O que fica das Copas

O que será lembrado da Copa de 2026 daqui a 60 ou 80 anos? A genialidade, os gols e a abnegação de Messi em idade provecta para o futebol? As arrancadas potentes de Mbappé? A infalibilidade tranquila de Haaland? O ocaso de Cristiano e do Menino N?
Tratando-se de um evento com o impacto midiático que tem, é possível que nada disso seja perdido lá na frente, especialmente nestes tempos em que empresas concorrem para gerar tráfego e visualização de marcas, a fim de que as IAs as percebam e as perenizem.
Assim mesmo, tendo a achar que a grande imagem deste Mundial no futuro será a tabelinha Trump-Infantino na inédita suspensão da suspensão da pena do atacante estadunidense Balogun, “um de nossos melhores jogadores”, na justificativa de Trump.
Pela enorme atenção que atraem, Copas e Olimpíadas não estão imunes ao jogo jogado fora das literais quatro linhas na formação da memória futura e do imaginário coletivo. O massacre terrorista que vitimou 11 israelenses em Munique-72 e os punhos erguidos à Panteras Negras no pódio dos 200 metros em México-68 são lembranças vívidas daquelas duas Olimpíadas.
Sim, houve Nadia Comaneci em Montreal-76 a preceder o boicote liderado pelos Estados Unidos e a lágrima do ursinho Misha em Moscou-80.
Mas voltemos às Copas. Qual imagem sobressai de Qatar-2022? Mbappé carregando a França no 3 x 3 da final contra os vencedores ou os muitos operários imigrantes estafados e mortos na construção dos estádios? Recuando um pouco, os oito gols da tragédia insólita do Mineirão ou a ignição que o investimento exigido pelo “padrão Fifa” e pela corrupção estrutural deu às Jornadas de Junho no prólogo de Brasil-2014? Chicão a acertar canelas em Rosário ou o aperto de mão negado ao ditador Videla pelos vice-campeões holandeses em Argentina-1978?
Na América do Norte-2026 talvez a história também possa ser contada por aquilo de que não se falou, ou melhor, por aquilo que pouco repercutiu, por absurda normalização. Como o bombardeio, real, com mísseis, ogivas e aviões, e mortes, e enterros, e choro, e destruição, impingido a um país classificado, cortesia do principal país anfitrião.
A Fifa disciplina e coíbe manifestações políticas de seus protagonistas (das quatro linhas), o que talvez tenha ajudado, paradoxalmente, a amplificar a voz do técnico egípcio, eloquente ao falar das mortes incessantes na Palestina.
Talvez tenham sido palavras jogadas ao vento, liquidificadas na indiferença que acomete a nós tantos, mas Hossam Hassan aproveitou bem o momento em que, supostamente, elas mais poderiam ser ouvidas.
“Você vê a situação das crianças [palestinas] que são assassinadas. Que têm pernas e braços amputados ou ficam cegas. O futebol poderia servir para que a imprensa e os jogadores apoiassem causas humanitárias. Quando crianças são mortas, elas usam camisetas da Argentina, do Barcelona, do City, do Real Madrid. Amam o futebol, estão sendo assassinadas e você fica calado.”
Seu time acabava de deixar a Copa, bastante em função da genialidade e da abnegação de Messi, bastante em função de uma decisão contestável da arbitragem da qual desta vez Trump e Infantino acharam por bem calar.
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Esporte / Folha de São Paulo



