Saúde

‘Minha dor de cabeça de 10 dias era um câncer cerebral terminal’

Depois de passar dez dias seguidos sentindo dores, sua esposa, preocupada, o arrastou para uma consulta médica —a primeira dele em cerca de 12 anos.

“Sempre evitei ir ao médico”, conta. “Existe aquela expectativa de que homem tem que aguentar firme e seguir em frente. Eu só tomava paracetamol e tentava dormir mais cedo.”

Segundo ele, o clínico geral “não encontrou nada de errado”, receitou mais analgésicos e o encaminhou a um oftalmologista, que também não identificou qualquer problema.

Mas Kelly, 33, continuou desconfiada. “Eu sabia que alguma coisa não estava certa. Lembro de dizer que havia sinais de alerta, mas nos disseram que não havia motivo para preocupação.”

Dias depois, Josh se levantou para ir trabalhar, mas Kelly mais uma vez interveio e insistiu para que ele fosse ao pronto-socorro do Hospital Wrexham Maelor, porque a dor havia ficado insuportável.

“Era como se alguém estivesse empurrando a parte de trás dos meus olhos para fora”, contou. “Eu nunca senti nada parecido. Era uma dor inacreditável.”

Embora inicialmente tenha recebido alta com uma prescrição de morfina, a dor continuou. E, no dia seguinte, uma tomografia revelou um tumor cerebral de 4,5 centímetros.

“Eles nos levaram para uma sala reservada e mostraram o exame. No começo, eu nem fiquei triste, fiquei realmente em choque”, disse Josh.

“Pensei: ‘Talvez tenham pegado a pessoa errada’ ou ‘será que tem alguma sujeira na tela?’.”

Josh foi encaminhado ao The Walton Centre, em Liverpool, onde recebeu o diagnóstico de glioblastoma —uma forma agressiva de tumor cerebral com expectativa média de vida de 12 a 18 meses. Em seguida, passou por uma cirurgia que removeu 95% do tumor.

Josh tem 34 anos e está entre as cerca de 3.200 pessoas diagnosticadas anualmente com glioblastoma no Reino Unido, segundo a organização Brain Tumour Research.

De acordo com a organização, apenas um terço das pessoas com esse tipo de tumor sobrevive por mais de 12 meses, enquanto 4% chegam a sobreviver cinco anos ou mais.

No entanto, o tratamento para esse tipo de câncer não registra avanços significativos há duas décadas.

O governo do País de Gales informou que está desenvolvendo uma estratégia de combate ao câncer com foco em pesquisa, inovação e ampliação do acesso a ensaios clínicos.

Desde a realização da cirurgia, Josh passou sessões de radioterapia e continua em tratamento com quimioterapia no Hospital Glan Clwyd, em Rhyl, no condado de Denbighshire. Mas ele foi informado de que a doença não tem cura.

“É terminal… Ainda estou fazendo quimioterapia e espero que isso faça a diferença, mas, no momento, ainda existe muita incerteza.”

“Eu só espero que consigam manter a doença estável. Prometi à Kelly que vou tirar a árvore de Natal do sótão para ela, para que não precise lidar com as aranhas —esse é o meu objetivo atual.”

Mesmo diante da incerteza, Josh prefere concentrar sua energia no presente e reconhece que sua história poderia ter tido um desfecho diferente se não fosse a insistência da esposa. “Se tivesse continuado ignorando os sintomas, talvez eu não estivesse aqui hoje.”

‘Tento aproveitar cada dia ao máximo’

Antes da cirurgia, o maior medo de Josh não era apenas a cirurgia em si, mas a possibilidade de perder aquilo que sempre considerou parte essencial de quem ele é: seu senso de humor e sua personalidade.

“Eu sempre gostei de rir… Eu queria sair de lá ainda sendo eu mesmo, e consegui continuar sendo quem eu sou.”

Assim que acordou após a cirurgia, sua primeira preocupação foi pedir à esposa uma comida específica: KFC.

“No caminho para o hospital, passamos por um KFC, então provavelmente foi por isso que aquilo ficou na minha cabeça”, explicou.

“Eles ficaram preocupados e tiveram que pedir um Uber Eats com urgência porque eu não parava de pedir.”

“Eu nem gostava tanto de KFC antes disso, mas estava com muita vontade. Meu irmão estava comigo e ficou chateado porque eu comi tudo e não ofereci nada a ele.”


Antes do diagnóstico, Josh e Kelly faziam planos para o futuro: queriam viajar em uma van adaptada e estavam tentando ter um filho.

Com a nova realidade imposta pela doença, o casal decidiu concentrar energia em criar novas lembranças juntos.

Josh escalou o Yr Wyddfa —também conhecido como Snowdon—, participou de uma corrida do tipo parkrun, praticou stand up paddle, teve a experiência de ser tratador de animais por um dia no Chester Zoo, plantou flores no jardim e fez muitas caminhadas com seus cães, Olive e Teddy.

“Estamos apenas tentando aproveitar cada dia ao máximo”, disse Josh.

“Tento acordar cedo todos os dias e preparar um café para a Kelly. É muito fácil ficar preso a esses pensamentos, então você precisa se manter ocupado.”

O jovem disse que nunca conseguirá agradecer o suficiente aos profissionais do NHS —o serviço público de saúde do Reino Unido— que cuidaram dele, acrescentando que a “gentileza das pessoas”, de forma geral, o impressionou profundamente.

“Eu não sabia nada sobre tumores cerebrais antes disso”, contou. “É impressionante ver quantas pessoas são afetadas por isso e como você simplesmente não ouve falar. Agora parece que vejo isso em todos os lugares.”

Ele acrescentou que a doença “não escolhe suas vítimas” e que descobrir que crianças também podem ser afetadas o motivou ainda mais a compartilhar sua história.

Agora, Josh apoia pedidos por mais investimentos em pesquisas, “mesmo que isso ajude apenas uma pessoa”.

Josh e Kelly estão apoiando uma campanha que pede ao governo do País de Gales mais investimentos em pesquisas sobre tumores cerebrais.

Kelly afirmou: “Existem opções e tratamentos em desenvolvimento que dão esperança às famílias, mas eles nem sempre estão disponíveis aqui no Reino Unido. Isso é extremamente frustrante.”

O governo do País de Gales informou que seu Plano de Câncer para o País de Gales, previsto para ser publicado em fevereiro de 2027, irá “apresentar a abordagem para pesquisa, inovação e ampliação do acesso a ensaios clínicos, para que os pacientes possam se beneficiar de novos tratamentos”.

“Também estamos planejando uma Conferência sobre Câncer no País de Gales para reunir especialistas e compartilhar boas práticas no cuidado de pacientes com câncer“, afirmou o governo.

O texto foi publicado originalmente aqui.

Informação

Folha de São Paulo

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