Na campanha do PL o candidato é o de menos

Os estrategistas da campanha de Flávio Bolsonaro tiveram duas ideias para animar a convenção do PL. Nenhuma delas tinha como figura central o candidato. Ambas atearam fogo na controvérsia litigiosa e jogaram zero luz sobre o que pretende o postulante a presidente.
Estiveram lá o argentino que ora preside um país com a imagem ainda fresca de mau perdedor, despejando grosserias, e um Jair Bolsonaro de IA dando a entender que será ele o protagonista da cena governamental caso o filho seja eleito.
Pareceu que o objetivo daqueles magos foi falar com o público cativo, a fim de apertar um pouco mais o parafuso da fidelidade bolsonarista. Se for esse o tom daqui em diante, fica a dúvida: para quê? Numa disputa apertada, reza o bom senso, a necessidade é converter os indecisos.
Talvez os estrategistas estejam sentindo que há risco de deserção. Ou, quem sabe, o espetáculo em modo casca-grossa não tenha sido uma escolha fruto de planejamento, mas a decorrência natural de uma forma de ser. De qualquer maneira, o que ficou registrado naquele esplendor de vulgaridades foi o retrato do sem-jeito em que apareceu um deslocado Flávio Bolsonaro.
Ali naquele cenário mostrou que é aquele modelo de candidato nem carne, nem peixe. Não é de verdade o moderado civilizado e preparado, como estava escrito no roteiro inicial. Fosse, teria comandado o show e dado outro tom ao próprio ato oficial de lançamento.
O senador tampouco atende aos requisitos de rudeza e boçalidade da dupla Jair e Javier que entusiasma a plateia adepta desse tipo de, digamos, coisa. Nas ocasiões como a convenção, ele se encolhe no papel de figurante.
Não se pode dizer que o filho escolhido fique com um pé em cada canoa, porque de fato não embarca de corpo inteiro em nenhuma delas. Não porque não queira; até se esforça. Ameniza com pedido de desculpas à madrasta, radicaliza com desconfiança nas urnas eletrônicas, mas não convence porque não é talhado para o figurino que o pai o mandou vestir.
Folha de São Paulo



