Política

Lula expõe dilemas do legado e da sucessão em discurso

Naquele que deve ser seu último discurso aceitando uma candidatura à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva expôs sua condição de líder da esquerda brasileira que busca manter relevância enquanto lida com a noção de legado e a falta de uma sucessão organizada.

Na convenção do PT neste domingo (2) em São Paulo estava o narcisista usual dos palanques. A primeira metade de sua fala, de improviso, abusou do tom íntimo e autocentrado do “Lulinha da dona Lindu”, que tudo venceu.

A hagiografia acompanha a carreira do petista, de resto única. Até uma foto sua como criança foi parar na camiseta de Janja, primeira-dama resgatada pelo marido do papel de acessório de palco —uma escorregada da organização, admoestada pelo próprio presidente.

A digressão de Lula, falando bem de si mesmo foi longe, com citações a episódios históricos que não interessavam a ninguém na plateia. O controle, porém, foi retomado quando passou a ler o roteiro inicial.

Aí houve alguma coisa de substância, ainda que no fundo tudo fosse sobre Lula: o “presidente do Bolsa Família” quer a defesa de seus programas, mas não mais ser conhecido pela alcunha.

É normal que governantes atrás da reeleição tentem vender algo diferente e exaltar os feitos, mas a construção ficou contraditória. Pode ser o peso dos anos de poder e de idade expondo o drama de lidar com seu legado, mas isso é especulativo.

Como nunca permitiu que lideranças à sua sombra ganhassem destaque por si, voltou a sugerir Fernando Haddad como o sucessor.

O nome do ex-ministro sempre foi o mais óbvio no entorno lulista, mas talvez não por acaso o próprio presidente apresentou as condicionantes ao dizer que o aliado poderia buscar o Planalto após “governar São Paulo por oito anos”. Para isso, precisa chegar lá, e há um Everest à frente para tal.

Voltou a prometer ser “Lulinha porreta”, e não mais a versão paz e amor. Isso pode funcionar com a militância, assim como a convenção banhada por iluminação vermelha como há muito não se via. Já para chegar aos indecisos prioritários, é duvidoso.

Nota lateral, Lula apostou no branco do vestuário, deixando o vermelho em maior destaque no palco para Lu Alckmin, insuspeita de petismos.

Houve acertos eleitorais no discurso com roteiro. O foco nas mulheres e na violência contra elas é tema central desta campanha, assim como a já decantada disputa sobre soberania, evidenciada no bandeirão do Brasil e no trecho mais longo sobre defesa nacional.

É a terceira vez em poucas semanas que Lula dedica tempo ao tema, de resto incontornável mas sempre objeto de rejeição à esquerda, como ele mesmo admitiu. Quase nenhum general votará nele, mas o tom está em sintonia com a caserna.

Tudo isso, claro, é cortesia de Donald Trump e seu intervencionismo. Espertamente, não houve ataques diretos ao americano, e na mesma linha, ao rival Flávio Bolsonaro (PL).

O filho de Jair, chamado apenas de “traste” pelo presidente, foi basicamente ignorado. O show de horrores da convenção do rival foi objeto de piada do vice Geraldo Alckmin, mas só.

Outro foco do discurso, esse novidadeiro, foi nos idosos. Novamente, Lula acerta: 24% da amostra populacional do mais recente levantamento do Datafolha é composta por pessoas com 60 anos ou mais, o maior grupo ao lado de quem tem de 45 a 59. Nele, a vantagem do petista sobre Flávio já é maior do que na média.

O resto é promessa de campanha ou anacronismo, como a defesa de sindicatos fortes num mundo em franca transformação trabalhista. Lula prometeu revolução na educação como se não tivesse tudo quatro mandatos para tê-la feito.

Disse que irá bater de frente com o Congresso devido à ditadura das emendas parlamentares, algo que terceirizou para seu amigo Flávio Dino no Supremo até aqui. A ver.

A economia e a dívida pública em nível recorde ficaram para outro dia. Por evidente, nada sobre o Lulinha filho ou as relações do amigo Jaques Wagner com o Banco Master. Sobrou assim no palco um político de 80 anos buscando manter-se sob os holofotes.

Folha de São Paulo

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