Política

Lulinha foi investigado na Lava Jato e esteve na mira da CPI dos Correios, mas nunca virou réu

O empresário Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, voltou a se tornar investigado em inquérito da Polícia Federal duas décadas depois de aparecer no debate político do país, no primeiro governo do pai, o presidente Lula (PT).

Lulinha passou a ser alvo de três investigações autorizadas pelo STF (Supremo Tribunal Federal) em desdobramentos do escândalo do INSS. Um dos focos da apuração é seu elo com o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS.

O ministro André Mendonça é responsável pela tramitação de dois dos casos na corte, e Flávio Dino, pelo outro.

Anteriormente, Fábio Luís também foi investigado em desdobramento da Operação Lava Jato. A apuração não chegou a se tornar um processo judicial contra ele.

Pessoas próximas afirmam que o filho do presidente nunca foi chamado de Lulinha por amigos e familiares. Nos últimos anos, ele também conviveu com boatos infundados, como a acusação de ser dono de grandes empresas.

Relembre:

Telemar e Gamecorp

Em janeiro de 2005, a Telemar (atual Oi) investiu R$ 5 milhões na produtora Gamecorp, que tinha Fábio Luís entre os sócios. A empresa produzia programas de televisão sobre videogames para canais como a Bandeirantes e a MixTV.

À época, a Telemar informou que metade do valor se referia à compra de 35% das ações da produtora, e a outra metade, à exclusividade do conteúdo. Segundo a DBO Trevisan, contratada pela Gamecorp para buscar um investidor, havia um acordo de confidencialidade que impedia a Telemar de saber quem eram os sócios.

A relação comercial entre as empresas entrou na mira da Comissão Parlamentar de Inquérito instaurada em 2005 para apurar corrupção nas estatais, mais especificamente nos Correios. Essa mesma CPI mirou o esquema do mensalão, principal escândalo político do primeiro mandato de Lula.

O estopim para a comissão foi a revelação de um vídeo em que o funcionário da estatal postal Maurício Marinho negocia propina citando o respaldo de Roberto Jefferson (PTB-RJ). Dias depois, à Folha, o deputado denunciou a mesada paga a aliados. A entrevista tornou público o mensalão.

As transferências da Telemar à Gamecorp estiveram no escopo da comissão. A empresa de telefonia era concessionária de serviços públicos. Além disso, o BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) detinha 25% de uma holding com participação na atual Oi. Fundos públicos de pensão também investiam na Telemar.

Opositores de Lula à época citavam que, antes dos negócios com a empresa de telefonia, Lulinha, então com 30 anos, trabalhava em um zoológico. “Alguém com [salário de] R$ 600 num jardim zoológico passa a acumular uma pequena ou grande fortuna a partir do acordo que fez”, disse em discurso, em 2006, o então senador Arthur Virgílio, do PSDB-AM.

O nome de Fábio Luís não foi incluído no relatório final da CPI, mas investigações posteriores voltaram a se debruçar sobre os mesmos fatos.

Investigações da Gamecorp

O MPF (Ministério Público Federal) começou a investigar o caso ainda em 2005. Não houve depoimentos dos envolvidos. Foram enviados pedidos de informação à Telemar e ao BNDES, que questionavam se sabiam que o filho de Lula era dono da Gamecorp.

Em entrevista à Folha em 2006, Lula defendeu o filho e disse que ele e os sócios fizeram “um negócio que deu certo”. O petista também afirmou: “Deve haver um milhão de pais reclamando: Por que meu filho não é o Ronaldinho? Porque não pode todo mundo ser o Ronaldinho”.

Sete anos depois, em 2012, o MPF arquivou as investigações por falta de provas. O procurador Marcus Goulart justificou a medida ao afirmar que “todas essas ilações podem convencer os leigos, mas são absolutamente insuficientes para levar o operador do direito a tomar uma decisão”.

A defesa de Lulinha dizia que não havia nenhum “impedimento legal” para que ele participasse da sociedade.

Lava Jato

Anos depois, assim como o pai e irmãos, Fábio Luís também foi alvo de buscas na 24ª fase da Operação Lava Jato, deflagrada em 2016. Na época, a força-tarefa investigava a relação de Lula com empreiteiras.

Naquele ano, a PF apontou, em laudo, que financiadores aplicaram R$ 103 milhões na Gamecorp. As empresas Oi Móvel e Telemar Internet foram responsáveis por R$ 82 milhões, afirmaram os investigadores. Outros R$ 6 milhões foram pagos pelo Grupo Petrópolis, dono da Itaipava, à firma do filho do petista.

O laudo apontava também recebimentos de outras duas empresas de Fábio Luís. Na época, o documento ainda não trazia conclusões ou encaminhamentos.

A Oi disse na época que contratava a Gamecorp para serviços de produção do canal que exibia a programação da Oi TV e os direitos de transmissão do canal PlayTV.

Operação Mapa da Mina

Deflagrada em dezembro de 2019, a 69ª fase da Lava Jato voltou a apurar os repasses das empresas de telefonia. A PF chegou a pedir a prisão de Lulinha, o que foi negado pela juíza federal Gabriela Hardt.

A suspeita da PF era de que os recursos pagos pelas empresas tivessem sido usados na compra do sítio em Atibaia (SP) frequentado por Lula.

Segundo os investigadores afirmaram na ocasião, a Oi repassou R$ 132 milhões a empresas de Lulinha e do sócio Jonas Suassuna, e a Vivo, cerca de R$ 40 milhões.

Suassuna era dono de um dos terrenos da propriedade em Atibaia. Além disso, o inquérito também citava um apartamento no valor de R$ 3 milhões que teria sido comprado e mobiliado por ele para uso da família de Lula.

Em fevereiro de 2020, Suassuna vendeu sua parte na empresa de mídia. Em maio, foi a vez do filho de Lula se retirar da sociedade.

As investigações foram arquivadas em 2022. Depois que o STF reconheceu a suspeição do ex-juiz Sergio Moro, em 2021, provas que embasavam as apurações foram anuladas. Moro hoje é senador pelo PL e candidato ao Governo do Paraná.

A defesa do filho do presidente disse à época que a equipe da Lava Jato estava requentando um caso já arquivado e que a vida do filho do presidente já tinha sido devassada “por anos a fio”.

Os demais envolvidos também sempre negaram irregularidades.

Escândalo do INSS

A Operação Sem Desconto, deflagrada em 2025 para apurar desvios em pagamentos a aposentados, acabou se tornando uma fonte de desgaste para o presidente por causa de suspeita de envolvimento do filho com o lobista conhecido como Careca do INSS.

A empresária Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha, já afirmou à Polícia Federal que o apresentou ao lobista. A defesa de Fábio Luís também confirmou à Justiça que o Careca pagou uma viagem a Portugal para que ele conhecesse a produção de cannabis medicinal.

O lobista, preso desde o ano passado, é suspeito de ser o principal operador do esquema de fraudes nas aposentadorias.

Lulinha teve seus sigilos bancário e fiscal quebrados pelo STF, a pedido da Polícia Federal, e pela CPI mista do INSS em fevereiro.

Trechos dos dados sigilosos, repassados pela PF à CPI, apontam que, em quatro anos, Lulinha recebeu pouco mais de R$ 9,7 milhões em suas contas e repassou valor equivalente, somando R$ 19,5 milhões em transações.

O vazamento dos dados, na ocasião, foi considerado pela defesa “revelador e tranquilizador”, por não mostrar repasses de Careca e de Roberta. Ela também nega ter cometido qualquer irregularidade.

Nos últimos dias, o filho de Lula passou a ser investigado em três inquéritos abertos a pedido da PF e autorizados pelo STF.

Autorizado pelo ministro André Mendonça na quinta-feira (30), o primeiro inquérito apura se Lulinha cometeu os crimes de corrupção e tráfico de influência em possível negociação com o Ministério da Saúde para autorizar a comercialização de cannabis medicinal. Os advogados de Fábio Luís falam em motivação política no caso.

Também autorizado por Mendonça, o segundo inquérito, aberto na sexta-feira (31), investiga se o filho do presidente atuou junto à Dataprev (Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência), vinculada ao Ministério da Gestão e Inovação, para beneficiar um empresário e prospectar contratos.

A terceira investigação, por sorteio, ficou sob responsabilidade do ministro Flávio Dino. Nesse caso, apuram-se possíveis vazamentos ilegais de dados sigilosos e tráfico de influência.

Assim como nos outros inquéritos, a defesa de Lulinha afirma que não há irregularidades e que sua inocência será provada. Na semana passada, Lula disse que seu filho não terá privilégios e que não tentará protegê-lo.

Boatos

Depois de anos das primeiras menções a Lulinha em discussões políticas, o filho do presidente se tornou personagem de uma série de notícias falsas nas redes sociais e em aplicativos de mensagem.

Em 2022, por exemplo, o projeto Comprova mostrou que um vídeo citava falsamente Lulinha ao mostrar um “embarque gigante” em uma fazenda em São Félix do Xingu, no Pará.

A Agência Lupa, em 2023, apontou que voltaram a circular nas redes sociais postagens afirmando que Fábio Luís seria sócio majoritário da Petrobras, JBS e Oi, o que é falso. Segundo a agência de checagem, o boato relativo à JBS circula ao menos desde 2015.

Avesso a aparições públicas, o filho do presidente se mudou para a Espanha em 2025. Em março deste ano, a Folha mostrou que ele abriu uma empresa no país europeu. A defesa de Lulinha disse na ocasião que a empresa cumpre as exigências legais, tendo sido formalizada visando projetos futuros do filho do presidente.

Folha de São Paulo

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