto Paraíso de Goiás. A relação com o estado permanece forte. Tem uma irmã que mora em Alto Paraíso, uma sobrinha que trabalha como guia e um cunhado técnico agrícola. Outra parte da família, conta, está ligada à educação: a irmã é professora aposentada.

Ele próprio foi professor de Geografia e História na rede conveniada do estado, em Alto Paraíso. A cidade, conhecida pelas paisagens da Chapada dos Veadeiros e pelo misticismo, também fez parte de sua formação como poeta e fotógrafo.

“Eu tenho vivência com o misticismo. Foi uma experiência interessante. Tem umas esculturas de ET e disco voador, e até um disco-porto para o pouso de naves. Eu já ouvi lendas de que alguns moradores de lá são extraterrestres. Muitas poesias minhas vem da minha vida lá em Alto Paraíso”, lembra Luciano.

Luciano morou em uma comunidade espírita, a Cidade da Fraternidade, e teve contato com experiências e crenças que, segundo ele, ajudaram a ampliar sua percepção sobre o mundo.

Mas, acima de tudo, lembra da beleza do lugar. Gosta de voltar a Alto Paraíso, de visitar o Itiquira e Pirenópolis. Goiás aparece em seus poemas não apenas como cenário, mas como memória.

“Eu sou do interior e isso é muito caro para mim”, diz.

A relação com as imagens, no entanto, começou antes da cegueira completa. Luciano enxergou durante parte da vida e foi perdendo a visão progressivamente, em consequência da retinose pigmentar, doença hereditária que já existia na família.

Aos 25 anos, passou a viver como uma pessoa cega.

O que poderia significar o fim de uma relação com o mundo visual se transformou, com o tempo, em outra forma de olhar.

“Eu sei o que é beleza visualmente falando”

Luciano faz questão de explicar que conhece a experiência de enxergar. Sabe o que é uma paisagem, uma cor, um rosto iluminado pelo sol. Sabe o que é beleza visual.

“Eu amo fotografar e a minha relação com a imagem é forte e afetiva. Eu sei o que é beleza visualmente falando”, afirma.

A fotografia, para ele, não é apenas o registro de alguma coisa. É uma maneira de se aproximar dela.

O poeta gosta especialmente da natureza, mas também dos detalhes que passam despercebidos na rotina. Uma rachadura na calçada, uma escada, a textura do chão. Em vez de buscar apenas grandes paisagens, ele prefere muitas vezes aproximar a câmera do que está perto dos pés.

“Eu gosto muito de fotografar natureza e, principalmente, os detalhes, como uma rachadura na calçada. Levar a máquina rente ao chão, e adoro fotografar escada.”

Fotógrafo cego, Luciano Ambrósio, usa um aplicativo que descreve o cenário antes de ele fotografar (Foto: Luciano Ambrósio)
Fotógrafo cego, Luciano Ambrósio, usa um aplicativo que descreve o cenário antes de ele fotografar (Foto: Luciano Ambrósio)

A frase revela um fotógrafo interessado no que costuma escapar ao olhar apressado. O que parece pequeno pode ganhar outra dimensão quando alguém decide prestar atenção.

Luciano fotografa com uma máquina profissional. Para isso, conta com a ajuda de outras pessoas, que o acompanham e descrevem os ambientes. Ultimamente, a esposa tem sido uma das parceiras nesse processo.

Ele também utiliza um aplicativo no celular capaz de descrever o ambiente ao redor. Mas há outras formas de orientação.

“Eu enxergo pelo corpo. Eu enxergo pelos pés, por exemplo, se estou numa grama, numa calçada. Eu sinto o calor do sol na minha cabeça ou no meu braço e assim sei onde está o sol.”

É com esse conjunto de referências que constrói suas fotografias. O corpo informa, a memória participa, a tecnologia auxilia e a imaginação completa o que não está mais disponível aos olhos.

Luciano Ambrósio ficou cego aos 25 anos, em consequência de uma retinose pigmentar (Foto: Luciano Ambrósio)
Luciano Ambrósio ficou cego aos 25 anos, em consequência de uma retinose pigmentar (Foto: Luciano Ambrósio)

As fotografias

As dez imagens que estarão em “O Meu Olhar” têm uma particularidade: foram escolhidas por ele e pelos olhos de outras pessoas.

Luciano produz as fotografias, mas não é ele sozinho quem faz a seleção visual final. Amigos, familiares e pessoas que o acompanham ajudam a decidir quais imagens integraram o livro.

A escolha não diminui sua autoria. Pelo contrário, faz parte da própria proposta da obra, que reúne diferentes formas de perceber.

A fotografia nasce de sua relação com o mundo. A seleção passa pelo olhar de outra pessoa. E o resultado chega ao leitor como uma experiência compartilhada.

“Eu gosto de fazer essa mistura”, explica, referindo-se à combinação entre poesia e imagens.

Fotógrafo cego, Luciano Ambrósio, diz que a fotografia de natureza é a sua preferida (Foto: Luciano Ambrósio)
Fotógrafo cego, Luciano Ambrósio, diz que a fotografia de natureza é a sua preferida (Foto: Luciano Ambrósio)

Autoconhecimento

Os poemas de Luciano tratam principalmente de sentimentos e autoconhecimento. Ele escreve sobre o que lhe vem à alma, sobre aquilo que o atravessa e sobre as experiências que acumulou ao longo da vida.

A referência que melhor define sua obra, segundo ele, está em uma canção de Milton Nascimento: Caçador de Mim.

“Eu cito na apresentação que sou como Milton Nascimento, ‘Eu, caçador de mim’. O que melhor me define e a minha arte também.”

A busca por si mesmo aparece como um dos fios que atravessam o livro. Não se trata apenas de escrever sobre o que acontece fora, mas de compreender o que se move dentro.

As lembranças de Goiás também ocupam espaço nessa construção. A vida em Alto Paraíso, as paisagens, as pessoas e as experiências reaparecem em alguns poemas.

A poesia, para Luciano, é uma forma de transformar a memória em presença.

“As pessoas precisam de beleza”

O lançamento de “O Meu Olhar” está previsto para novembro, na Biblioteca do Senado, em Brasília. A obra terá cerca de 100 poemas e dez fotografias. O poeta espera que os leitores encontrem algo de si nas páginas.

“Eu quero que as pessoas se reconheçam na minha fotografia e na poesia”, afirma.

Há, nesse desejo, uma compreensão de que a arte não precisa apenas contar a história de quem a produz. Ela pode servir de espelho para quem a recebe.

“Espero que provoque reflexão nas pessoas, que a vida é boa e não tem limite. A deficiência não é um obstáculo intransponível.”

Talvez seja esse o sentido mais profundo do título escolhido. “O Meu Olhar” não é apenas o olhar de quem perdeu a visão. Um olhar que passa pelos pés, pelo calor do sol, pela memória, pela voz de quem descreve uma paisagem e pela câmera que se aproxima de uma rachadura na calçada.

Um olhar que, mesmo sem enxergar, ainda tem muito a mostrar.


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