Esporte

Memórias e pensamentos

A festa de despedida de Lionel Messi da seleção argentina foi belíssima e emocionante.

Em 1971, eu estava presente no Maracanã quando houve a despedida de Pelé da seleção brasileira.

Vi jogar os maiores craques da história do futebol mundial, como Pelé, Messi, Maradona, Cruyff, Didi, Beckenbauer, Gerson, Garrincha, Nilton Santos, Zico, Ronaldo, Romário, Zidane, Cristiano Ronaldo, Eusébio e tantos outros. Não vi Di Stéfano jogar, mas meu pai dizia que ele era o único jogador que brilhava de uma área à outra. Não citei outros craques atuais, brasileiros e de todo o mundo, pois só serão mais bem avaliados no final de suas carreiras.

Todos os grandes craques, além de exuberantes talentos, são ambiciosos, querem ultrapassar os limites, embora alguns se percam pelo caminho. Pelé foi o melhor de todos porque foi o único que possuía no mais alto nível todas as qualidades técnicas, físicas e emocionais necessárias para a posição. Quando me tornei analista de futebol, tentei achar nele uma limitação e não consegui. Era perfeito —ou a perfeição não existe?

Os melhores momentos de Maradona foram mais encantadores que os melhores momentos de Messi, porém Messi foi muito mais regular, além de ter uma brilhante carreira por um tempo muito maior. Maradona foi mais artista, pois utilizava muito os efeitos especiais, como Ronaldinho. Messi foi mais craque. Outra grande qualidade de Messi é saber esperar o momento certo de brilhar. Não faz tentativas inúteis. Às vezes, anda em campo, observando tudo, até explodir o talento.

Vi os últimos momentos de Garrincha na preparação e nos jogos da Copa de 1966. Ele driblava várias vezes sem sair do lugar, pois não tinha mais explosão muscular para avançar com a bola e dar passes e lançamentos precisos. Não sei se Nilton Santos foi mais craque como lateral, posição em que jogou nas Copas de 1958 e 1962, ou se foi melhor ainda como zagueiro, como atuou no Botafogo no final de carreira. Ele antevia os lances e saía com a bola, com passes precisos.

Didi foi o primeiro craque que vi dar passes de curva com o lado externo do pé, de trivela. A bola contornava o corpo do adversário e chegava ao companheiro. Gerson, seu sucessor, era mais prático com seus passes precisos, curtos e longos. Os dois jogavam como se estivessem vendo a partida de cima, com megacomputadores instalados no corpo.

Beckenbauer foi o maior líbero da história. Posicionava-se atrás dos defensores para fazer a cobertura e quando o time recuperava a bola avançava e se tornava um excepcional meio-campista. Beckenbauer foi campeão do mundo como jogador e técnico da Alemanha. Mas nenhum outro craque foi tão magistral nas funções de jogador, treinador, analista e pensador como foi o holandês Cruyff.

Quem foi melhor, Ronaldo ou Romário? Há dúvidas. Romário foi mais genial dentro da área, porém Ronaldo foi mais completo, pelos dribles, velocidade e finalizações precisas.

Viajei no tempo. As lembranças de minha infância e adolescência, das épocas de jogador, médico, professor de medicina, comentarista de televisão e colunista esportivo, estão presentes na minha memória e nos pensamentos. “O que a memória amou, ficou eterno” (Adélia Prado).


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Esporte / Folha de São Paulo

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