Governo já debate possíveis impactos de El Niño forte no agro


A confirmação da ocorrência do El Niño, com probabilidade de o fenômeno ter alta intensidade nos próximos meses, ligou o alerta da área agrícola do governo federal. Os ministérios da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário já debatem possíveis impactos do fenômeno climático na produção agropecuária, na renda dos produtores e, eventualmente, nos preços dos alimentos para a população.
Nesta semana, o Ministério da Agricultura criou um grupo de trabalho, com a participação do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), para avaliar os impactos do El Niño e propor estratégias e medidas de mitigação, adaptação e proteção ao produtor rural. O colegiado deverá identificar regiões e cadeias produtivas mais vulneráveis aos efeitos do fenômeno, como as culturas de soja, milho, trigo, feijão, cana, café e mandioca.
O Ministério do Desenvolvimento Agrário já tenta mobilizar ajuda a comunidades rurais afetadas por chuvas intensas no Amazonas e busca recursos do Fundo Amazônia para capacitar e dar formação de brigadista a assentados da reforma agrária para atuar na prevenção e combate a incêndios na região Norte do país.
Leia também
El Niño começou: o que muda para o agronegócio brasileiro?
Produtor pode amenizar impactos do El Niño no plantio da nova safra de soja
Prognóstico recente do Inmet indica chuvas acima da média no Sul e abaixo da média no centro e no norte do Brasil no trimestre até setembro, com probabilidade de temperaturas altas no segundo semestre e a ocorrência de ondas de calor e incêndios florestais.
Os modelos também indicam probabilidade acima de 90% de permanência do El Niño até, pelo menos, o início de 2027, com alta probabilidade de ocorrência de um fenômeno “muito forte”.
Seguro rural
A falta de recursos para o seguro rural, que teve orçamento bloqueado para menos da metade (R$ 473,8 milhões), é a principal carência no cenário atual, disse uma fonte do Ministério da Agricultura, que falou sob reserva. A fonte avalia que a conjuntura pode desanimar os produtores e impactar no volume total da produção do país no próximo ciclo.
De acordo com ela, o agricultor está mais conservador e a produção pode cair, o que poderia levar a uma alta de preços de alimentos. Em sua análise, o cenário problemático era uma “pedra cantada” há tempo. “Falta decisão política para usar os instrumentos de gestão de risco”, afirma.
No Ministério do Desenvolvimento Agrário, há uma atenção especial com o Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro), espécie de seguro rural público obrigatório para quem acessa financiamentos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). O mecanismo ressarce pequenos produtores em caso de frustrações causadas pelo clima.
O orçamento de 2026 é de R$ 6,6 bilhões. Na avaliação da Pasta, ainda não há risco de “estouro” dessa verba. Na safra 2025/26, encerrada em junho, foi deferido o pagamento de R$ 3 bilhões em indenizações a 71 mil comunicados de perdas de agricultores que contrataram o Proagro. Cerca de metade desse valor (R$ 1,5 bilhão) foi descontado da verba orçamentária deste ano. O montante total sob cobertura do programa no ciclo chega a R$ 12,8 bilhões.
“A pressão de eventos climáticos adversos aumentou, veio para ficar e temos que conviver com isso. Estamos monitorando. Não acreditamos no estouro do orçamento do Proagro, ainda tem espaço confortável, mas temos que monitorar para ver o que vai acontecer”, disse o diretor de Financiamento, Proteção e Apoio à Inclusão Produtiva Familiar do Ministério do Desenvolvimento Agrário, José Henrique da Silva.
“Sabemos que a questão do clima será grave. As informações técnicas e científicas apontam que haverá problema com o El Niño, mas temos que seguir monitorando para ver”, afirmou em conversa com jornalistas após coletiva sobre o Plano de Safra da Agricultura Familiar, na quarta-feira.
Na coletiva de imprensa, a ministra do Desenvolvimento Agrário, Fernanda Machiaveli, disse que ajustes técnicos feitos no Proagro nos últimos anos aprimoraram o programa e tornaram a ação de proteção das lavouras mais assertiva, focada em quem precisa, o que também limita os gastos. Ela citou incentivos concedidos, como alíquotas de contratação do seguro mais baixas, para agricultores que plantam com risco menor e dentro da janela indicada pela Embrapa.
Impactos do mercado
A possibilidade de oscilações de preços no mercado e de instabilidade climática levou a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) a pedir recentemente R$ 1,5 bilhão de suplementação orçamentária para a formação de estoques reguladores de alimentos, como arroz, milho e trigo. A estatal alegou riscos de “desorganização temporária dos fluxos de abastecimento e de eventuais choques de mercado” e que a medida ajudaria a mitigar pressões inflacionárias.
Machiaveli disse que a sugestão esbarrou em questões técnicas no governo. “Só pode ter recurso extra se tiver emergência, não pode fazer de forma preventiva”, disse. A ministra afirmou, porém, que busca mais recursos com o Ministério do Planejamento e Orçamento para lançar novos leilões de contratos de opção para compra de arroz e outras ações para aquisição de milho.
Produtores do Amazonas já relataram ao MDA a ocorrência de problemas em 16 comunidades rurais de Manaus e Presidente Figueiredo por conta do clima. Eles buscam atendimento emergencial a 960 famílias dos dois municípios e querem a destinação de quase mil cestas básicas de alimentos, 23 litros de água potável e kits de mudas de plantas nativas destinadas ao replantio e à recuperação produtiva das áreas afetadas, como açaí, tucumã, pupunha, guaraná, café, mandioca e banana.
Globo Rural



