Política

O dever cristão de se manter informado

Eu posso ignorar que Flávio Bolsonaro alimenta uma perigosa semente de guerra religiosa ao anunciar que seu primeiro ato, se eleito, será decretar “Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Guerra dentro do próprio cristianismo.

Posso ignorar que o pastor JB Carvalho, fundador da igreja onde Flávio foi batizado em 2023, acusa prostituição religiosa da Igreja Católica, e que o pastor Victório Galli, ex-deputado e assessor de Jair, apresentou projeto de lei para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Posso ignorar o ataque a bispos da CNBB e os riscos à liberdade religiosa.

Posso ignorar o desprezo de Flávio por mulheres, sua rejeição à Lei Maria da Penha, seu orgulho de “não ser feministo” e de lutar apenas por “mulheres de verdade”. Posso ignorar correntes bolsonaristas que se opõem ao voto feminino, que ganham tração nos porões extremistas do Brasil e dos Estados Unidos.

Posso ignorar conexões de Flávio com o miliciano Adriano da Nóbrega, com Major Ronald e Robson Calixto (condenados no caso Marielle), com Domingos Brazão; posso ignorar construção de seu patrimônio ligada a transações em dinheiro vivo e à loja de chocolates; ou suas relações com Willer Tomaz e Daniel Vorcaro, com o Careca do INSS, com Rodrigo Bacellar e Cláudio Castro.

Posso ignorar que André Mendonça expôs fatos graves sobre Alexandre de Moraes e não fez nada equivalente para informar o eleitor sobre Ciro Nogueira, Cláudio Castro, Ibaneis Rocha, Dias Toffoli, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux.

Mendonça nem sequer deu transparência à sua própria relação com Vorcaro e aos contratos públicos de seu instituto, do qual se retirou sem esclarecer se deixará de prestar serviços ou usar de sua autoridade para renda privada. Ou se foi um delito ético, que continua sem explicar. Posso ignorar que, na série extravagante de ordens monocráticas do STF, nenhuma se compara em radicalidade e lesividade eleitoral às de Mendonça.

Posso ignorar que Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e Kassio Nunes anularam provas produzidas contra Flávio no caso das “rachadinhas”.

Posso ignorar tudo isso e chamar fatos documentados de fake news. Tenho direito de acreditar e abraçar a mentira. Afinal, tenho direito à ignorância. Sou livre para, sendo ignorante, renunciar à minha liberdade. Livre para a servidão. Esses paradoxos do direito constitucional e da moralidade política me favorecem.

A ética da ignorância estratégica, aquele modo insincero de se relacionar com a verdade, pode confortar a consciência. Contudo, é incompatível com qualquer conceito não cínico de pessoa de bem, com qualquer fé que se preocupa com o próximo, como a fé cristã. A Bíblia condena a “ignorância deliberada”, e há responsabilidade espiritual por tamanha cegueira voluntária.

Informar-se é um direito-dever cívico, como o voto. Voto livre depende de boa informação. Voto que ignora tanta coisa e apoia candidato-símbolo das práticas mais cruéis e sinistras da sociedade brasileira, sem deixar nada de fora, nem tortura ou crime organizado, nem corrupção ou exploração da fé alheia, também é insustentável na fé cristã.

Posso ter direito à ignorância. Só não posso exercer esse direito e reivindicar amor em Cristo. Se Deus existe, Deus está me vendo.


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Folha de São Paulo

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