O peso do professor

Lembro com carinho da minha professora da primeira série, a tia Célia, em uma época em que essa etapa correspondia ao que hoje seria o segundo ano do ensino fundamental. As lembranças são vagas, mas o carinho com que ela tratava os alunos permaneceu na minha memória. Depois dela, tive outros professores que marcaram a minha trajetória, inclusive durante a graduação e a pós-graduação.
O papel e a importância do professor permanecem, independentemente da etapa escolar. Quando somos crianças, há uma relação de aprendizado e uma conexão quase maternal. Conforme crescemos, essa relação muda. Permanece a transmissão do conhecimento e, talvez ainda mais forte, a do gosto pela disciplina. A influência pode ser tamanha a ponto de determinar até a escolha da profissão e, em alguns casos, transformar-se em amizade.
Minha mãe teve, no ensino fundamental 2, uma professora de inglês chamada Maria Luiza, com quem, mesmo depois de ter terminado o colégio, manteve contato. A relação de aprendizado se transformou em uma amizade que durou décadas. Com o tempo, eu e meu marido também nos tornamos amigos dela. Foi uma das pessoas mais inteligentes e cultas que conhecemos.
É claro que uma relação entre professor e aluno não precisa se transformar em amizade, nem que gostemos de todos os professores da mesma maneira. A combinação de aprendizado e inspiração contribui para o progresso dos alunos. Além disso, a relação aluno-professor é desigual, na medida em que há uma hierarquia e cabe aos professores avaliar os alunos.
Essa posição torna ainda mais importante refletir sobre possíveis vieses. Professores, como qualquer pessoa, podem carregá-los. Mesmo de forma inconsciente, esses vieses podem interferir no aprendizado e, muitas vezes, no progresso dos alunos. Seus efeitos podem se manifestar no desempenho acadêmico, na desistência de um curso e até nas escolhas profissionais. Eu mesma, quando corrijo provas, evito olhar os nomes dos alunos. É uma forma de reduzir possíveis vieses no momento da correção.
Estudos acadêmicos mostram que professores podem apresentar vieses relacionados à raça ou ao gênero. Um estudo recém-publicado de Joan J. Martinez, com dados de alunos e professores do Peru, mostra que a exposição a professores de matemática com práticas de avaliação mais estereotipadas amplia as desigualdades de gênero no ensino médio e pode ter consequências que se estendem ao mercado de trabalho. O artigo também apresenta evidências de que professores com estereótipos de gênero mais fortes tendem a associar meninos à matemática e às ciências e meninas às humanidades. Como, então, evitar que esses vieses interfiram no aprendizado?
Acho que a primeira coisa é analisar o próprio comportamento em sala de aula e as próprias crenças. Muitas vezes, tendemos a reproduzir o que aprendemos anteriormente. Se parte dos vieses que observamos hoje foi construída e transmitida ao longo do tempo, precisamos romper com esse ciclo. Talvez essa seja a parte mais difícil: reconhecer padrões que muitas vezes reproduzimos sem nos darmos conta. E podemos, sem perceber, reforçar crenças que os próprios alunos têm sobre si mesmos.
Nesse sentido, a figura do professor é primordial para mudar essas crenças. Construir um ambiente que enfatize a perseverança, o feedback construtivo e a ideia de que a inteligência é maleável —pilares da teoria da mentalidade de crescimento— ajuda a desconstruir certas crenças. Alunos, principalmente crianças e adolescentes, absorvem muito do que lhes é ensinado e da forma como são incentivados e avaliados. Por isso, professores podem ter um papel decisivo não apenas na transmissão do conhecimento, mas também na forma como os alunos percebem suas próprias habilidades.
Desejo a todos um feliz Dia dos Professores.
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Folha de São Paulo



