Política

Nas redes, julgamento de Moraes ganha contornos eleitorais e vira debate sobre o STF

O julgamento que colocou o Supremo Tribunal Federal diante da possibilidade de investigar um de seus próprios ministros rapidamente deixou de ser apenas uma discussão sobre Alexandre de Moraes. No primeiro tempo da sessão desta terça-feira, 15, a disputa sobre quem poderia julgar o ministro e sob quais regras ganhou espaço nas redes e passou a rivalizar com as acusações que deram origem ao caso.

Entre 8h e 13h59, a discussão sobre o julgamento reuniu 73.200 menções, feitas por cerca de 29.000 autores, segundo levantamento do Instituto Democracia em Xeque (DX), a partir de dados do Talkwalker — plataforma de monitoramento de redes sociais. As publicações somaram 579,3 mil interações e alcançaram potencialmente 7,5 bilhões de pessoas. O pico ocorreu pouco antes das 13h, seguido de uma queda com a suspensão da sessão para o horário eleitoral.

A sessão extraordinária, convocada para analisar a Petição 16.662, começou com questões processuais que rapidamente ganharam protagonismo. Kássio Nunes Marques declarou-se impedido, alegando sua atuação anterior na presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), enquanto Dias Toffoli se declarou suspeito por motivos pessoais. A discussão sobre a relatoria assumida pelo presidente do STF, Edson Fachin, também avançou ao longo da manhã. Na meia hora das 12h, o tema chegou a representar 16% das publicações monitoradas pelo DX.

O ministro do STF, Dias Toffoli (Rosinei Coutinho/STF)

O raio-x dos ministros do STF

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Moraes domina a conversa, mas Mendonça tem pico

Alexandre de Moraes foi o ministro que mais apareceu nas redes durante a manhã. Entre 8h e 12h55, ele acumulou 230.475 menções, o equivalente a 45% das referências aos cinco ministros monitorados pelo estudo, além de 1,2 milhão de interações.

Sua presença foi praticamente contínua: Moraes liderou 56 dos 60 intervalos de cinco minutos analisados pelo DX. O movimento mudou perto das 12h50, quando André Mendonça atingiu 7.862 menções em apenas cinco minutos e ultrapassou Moraes — o maior pico registrado por qualquer ministro durante o período.

Homem careca de pele clara, vestindo terno azul, camisa branca, gravata azul e toga preta, sentado em uma cadeira de couro marrom, com expressão séria, olhando para a direita. O fundo é escuro com um reflexo de luz azulada
O ministro do STF, Alexandre de Moraes (Rosinei Coutinho/STF)
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O salto ocorreu depois de uma sequência de confrontos entre os dois. Moraes acusou Mendonça de mentir, afirmou que ele estaria a serviço de um grupo político que tentou dar um golpe no país e questionou quem teria medo da Polícia Federal. Segundo o levantamento, as menções a Moraes passaram de 4.483 para 6.252 em cinco minutos após uma dessas falas.

O embate também contaminou a conversa sobre o termo “golpe”: 8% da base analisada continha a palavra, e 90% dessas publicações tinham tom negativo, segundo o DX. Pouco depois, Gilmar Mendes entrou na disputa ao rebater Mendonça com referências a “pixuleco” e “boneco eleitoral”.

A disputa que antecedeu o julgamento

O aspecto mais revelador do levantamento, porém, aparece quando o DX observa a evolução dos assuntos ao longo da manhã. Às 10h, antes mesmo da abertura do plenário, 25% das publicações tratavam do pedido de investigação ou afastamento de Moraes. A transmissão e a segurança da sessão respondiam por 29% da conversa.

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Uma hora e meia depois, o cenário havia mudado. Na meia hora das 11h30, suspeições e impedimentos chegaram a 35% das publicações. Na faixa seguinte, a disputa sobre relatoria e regimento alcançou 16%. Depois das falas de Moraes, às 12h30, o eixo relacionado à participação do próprio ministro no julgamento saltou de 3% para 16%, enquanto o pedido de investigação voltou a representar 22% da conversa.

Um julgamento transformado em espetáculo

O levantamento do DX mostra que o episódio foi interpretado de maneiras radicalmente distintas pelos campos políticos. Perfis de direita apresentaram Mendonça como uma exceção em uma Corte considerada comprometida e passaram a trabalhar com a expectativa de que o ministro teria uma “bomba atômica” capaz de inviabilizar um voto favorável a Moraes.

No campo progressista, os afastamentos de Nunes Marques e Toffoli foram associados aos vazamentos de mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro. O relatório ressalva, porém, que essas mensagens não tiveram autenticidade e contexto estabelecidos e não há culpa estabelecida contra nenhum dos citados

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“Compreende-se que o digno ministro André Mendonça tenha suas divergências funcionais ou pessoais com a Polícia Federal e possa defender os seus direitos perante a instância própria. Mas tais direitos não podem converter-se em fundamento para a prolação de decisão em causa própria.” - Flávio Dino, ministro do STF
“Compreende-se que o digno ministro André Mendonça tenha suas divergências funcionais ou pessoais com a Polícia Federal e possa defender os seus direitos perante a instância própria. Mas tais direitos não podem converter-se em fundamento para a prolação de decisão em causa própria.” – Flávio Dino, ministro do STF (Gustavo Moreno/STF)

A mesma lógica de disputa apareceu em torno de Flávio Dino. Às 12h15, o ministro chegou a liderar a conversa, com 4.391 menções em cinco minutos. Para perfis de direita, o embate de Dino com Fachin e a discussão levantada por Gilmar sobre a redistribuição do processo seriam uma tentativa de adiar o julgamento para 23 de setembro.

O resultado foi um julgamento paralelo nas redes: além de discutir o caso Moraes–Vorcaro, os usuários passaram a julgar os próprios julgadores, suas relações, seus impedimentos e a legitimidade das regras utilizadas pelo tribunal.

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A eleição entrou no plenário

A crise também rapidamente ganhou contornos eleitorais. Segundo o levantamento, 10% das publicações sobre o julgamento mencionavam a eleição, impulsionadas inicialmente pelo pronunciamento de Flávio Bolsonaro.

Perfis de direita passaram a apresentar o julgamento como argumento para a eleição de Flávio e associaram uma eventual reeleição de Lula à permanência de Moraes e Dino no centro do poder.

Do outro lado, perfis aliados ao presidente Lula comemoraram o pedido de vista de Gilmar e interpretaram o movimento como uma derrota da estratégia oposicionista de produzir pânico eleitoral.

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