Mariana Sena relembra relação tóxica e faz alerta sobre violência contra a mulher

A atriz Mariana Sena (31) está em festa! Ao celebrar 10 anos de carreira, ela fala com orgulho de suas escolhas e admite viver uma das fases mais intensas de sua trajetória profissional, emendando projetos atrás de projetos. Após protagonizar a série Jogada de Risco, do Globoplay, e prestes a lançar o filme Antártida, a atriz ainda encontra fôlego para viver Elenice na trama global das 9, Quem Ama Cuida.
Com a vida amorosa bem diferente da intérprete — a atriz mantém uma relação leve e madura com o ator Elzio Vieira (32), com quem tem a fofa Ayomi (2) —, a personagem da novela está presa em um relacionamento tóxico com Tom, a cargo de Allan Souza Lima (40). Para a artista, mais do que entreter, o trabalho cumpre uma função social valiosa. “É importante para as pessoas se reconhecerem e conseguirem identificar os tipos de violência, porque não tem só a física, tem a psicológica, moral, patrimonial”, diz ela, em papo exclusivo na Casa Redentor, no Rio.
Confira!
— Como recebeu o convite para a novela?
— Achei isso chiquérrimo (risos). Foi inesperado, eu estava gravando Jogada de Risco. Minha primeira novela das 9, com uma personagem densa, uma trama tão necessária, de responsabilidade grande. Primeiro foi um ‘Meu Deus, não vou dar conta!’. Depois fiquei feliz de pensar que confiaram em mim e fiquei lisonjeada.
— Em um País com o índice de feminicídio tão alto, essa trama é mais do que necessária!
— Vi uma estatística de que, a cada 30 segundos, uma mulher sofre violência doméstica. É muita gente para se reconhecer. Um relacionamento abusivo não começa assim, ele tem muitas camadas. A violência costuma começar pela psicológica e vai sendo plantada aos poucos, até a pessoa ficar tão submersa que não percebe o que está vivendo. Quando chega à agressão física ou às ameaças, ela já está muito envolvida. Por isso é tão importante mostrar essa realidade na novela. Logo no início, o público identificou isso na relação de Tom e Elenice, e achei ótimo. Em outra época, talvez, confundissem esse comportamento com amor ou cuidado… e não é.

— Como é viver esse drama?
— Para mim está sendo muito latente, porque eu já vivi esse tipo de relação e acabo lembrando de situações que passei. Parei de usar maquiagem durante esse namoro. Lembro que, uma vez, minha mãe me deu um batom para ir a um casamento, passei e ele falou que eu era bonita natural, que não era elegante, estava igual a uma p… E eu, mesmo sendo teimosa, com personalidade, falei que ficaria com o batom, mas antes de descer do carro dei uma amenizada.
— O que te fez enxergar que estava passando por isso?
— Eu era jovem, estava no segundo namoro e ainda entendendo o que era isso. Percebi que era uma furada quando as mulheres da minha família fizeram uma reunião comigo. Elas notaram que eu começava a falar e era interrompida para ele explicar tudo. Elas falaram: “Ou você termina ou a gente vai terminar por você”.

— E você terminou?
— Demorou um tempo. Eu sabia que precisava terminar, mas tinha esperança, estava envolvida. Precisei ser traída para acordar. Ele escancarou tudo na minha cara, fui no fundo do poço e só então consegui me desvincular. Depois que terminei, todo mundo dizia que eu estava com outra energia. É um resgate, porque você se perde de si nesse tipo de relação.
— Tem recebido retorno?
— Recebo muitos relatos de mulheres que conseguiram sair desse tipo de relação. Fico feliz quando meninas novas dizem que já reconhecem os sinais de um relacionamento abusivo. É uma esperança saber que uma geração consegue identificar isso mais cedo. E também há mulheres que escrevem dizendo que perceberam que estão vivendo isso.

— Como reage quando dizem que estão passando por isso?
— Demorei a responder as primeiras mensagens que recebi, não sabia o que fazer. É uma responsabilidade grande dizer: ‘Faz isso’. O não dessas mulheres pode ser uma sentença, infelizmente. Então, não mando mensagens de empoderamento, dou informações. Comecei a falar sobre o assunto nas redes porque me senti responsável. Além do 180 e da Cartilha da Lei Maria da Penha, descobri plataformas como a Ângela, assistente virtual pelo WhatsApp que acolhe e orienta mulheres em situação de violência, e o Não Era Amor, de atendimento psicológico. É um processo de reempoderamento que, inclusive, me ajudou a identificar que eu estava em uma relação assim. Quando me procuram, indico esses três caminhos. As pessoas se abrem e, como sou mulher negra, tenho alma militante e não consigo ignorar.

— Você vive algo diferente…
— Agora tenho um relacionamento tranquilo. Depois de viver uma relação abusiva, demorei a entender e achava que, a qualquer momento, alguma coisa daria errado. Mas não: estamos juntos há anos, com uma filha, construindo nossa vida, viajando, namorando e felizes. Ele foi meu primeiro e único relacionamento depois daquele e teve amor e compreensão para respeitar e participar do processo de me restabelecer.
— Feliz no amor e no ofício. Chegou aos 10 anos de carreira!
— Estou muito feliz! Aconteceu tanta coisa… me formei, fiz filme, novela, streaming. Eu não imaginava que estaria morando no Rio de Janeiro agora, gravando novela, casada, com filha, com responsabilidades. Que venham mais anos!

— E essa virada na carreira veio junto com a maternidade…
— Quando engravidei, tive medo de atrapalhar a carreira. Na época, estava em Guerreiros do Sol e deixei a novela para ter minha filha. Fiquei pensando como seria voltar a atuar, já que tinha o trabalho no centro da minha vida. A maternidade só veio para me impulsionar, dar mais autoconfiança e me fazer entender o espaço que o trabalho deve ocupar. Não é saudável viver cem por cento para o trabalho: nós temos direito à vida, à família e ao lazer.
Caras



