Esporte

O método Ancelotti e o método Tuchel

Podemos dividir os técnicos de futebol em dois grupos: aqueles que concebem uma forma de jogo e tentam implantá-la onde estiverem e aqueles que observam o material humano de que dispõem para só depois desenvolver sua estratégia. Chamemos os primeiros de teóricos inventores. Chamemos os segundos de pragmatistas maleáveis.

São tipos ideais, claro, não existem em forma pura. Inventores se veem em situações que exigem saídas pragmáticas. Pragmatistas desenvolvem convicções sobre como o jogo deve ser jogado.

Telê Santana e Pep Guardiola são teóricos inventores. Don Revie (1927-1989) e Carlo Ancelotti são exemplos de pragmatismo.

A diferença entre teóricos inventores e pragmáticos maleáveis pode ser vista nas convocações de Inglaterra e Brasil. Como todos os formados na escola de Ralf Rangnick, o também alemão Thomas Tuchel sempre fez questão da alta intensidade e da contrapressão imediata depois da perda da bola. Deixou claro que não convocaria os 26 melhores jogadores ingleses, mas os 26 que tivessem condições de formar a melhor equipe.

Ante sua lista, ouviram-se gritos indignados: “Por que levar Noni Madueke e deixar Cole Palmer e Phil Foden em casa? Como não levar Harry Maguire?”.

Tuchel, alemão sempre deixou claro que Palmer e Foden, que rendem pouco nas pontas, disputariam vagas no meio. Morgan Rogers, do Aston Villa, teve uma temporada superior. Jude Bellingham, do Real Madrid, não arrasou neste ano, mas tem mais valências defensivas que Palmer e Foden. Estes estariam em qualquer lista dos dez ingleses mais talentosos, mas ficaram de fora porque não têm a cara da equipe que Tuchel quer armar. O mesmo se aplica a Maguire: como jogar na contrapressão com um zagueiro que é sempre o mais lento entre os 22 atletas que estão em campo? Tuchel determina sua visão de equipe e depois escolhe as peças. É um método dedutivo, próprio dos teóricos inventores.

Tuchel fez o que, salvo engano, ninguém nunca havia feito ou voltou a fazer: derrotou Guardiola em três partidas decisivas consecutivas. Em seis semanas entre abril e maio de 2021, o Chelsea de Tuchel eliminou o Manchester City na semifinal da Copa da Inglaterra, impediu o título antecipado do City na Premier League, e venceu-o na final da Champions League.

No terceiro jogo, Tuchel havia penetrado na cabeça de Guardiola de tal forma que o catalão, ante a dúvida sobre se jogar com Rodri, Fernandinho ou ambos, decidiu jogar sem volante defensivo nenhum. Sem âncora, o meio-de-campo do City derreteu, N’Golo Kanté passeou e o Chelsea levantou o caneco. Conhecendo a cabeça dos inventores, Tuchel levou Guardiola a perder por excesso de invencionice.

Se Tuchel escolhe como sua seleção vai jogar e depois escolhe as peças, Ancelotti faz o contrário. Chega, observa os jogadores disponíveis, sente o clima do país, visita estádios, acompanha desfiles de escolas de samba, interpreta o vestiário em que entrou e só então decide como jogar.

Leio a convocação de Neymar nesse contexto: “Os jogadores precisam dele e sua ausência causaria muito ruído? Levo e administro, não tem problema”. É um método indutivo, próprio dos pragmáticos.

Para meu gosto, o melhor choque de técnicos que esta Copa pode oferecer seria um encontro entre Brasil e Inglaterra.


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Esporte / Folha de São Paulo

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