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IA: EUA podem ter dificuldade em ignorar chinesa Moonshot – 24/07/2026 – Tec

Mais de um ano após o choque do DeepSeek, outro modelo de inteligência artificial “aberto” da China abalou o Vale do Silício. Desta vez, ignorar o desafio pode ser mais difícil para as empresas de IA dos Estados Unidos. Isso tornou uma resposta da América ainda mais provável —com consequências imprevisíveis tanto para as empresas de IA quanto para seus clientes.

As últimas ondas de choque foram causadas pelo lançamento na semana passada do Kimi K3, um modelo da startup chinesa Moonshot que chegou perto de igualar os concorrentes mais avançados dos laboratórios de IA de fronteira dos EUA.

A angústia que isso provocou lembra as preocupações com o R1 do DeepSeek. Seus baixos custos de treinamento pareciam ameaçar os modelos muito mais caros sendo desenvolvidos nos EUA. Wall Street acabou aceitando essa ameaça, acreditando que os modelos de fronteira dos EUA ainda tinham uma vantagem significativa, mesmo que ela tivesse sido reduzida para menos de um ano.

Mas o Kimi K3 —junto com outros modelos chineses como o GLM 5.2 do mês passado e o modelo Qwen 3.8 anunciado pela Alibaba no fim de semana— praticamente eliminaram a vantagem temporal.

Alguns funcionários dos EUA foram rápidos em acusar a Moonshot de copiar rivais americanos (usando uma técnica chamada destilação) e de contornar os controles de exportação de chips avançados dos EUA. Há sinais, porém, de que a inovação está desempenhando um papel cada vez mais importante.

Até mesmo um executivo do alto escalão da OpenAI admitiu que os avanços do Kimi K3 não pareciam resultado de cópia, enquanto suas melhorias arquitetônicas em relação a modelos anteriores despertaram admiração nos EUA. Isso parece competição real, não apenas emulação.

Em termos econômicos, os efeitos competitivos não são claros. Modelos de pesos abertos (uma forma limitada de software de código aberto) são mais baratos porque as empresas que os desenvolvem não buscam recuperar seus custos de treinamento, e porque são executados nos próprios sistemas do cliente ou hospedados por empresas de computação em nuvem que competem em custo.

Modelos muito grandes como o Kimi K3, porém, são caros de operar. Além disso, o verdadeiro custo para um usuário não é o preço de um token (a unidade básica de saída, na qual o preço é baseado), mas o custo de completar uma tarefa. Alguns modelos usam menos tokens para isso, ou geram menos alucinações (o que significa que menos trabalho humano é necessário para validar suas respostas).

Dito isso, a última leva de modelos chineses parece destinada a trazer maior competição de preços para as formas mais avançadas de IA. A questão agora é como as empresas de IA dos EUA, bem como os formuladores de políticas em Washington e Pequim, vão responder.

Os laboratórios de fronteira dos EUA precisam acelerar sua transição de vender inteligência bruta para empacotá-la em agentes que possam completar tarefas mais valiosas. Isso funcionou com programação, mas modelos como o Kimi K3 estão alcançando rapidamente nessa frente, forçando os laboratórios a continuar encontrando novos usos.

A competição mais acirrada também aumenta a urgência para que os laboratórios de fronteira se aproximem de seus usuários, aproveitando dados de clientes e contexto de negócios para melhorar sua relevância, enquanto incorporam seus modelos nos fluxos de trabalho dos clientes. A questão para a OpenAI e a Anthropic é se elas conseguem mostrar progresso real nessas métricas a tempo de seus enormes IPOs (oferta pública inicial).

As ramificações geopolíticas são mais difíceis de prever. O lançamento do Kimi K3 veio justamente quando o líder Xi Jinping estava promovendo a IA de código aberto como central para a proposta tecnológica da China ao mundo. Apenas dias depois, porém, o Financial Times reportou que o país estava considerando controles de exportação sobre algumas tecnologias —incluindo restringir o acesso aos pesos dos modelos mais avançados, ou seja, os parâmetros que moldam como eles respondem.

Isso aponta para uma tensão emergente na estratégia tecnológica da China Inc. Com um impulso de exportação voltado para ampla disponibilidade e baixo custo, há uma consciência crescente da necessidade de defender tecnologias desenvolvidas internamente. Não está claro como isso vai se desenrolar.

Washington, por sua vez, mostra todos os sinais de uma resposta impulsiva. O secretário do Tesouro Scott Bessent sinalizou uma possível repressão a empresas chinesas que usam destilação —embora o vazamento de propriedade intelectual de modelos que estão disponíveis publicamente seja difícil de prevenir.

Os EUA têm outras razões para tentar conter a IA chinesa avançada como, por exemplo, o risco cibernético que os modelos podem representar. Mesmo que conseguissem transformar seu mercado doméstico em uma zona protegida para modelos de fronteira dos EUA, porém, o resultado poderia ser contraproducente em termos globais. Empresas no resto do mundo ainda poderiam acessar modelos chineses baratos. E simplesmente proibir seu uso por entidades americanas não resolveria a ameaça cibernética.

Folha de São Paulo

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