Looks de esposas de jogadores na Copa do Mundo acendem debate sobre pressão estética e saúde

A estreia do Brasil na Copa do Mundo movimentou não apenas os torcedores e os jogadores dentro de campo. Fora das quatro linhas, esposas, namoradas e influenciadoras ligadas aos atletas da Seleção Brasileira também chamaram atenção nas redes sociais e nas páginas de celebridades. Conhecidas internacionalmente como WAGs, sigla em inglês para wives and girlfriends, essas mulheres se prepararam para acompanhar o momento com looks personalizados, peças inspiradas no uniforme do Brasil e produções pensadas especialmente para a ocasião.
Bruna Biancardi, esposa de Neymar Jr., apareceu com uma produção em homenagem ao jogador, com o número 10 nas costas. Gabriely, esposa de Endrick, escolheu um corset para prestigiar a Seleção, combinado a uma calça jeans personalizada com fotos do marido. Taia Belloli, esposa de Raphinha, surgiu em Nova York com uma peça verde com o nome do jogador bordado.
A movimentação mostra como, em grandes eventos esportivos, as mulheres ligadas aos jogadores também passam a ocupar um lugar de destaque na cobertura de comportamento, moda e celebridades. Seus looks, corpos, estilo de vida, maternidade, beleza e presença nas arquibancadas viram assunto, geram engajamento e, muitas vezes, também comentários e comparações.
Para a médica gastroenterologista Bárbara Mariano, esse tipo de exposição reacende uma reflexão importante sobre pressão estética. Segundo ela, o problema não está em gostar de moda, produzir-se para um evento ou cuidar da aparência, mas em transformar a imagem corporal em medida de saúde, disciplina ou valor pessoal.
A pressão estética e um corpo saudável – ou não
“Existe uma tendência muito comum de associar corpo magro, corpo definido ou corpo considerado bonito a um corpo saudável. Mas a aparência não mostra, sozinha, como estão o intestino, os hormônios, o sono, a saúde metabólica, a imunidade e a relação emocional daquela mulher com a comida”, explica a médica.
Durante a Copa, a atenção sobre essas mulheres se intensifica porque elas passam a ser observadas em tempo real. Uma foto publicada nas redes sociais pode gerar elogios, críticas, especulações sobre peso, comentários sobre procedimentos estéticos e cobranças por uma imagem sempre impecável. Para Bárbara, essa lógica reforça uma cultura de comparação que afeta não apenas mulheres famosas, mas também quem acompanha essas imagens de fora.
“Muitas mulheres olham para uma imagem produzida, feita em um contexto específico, com roupa, maquiagem, ângulo, iluminação e edição, e passam a se comparar com aquilo como se fosse um padrão real e permanente. Quando essa comparação vira cobrança, pode gerar sofrimento e estimular escolhas prejudiciais para o corpo”, afirma.
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O preço é alto
A especialista explica que a pressão por um corpo considerado ideal pode levar à adoção de estratégias agressivas, como dietas muito restritivas, jejuns prolongados sem orientação, retirada excessiva de grupos alimentares, baixa ingestão de proteínas, uso indiscriminado de suplementos e tentativas de emagrecimento rápido.
“O corpo feminino é muito sensível a restrições intensas. Quando há déficit nutricional, excesso de estresse e sono ruim, podem surgir queda de cabelo, piora da pele, irritabilidade, alterações no ciclo menstrual, fadiga, compulsão alimentar, perda de massa muscular e piora da função intestinal”, alerta Bárbara.
A saúde digestiva, área de atuação da médica, também pode ser diretamente afetada. Mudanças bruscas na alimentação, baixa ingestão de fibras, pouca hidratação e dietas pobres em variedade podem alterar o equilíbrio da microbiota intestinal e favorecer sintomas como constipação, gases, diarreia, estufamento abdominal e desconforto após as refeições.
“O intestino precisa de regularidade, diversidade alimentar, fibras, água e equilíbrio. Quando a alimentação passa a ser guiada apenas pela pressa em reduzir medidas ou corresponder a um padrão estético, muitas vezes a saúde intestinal é uma das primeiras a sofrer”, diz.
Além da alimentação, o estresse emocional também interfere no organismo. A comparação constante, a exposição nas redes e os comentários sobre o corpo podem ativar respostas fisiológicas relacionadas à ansiedade, ao cortisol e ao eixo intestino-cérebro, influenciando digestão, fome, sono, imunidade e inflamação.
“Uma mulher pode até seguir uma dieta aparentemente saudável, mas, se vive sob tensão, culpa alimentar, privação de sono e autocobrança permanente, esse corpo dificilmente estará em equilíbrio. Saúde não é apenas o que aparece em uma foto”, reforça a médica.
O perigo da pressão para um corpo perfeito
Bárbara também chama atenção para um ponto importante: mulheres ligadas a jogadores muitas vezes são tratadas como extensão da imagem dos atletas. Durante grandes competições, elas são observadas pelo que vestem, pelo corpo que exibem, pela forma como torcem, pela maternidade, pela juventude e até pela maneira como ocupam os espaços públicos.
“Quando o olhar sobre essas mulheres se limita ao corpo e à aparência, reforçamos a ideia de que a mulher precisa estar sempre visualmente aprovada para ser aceita. Isso é pesado para quem está sob exposição e também para quem consome esse conteúdo e passa a se cobrar da mesma forma”, observa.
Para quem deseja cuidar da aparência sem prejudicar a saúde, a médica recomenda evitar comparações e buscar estratégias individualizadas. Alimentação equilibrada, sono de qualidade, atividade física adequada, hidratação, manejo do estresse, avaliação de exames, preservação de massa muscular e atenção à saúde intestinal são pilares mais seguros do que medidas extremas.
“Beleza e saúde podem caminhar juntas, mas não devem ser confundidas. Um corpo saudável é aquele que tem energia, boa digestão, equilíbrio hormonal, força, disposição, bom sono e uma relação mais respeitosa com a comida”, finaliza.
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