Israel, apartheid

Quebrou-se o cristal: pela primeira vez, Israel foi alvo de sanções aplicadas por grandes democracias ocidentais. As sanções do Reino Unido, acompanhadas pelo Canadá e dez nações europeias, dirigem-se às colônias ilegais na Cisjordânia e têm escasso impacto econômico, mas atingem um nó sensível do Estado judeu. O governo Netanyahu reagiu furiosamente porque antevê as potenciais ramificações do gesto.
Legitimidade –eis o ativo imaterial que sustentou o Estado judeu. Israel nasceu e prosperou como pequena nação judaica no oceano árabe e muçulmano do Oriente Médio. Ao contrário das numerosas minorias cristãs da região, que praticamente desapareceram ao longo do século 20, a comunidade judaica sobreviveu pois construiu um Estado internacionalmente reconhecido.
Desde 1949, até a paz de Camp David (1979), os países árabes articularam coligações pela destruição de Israel. Na Guerra Fria, a URSS armou o Egito e a Síria para combater Israel em duas guerras. Até Oslo (1993), a eliminação do Estado judeu figurou como meta da OLP. O Irã dos aiatolás inscreveu a supressão de Israel no seu DNA. Mas, face às frentes de rejeição, havia o apoio inabalável do Ocidente. É esse bem vital que, agora, pende por um fio.
Nos últimos três anos, desde o massacre de 7 de outubro de 2023, durante a guerra bárbara conduzida pelas forças israelenses em Gaza, manifestantes de esquerda nos EUA e na Europa ergueram a bandeira da “Palestina livre do rio até o mar” –ou seja, da destruição do Estado judeu. Bem antes disso, porém, a esquerda pró-Palestina deflagrou campanhas por sanções a Israel. O conceito subjacente assumiu a forma de um paralelo com a África do Sul do apartheid.
As democracias ocidentais repeliram o argumento. O Estado do apartheid era ilegítimo por natureza e precisava ser desmantelado. Já o Estado judeu é legítimo, mas precisa encerrar a ocupação dos territórios palestinos.
A esperança de um acordo de paz baseado na convivência de dois Estados na Terra Santa protegeu Israel do isolamento internacional. Crítica, sim; sanções, não –eis o princípio diplomático aplicado generalizadamente. Por isso, o gesto simbólico liderado pelos britânicos deve ser classificado como uma ruptura histórica.
A legitimidade conferida a Israel pelo Ocidente democrático decorre, antes de tudo, de razões históricas: o Estado judeu é fruto de perseguições e pogroms implacáveis que culminaram com o Holocausto, não uma maquinação colonial europeia. Deriva, ainda, de razões políticas: Israel figura como única democracia do Oriente Médio e, apesar de suas múltiplas imperfeições, garante à minoria de cidadãos árabe-palestinos direitos políticos negados aos palestinos da Cisjordânia e Gaza pelas autoridades palestinas.
Netanyahu e sua horda de supremacistas racharam os pilares da legitimidade. O tribunal de Haia avalia qualificar como genocídio a guerra em Gaza. O governo britânico definiu como limpeza étnica amparada pelo Estado a violência sistemática dos colonos contra os palestinos da Cisjordânia. O governo israelense explicitou que o objetivo da expansão dos assentamentos é enterrar de vez a perspectiva de um Estado palestino. Mensagem dos britânicos, às vésperas da eleição: é hora de mudar o curso, para evitar que a palavra “apartheid” seja escrita sobre a bandeira do Estado judeu.
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Folha de São Paulo



