Política

Michelle não dá sinal de trégua, e Flávio Bolsonaro já admite ausência de ex-primeira-dama na campanha

Aliados de Michelle Bolsonaro (PL) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmam não ver qualquer sinal de reconciliação entre os dois e já admitem que a ex-primeira-dama deve mesmo ficar distante da pré-campanha à Presidência da República do enteado mais velho.

Michelle indicou sua posição ao próprio presidente do PL, Valdemar Costa Neto, na terça-feira (30), quando deixou a presidência do PL Mulher e disse estar pensando em não disputar as eleições para o Senado.

Segundo relatos, a reunião foi tensa. No encontro, o presidente do PL sugeriu que Michelle afirmasse que estava emocionalmente mal quando gravou o vídeo em que diz que foi humilhada por Flávio. A ex-primeira-dama se recusou a atender o pedido. Respondeu ainda que refletiu e orou antes da gravação e que não se arrependia de nada do que havia dito.

Pessoas próximas à família Bolsonaro lembram que a relação entre Michelle e os enteados sempre foi marcada por altos e baixos, mas acreditam que uma trégua antes das eleições parece extremamente improvável.

Aliados de Michelle afirmam que ela deve ficar em silêncio durante a campanha, concentrada nos cuidados da filha mais nova e do marido, Jair Bolsonaro (PL), cuja prisão domiciliar foi prorrogada nesta sexta pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes.

Valdemar afirma que a situação é “difícil”. “Vamos ter que trabalhar muito, precisamos da Michelle. Vamos à luta, não podemos perder ninguém, ainda mais a Michelle”, diz o presidente do PL à Folha, quando questionado sobre a ausência da ex-primeira-dama na campanha de Flávio.

Amigos de Flávio afirmam que ele tenta conversar com Michelle desde o começo do ano e continua disposto a retomar o contato. Na pré-campanha do senador, a avaliação é a de que ele não deve desdenhar da madrasta, mas sim demonstrar boa vontade publicamente.

Aliados da ex-primeira-dama, no entanto, encaram a posição com desconfiança e dizem que Flávio não agiu para impedir o que veem como ataques virtuais e notícias falsas contra ela —que inclusive teriam aumentado depois do vídeo.


Nesta sexta-feira (3), um parlamentar bolsonarista disparou uma mensagem de WhatsApp em uma lista de transmissão com uma montagem em que Michelle aparece com um boné e uma camisa do PT.

Outro fator que dificulta a aproximação é o espaço político que Flávio e cardeais do PL dão a Michelle. Apesar de dizerem em público que a ex-primeira-dama teria papel central na campanha presidencial junto a mulheres e evangélicos, ela acabou excluída na montagem das chapas estaduais.

Durante o encontro que fez com mulheres na última quarta-feira (1º), Flávio elogiou a madrasta pelo trabalho dela à frente do PL Mulher, mas depois emendou que ela está “completamente desinformada” ao insinuar que ele teria participado de uma festa do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master.

Flávio também disse não entender as motivações da madrasta. “Tem que ser reconhecido esse trabalho dela. Já reconheci uma vez, estou reconhecendo aqui de novo. Mas o que ela fez eu acho que é algo que, ou ela está sendo induzida, ou não dá para entender muito bem”, afirmou, sem concluir o raciocínio.

A ex-primeira-dama, por sua vez, de acordo com pessoas próximas, não tem a intenção de prejudicar Flávio, de ficar contra ele e nem de pedir votos para seus adversários. Michelle também não vai desencorajar a participação de suas aliadas na campanha do enteado mais velho.

Nos últimos dias, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), de quem Michelle é amiga, fizeram apelos para que ela também não desista de disputar as eleições ao Senado pelo Distrito Federal.

Um dos argumentos usados é o de que o recuo de Michelle indicaria às mulheres que não há espaço para elas na política —tese que ela tenta combater. As duas também batem na tecla de que Brasília e as pautas de Michelle, como a de mães atípicas, precisam da defesa dela no Congresso.

Michelle sempre foi considerada estratégica para a pré-campanha à Presidência de Flávio por causa do apelo junto aos eleitorados evangélico e feminino. Nas eleições de 2022, a ex-primeira-dama viajou pelo país ao lado de Celina e Damares para pedir votos ao marido.

Segundo a pesquisa Genial/Quaest divulgada em 10 de junho, Lula tem 39% dos votos no primeiro turno e Flávio, 29%. Considerando só o eleitorado feminino, porém, a diferença é ainda maior. Lula sobe para 41% dos votos, enquanto Flávio cai para 24%.

Apesar da dificuldade enfrentada por Flávio com as mulheres, que hoje representam mais da metade dos eleitores do país, parte dos bolsonaristas agora minimiza o impacto da ausência da Michelle na campanha.

A tese de uma ala do partido é a de que, com a polarização, dificilmente os eleitores de Michelle deixarão de votar em Flávio. Mesmo que haja uma migração para outros candidatos no primeiro turno, esses votos tenderiam a voltar em um eventual segundo turno contra Lula.

Folha de São Paulo

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