Jardim inspirado em Versalhes fica no coração de Goiânia

No coração de Goiânia existe um jardim cuja referência atravessa o Atlântico e chega ao Palácio de Versalhes, na França. O espaço fica nos fundos do Palácio das Esmeraldas, sede do Governo de Goiás, na Praça Cívica, e reúne fontes ornamentais, caminhos e canteiros de desenho geométrico, postes em estilo Art Déco e um pomar com jabuticabeiras. A Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) registra que os jardins do prédio são, de fato, inspirados no castelo projetado em 1600 para ser o maior símbolo da monarquia absolutista francesa.
A relação com a França, porém, vai além dos muros da sede do Executivo estadual. Pesquisas acadêmicas mostram que o próprio projeto inicial de Goiânia utiliza Versalhes como uma das referências para organizar o Centro e colocar a Praça Cívica como ponto de convergência das principais avenidas. A Prefeitura de Goiânia também registra que o traçado radial da capital segue princípio semelhante ao utilizado no conjunto francês.
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Goiânia e o Palácio de Versalhes
Versalhes ganha sua configuração paisagística a partir do século XVII, quando Luís XIV entrega a André Le Nôtre a remodelação dos jardins. O projeto francês se estrutura por eixos, perspectivas, parterres geométricos, vegetação controlada e uso da água na composição. O próprio Château de Versailles destaca a simetria e os grandes eixos como elementos centrais do trabalho de Le Nôtre.
Em Goiânia, não existe uma reprodução em escala do jardim francês. A referência aparece na organização formal do espaço, com geometria, fontes, canteiros e uma relação planejada entre edifício e paisagem. O conjunto goiano também incorpora elementos próprios da arquitetura e da história da nova capital, especialmente o art déco.
A diferença de escala é significativa. Em Versalhes, os jardins se estendem por centenas de hectares e integram um complexo monárquico criado para representar o poder de Luís XIV; em Goiânia, o jardim pertence à residência e à sede administrativa do governador. O ponto de aproximação está no conceito paisagístico, e não na dimensão ou em uma reprodução literal.
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A referência francesa antecede o próprio jardim. Attílio Corrêa Lima, autor do primeiro plano urbanístico de Goiânia, estuda urbanismo em Paris e utiliza modelos europeus e norte-americanos na concepção da nova capital. O eixo administrativo ocupa a parte de maior destaque do projeto.
Um artigo acadêmico publicado na revista Ateliê Geográfico, da Universidade Federal de Goiás (UFG), recupera registros segundo os quais Attílio declara ter adotado o modelo clássico de Versalhes, Karlsruhe e Washington para o núcleo central. A intenção está ligada à monumentalidade e à função político-administrativa da nova capital.
O princípio aparece no desenho das avenidas Goiás, Araguaia e Tocantins, que convergem em direção à Praça Cívica. A Prefeitura de Goiânia identifica esse traçado radial como semelhante ao modelo adotado em Versalhes. O Centro administrativo funciona, portanto, como ponto de chegada visual da cidade projetada na década de 1930.
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Palácio das Esmeraldas abriga 17 jabuticabeiras

A referência europeia passa por uma adaptação brasileira dentro do Palácio das Esmeraldas. O jardim mantém um conjunto de 17 jabuticabeiras associado a Gercina Borges Teixeira, esposa de Pedro Ludovico. Os registros apontam que as árvores são plantadas na década de 1940.
O pomar passa a ser conhecido como Jardim das Jabuticabeiras. A presença das árvores muda o caráter do espaço, que deixa de funcionar apenas como jardim formal e incorpora uma espécie frutífera ligada à vida cotidiana da residência oficial. Fontes de água e postes art déco completam a composição registrada nas fontes históricas.
A dissertação de mestrado de Marília Mota Rezende, defendida na UFG em 2021, também identifica nos fundos do Palácio uma área destinada a jardim contemplativo e outra reservada a espécies nativas, com destaque para as jabuticabeiras. O trabalho reconstrói as diferentes intervenções sofridas pelo conjunto da Praça Cívica ao longo das décadas.
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Não é uma réplica do jardim francês

A expressão “inspirado em Versalhes” exige uma distinção. Não há evidência documental localizada pelo Mais Goiás que demonstre que o espaço goiano reproduza plantas, dimensões ou setores específicos dos jardins franceses. Também não há base para tratá-lo como uma “miniatura de Versalhes”.
A relação documentada está na linguagem paisagística e, em escala urbana, no modelo utilizado para a organização do Centro de Goiânia. Versalhes utiliza eixos de simetria, perspectivas e parterres para estruturar o olhar do visitante; a capital goiana utiliza a Praça Cívica como centro de convergência e reserva ao jardim do Palácio uma composição geométrica com fontes e vegetação organizada.
Essa leitura também evita atribuir toda a autoria do jardim a Attílio Corrêa Lima. O urbanista projeta o Palácio e define o primeiro plano da cidade, mas a documentação acadêmica mostra que o conjunto sofre acréscimos e modificações ao longo do tempo. A configuração atual resulta de diferentes etapas.
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O Palácio das Esmeraldas integra a primeira fase de construção de Goiânia. A sede do governo funciona no local desde 1937 e ocupa o eixo central da Praça Cívica. O prédio integra o conjunto arquitetônico e urbanístico protegido como patrimônio.
A localização não ocorre por acaso. No desenho inicial, a sede administrativa aparece em posição de destaque e organiza parte da perspectiva do Centro. A escolha repete um princípio presente em cidades planejadas nas quais edifícios de poder ocupam o ponto final ou inicial de grandes eixos urbanos.
O próprio jardim passa por mudanças à medida que o prédio recebe anexos, novas funções e intervenções. A pesquisa da UFG aponta lacunas documentais sobre algumas dessas transformações, o que impede reconstruir integralmente cada etapa do paisagismo.
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Paisagismo entra em novo projeto de preservação

O jardim continua a receber atenção do poder público. Em 2025, a Secretaria de Estado de Infraestrutura (Seinfra) e a Casa Militar firmam termo de cooperação para desenvolver um projeto paisagístico e luminotécnico específico para o Jardim do Palácio das Esmeraldas.
O acordo prevê apoio técnico para tratar vegetação e iluminação do espaço. A medida ocorre no mesmo período em que o prédio passa por trabalhos de restauração voltados à conservação de características históricas do conjunto.
A proteção patrimonial também impõe limites às intervenções. O Palácio integra o conjunto da Praça Cívica protegido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o que transforma alterações no edifício e em seu entorno em questão de preservação histórica.
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Por que pouca gente conhece?
O jardim não funciona como uma praça aberta de circulação permanente. Ele integra o Palácio das Esmeraldas, que continua a servir como sede administrativa e residência oficial do governador, o que submete o acesso a regras institucionais. A Casa Militar confirma o uso oficial do prédio desde 1937.
O espaço já integra programas de visitação em diferentes períodos, mas não há, nas páginas oficiais consultadas nesta reportagem, um calendário permanente atual destinado exclusivamente ao Jardim das Jabuticabeiras. Em 2025, por exemplo, o governo abre parte do Palácio ao público durante uma programação específica no Salão Dona Gercina.
É por isso que o jardim permanece fora do cotidiano de grande parte dos moradores, apesar de estar em uma das áreas mais conhecidas da cidade. Atrás da fachada verde da sede do Executivo, a paisagem reúne referências francesas, arquitetura art déco e árvores plantadas ainda nas primeiras décadas de Goiânia.
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