Política

O PL e as regras do jogo

Duas lições importantes da ciência política são que as instituições importam e que os atores políticos aprendem a agir conforme as regras do jogo. Os Legislativos eleitos em 2026 mostram exatamente isto: Atores, em especial do campo bolsonarista, que entendem essas regras e buscam maximizar seus resultados dentro delas.

Como amplamente noticiado, a fragmentação partidária na Câmara dos Deputados caiu. Medida pelo Número Efetivo de Partidos (NEP), indicador que considera o peso de cada partido no total de cadeiras, ela atingiu o menor patamar desde 2002.

A queda não se restringiu à Câmara. Dados do CepespData mostram que, após crescer continuamente entre 2006 e 2018, a fragmentação média nas assembleias legislativas e na Câmara Distrital também caiu nas duas últimas eleições. Entre 2022 e 2026, a fragmentação caiu em 22 das 27 Casas Legislativas estaduais.

Os principais fatores para a redução do NEP são o fim das coligações, a cláusula de desempenho e o Fundo Eleitoral, instituídos em 2017 e que concentraram a oferta partidária em nível nacional. Embora o Fundo não seja repartido com base em votos ou cadeiras de deputados estaduais, as “dobradas” entre candidatos a deputado federal e estadual impulsionam o voto em determinadas legendas. Isso ajuda alguns partidos a superar a cláusula e a conquistar uma fatia maior da verba.

Além das regras, há um trabalho estratégico de construção partidária realizado pelo PL. O bolsonarismo teve uma relação errática com siglas até desembarcar no PL em 2021. Desde então, mesmo com contradições, investiu no partido. Como exemplos, temos o périplo de Michelle Bolsonaro pelo país na construção do PL Mulher e as indicações de Jair Bolsonaro para vereador em 2024, que, na prática, reproduziam a chapa do PL em diversos municípios.

Em 2022, porém, esse movimento ainda era incipiente, tanto para políticos quanto para eleitores. Embora nem todo político bolsonarista seja filiado ao PL, há forte concentração desses no partido. E se parte relevante do eleitorado já declarava preferência pelo PL, esse eleitorado agora teve quatro anos para se acostumar ao rótulo e consolidar essa relação. O brasileiro costuma decidir o voto para o Legislativo na reta final da campanha, com dificuldade, diante do grande número de candidatos. Assim, mesmo sem ser o principal vetor de escolha, a associação PL-Bolsonaro tornou-se um importante atalho para muitos eleitores.

Não por acaso, o PL cresceu cerca de 4 pontos percentuais na Câmara e, em média, 8 pontos percentuais nas assembleias. Mesmo não sendo o principal fator explicativo, esse crescimento contribuiu de forma relevante para a queda da fragmentação nos Legislativos estaduais.

Como mostra Glauco Peres da Silva em artigo acadêmico recente, a queda da fragmentação na Câmara em 2022 ocorreu entre partidos de centro e de direita, enquanto a esquerda, liderada pelo PT, mantém divisão semelhante desde 1998. Esse movimento se confirma em 2026. Agora, capitaneado pelo PL, como o grande partido da direita brasileira.


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Folha de São Paulo

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