Esporte

O mais novo dia de fúria de Neymar

O capítulo mais recente de Neymar no futebol brasileiro traz um antes, durante e depois que ajuda a explicar bem os sentimentos desencontrados que este personagem gera. Foi generoso, altruísta, decisivo, infantil e provocador em menos de 24 horas.

Neymar é capaz de fazer um evento beneficente na segunda-feira, um ato nobre e elogiável, e dar uma declaração contida e reflexiva sobre a imprensa e o estado psicológico que os jogadores podem ficar por conta de críticas exageradas e fake news.

Em campo, fez a jogada que decidiu a classificação do Santos para as quartas de final da Copa do Brasil. Foi mais esperto que o defensor, tomou a frente e teve calma para esperar o momento certo do passe para o gol de Rony.

Era um dia redondo, até que, após o apito final, bateu boca com um torcedor, mandando beijos direcionados à mulher dele, e no túnel dos vestiários seguiu provocando dirigentes e torcedores do Remo, contido por seguranças, cantando e dançando “eliminado” para o rival da noite.

A sucessão de acontecimentos é um prato cheio para apoiadores exaltarem o fator decisivo em campo e o “jogador raiz” que não leva desaforo para casa e tem todo o direito de responder a quem começou as provocações. E também serve de munição para os críticos reforçarem as convicções de um jogador infantil e mimado, rebaixando-se da posição de estrela do futebol mundial para rebater provocações de torcedores de um clube modesto como o Remo.

No fim, os dois lados estão corretos. Neymar é tudo isso. Capaz do melhor e mais elogiável e de atitudes indefensáveis minutos depois. Após mais de 15 anos acompanhando sua carreira, já deveríamos estar acostumados com essa dualidade impossível de agradar ou desagradar a todos.

Na semana passada, escrevi aqui que Neymar deveria ser feliz no simples. Jogar futebol e ir alegrando-se com o dia a dia de atleta, antes de pensar em algo mais grandioso para o que ainda resta de sua carreira. Acho que ali eu também subestimei sua maneira de viver o esporte, sempre à flor da pele.

Neymar nunca será feliz no simples, porque sua busca é sempre pelo caos. O conflito, ainda que seja com um torcedor do Remo, é o que o move. Quando ainda era um adolescente, em 2011, gravou um comercial dizendo que só queria ser “mais um menino feliz brincando com sua bola”. Talvez ele nunca tenha sido isso, porque desde muito cedo já tinha os olhos do mundo na sua direção e funcionava mais como uma empresa do que como um garoto jogando bola.

Não sei se algum dia Neymar será genuinamente feliz em campo, mas parece que não. Está mais para um garoto descendo uma ladeira em um carrinho de rolimã sem freio, indo sempre extra-acelerado, capaz de ótimas manobras, mas também com pouco controle da própria sorte.

Ao mesmo tempo que é um privilégio vê-lo jogar, é insuportável todo o ruído gerado por ele mesmo a cada mínima oportunidade. Seu talento poderia servir para unir as pessoas ao redor do futebol, mas quase sempre as distancia por todo o resto que vem junto.


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Esporte / Folha de São Paulo

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