Meu parceiro morreu por suicídio. O que devo dizer às pessoas?

Pergunta: Há um ano, meu companheiro, com quem eu morava, tirou a própria vida. Não houve nenhum sinal de alerta; eu não fazia ideia do que ele vinha planejando. Serei eternamente grata a ele por ter feito isso em um quarto de hotel, longe de nossa casa. Na ocasião, eu estava fora do país, em uma viagem de negócios. Sinto sua falta todos os dias e vou amá-lo e honrar sua memória pelo resto da minha vida.
Só soube como foram seus últimos dias depois de sua morte. Tudo isso foi um caso muito trágico de doença mental não diagnosticada e da escolha de uma família que preferiu evitar o estigma de uma cidade pequena a “revelar” um histórico de doença mental que atravessava gerações e tinha raízes no trauma de maus-tratos físicos e negligência. Desde então, venho estudando autismo em adultos, transtorno de personalidade borderline, genética e traumas de infância.
Na comunidade elitista, branca, anglo-saxã e protestante à qual ele pertencia, cada geração ensinava pelo exemplo que assuntos assim jamais deveriam sair de casa. Como não éramos casados, a família dele assumiu o controle, e suas cinzas foram enterradas discretamente, quase sem ninguém presente, sem funeral, sem obituário e apenas com uma breve nota de falecimento.
Minha pergunta é: como respondo quando me perguntam “O que aconteceu com seu companheiro?” Ou, pior: “Como terminou seu último relacionamento?”
Preciso aprender a responder sem chorar, sem revelar detalhes demais nem expressar raiva da família dele.
Resposta da terapeuta: Sinto muito pela perda de seu companheiro e por, além do luto, você ter de lidar com a tarefa de pensar em como explicar a morte dele aos outros. O suicídio é um tipo muito particular de perda —diferente, por exemplo, daquela causada por um acidente de carro, um ataque cardíaco ou um câncer. Em vez disso, vem acompanhado de perguntas sem resposta e, muitas vezes, impossíveis de responder, além do persistente estigma social, o que torna tanto o luto quanto o relato ainda mais complicados.
Você passou o último ano buscando respostas —no histórico familiar de seu companheiro, na infância dele, em possíveis diagnósticos e nas circunstâncias de seus últimos dias—, tentando entender como a pessoa que você amava chegou a um ponto que você não conseguiu prever. Sua necessidade de respostas faz sentido, mas quero que você admita a possibilidade de haver uma lacuna entre o que descobriu e aquilo que pode saber plenamente. Os seres humanos são complexos, e é difícil ter certeza de todos os motivos que levam alguém a morrer por suicídio.
Digo isso porque, quanto mais espaço você deixar para essa incerteza, menos pressionada talvez se sinta a “explicar” aos outros o que aconteceu e mais poderá se concentrar naquilo que, segundo você, é o mais importante: honrar a memória dele. Isso significa dizer a verdade, mas de uma forma que priorize seu bem-estar e permita que ele seja lembrado como uma pessoa por inteiro, em vez de ser reduzido às circunstâncias de sua morte.
É claro que sua resposta será diferente dependendo de quem estiver perguntando, e pode ser útil ter algumas respostas preparadas para não ser pega de surpresa no momento.
Para alguém que você não conhece bem, pense no que diria se seu companheiro tivesse morrido de um ataque cardíaco. Talvez dissesse: “No ano passado, ele morreu inesperadamente”, e parasse por aí. Ou talvez: “No ano passado, ele teve um ataque cardíaco e morreu”. Se seu impulso seria mencionar a causa da morte em qualquer outra circunstância, mencione-a também agora. “No ano passado, ele morreu por suicídio. Sinto muita falta dele e estou tentando elaborar tudo isso.”
Se alguém fizer outras perguntas, lembre-se de que você não deve todos os detalhes a ninguém. Ele estava deprimido? Você sabia? Como aconteceu? Se tiver vontade de responder, responda. Se não tiver, pode dizer: “Tem sido muito difícil, e prefiro não entrar nesse assunto, mas agradeço por perguntar sobre ele”.
Com alguém mais próximo, você pode optar por ter uma conversa mais profunda sobre seu luto, sobre o que amava em seu companheiro, sobre como foi triste descobrir as dificuldades das quais você não tinha conhecimento e sobre como a morte dele afetou você.
De todo modo, prepare-se para que as pessoas a surpreendam —às vezes, de maneiras inesperadamente comoventes. Uma paciente cujo irmão morreu por suicídio me contou que muitas das pessoas do trabalho de quem ela se sentia mais próxima reagiram à notícia com um solidário “Sinto muito pela sua perda” —e depois nunca mais tocaram no assunto. Ela se perguntou se teria sido assim caso o irmão tivesse morrido de outra forma.
Mas havia também um senhor calado, que trabalhava na área de TI e com quem ela havia trocado poucas palavras. Foi ele quem perguntou: “Como era seu irmão? Fale-me sobre ele. Como você está? Como sua família está lidando com isso?” Ele não fez todas essas perguntas de uma só vez —seguiu os sinais de minha paciente. Por fim, revelou que, quando era jovem como o irmão dela, também tivera pensamentos suicidas. Disse que, embora não pretendesse saber quais eram os sofrimentos do irmão dela, compreendia a necessidade que uma pessoa pode sentir de pôr fim à própria dor. Ele não lhe disse como lidar com a própria dor —nada de “Não se sinta culpada”, “Não havia nada que você pudesse ter feito” ou “Vai melhorar”. Apenas: “Eu entendo, sinto muito e não há problema em falar sobre a realidade da morte dele”.
Há muitos motivos pelos quais as pessoas evitam reconhecer um suicídio. Uma paciente cujo filho morreu por suicídio temia que, se revelasse a causa da morte, as pessoas presumissem que ela havia sido uma péssima mãe. Outras se preocupam em abalar quem fez a pergunta ou em deixar essa pessoa constrangida. Mas parte do motivo pelo qual o suicídio parece um assunto tão radioativo é o fato de tocar em algo familiar: muitas pessoas sabem como é —ou amam alguém que sabe como é— sentir-se sem esperança, desesperado ou apavorado. E existe a ideia equivocada de que reconhecer um suicídio fará essa possibilidade surgir na cabeça de alguém. Mas o oposto é verdadeiro: escondê-lo é mais perigoso do que trazê-lo à luz, o que abre espaço para as pessoas falarem sobre sentimentos que, sob o peso do estigma do suicídio, talvez não compartilhassem de outra forma.
Isso me leva a dois últimos pontos.
Primeiro, você diz estar preocupada em chorar, mas derramar lágrimas não é o mesmo que revelar detalhes demais, e conseguir contar o que aconteceu sem demonstrar emoção não deveria ser o objetivo. O objetivo é conseguir escolher o que revelar sem ter de fingir que uma perda profunda não a deixa triste.
Segundo, embora a família de seu companheiro tenha decidido como enterrá-lo, não é só ela que pode escolher como ele será lembrado. Você pode realizar sua própria cerimônia em homenagem a ele, reunir as pessoas que o amavam, falar sobre ele e contar histórias sobre quem ele era e quem vocês eram juntos. O silêncio da família dele não determina o seu.
E talvez seja exatamente essa a sua resposta: “Alguém que eu amava morreu por suicídio. A morte dele foi trágica. Minha vida ao lado dele, não. Você gostaria de ouvir sobre nós?”
Informação
Folha de São Paulo



