Política

‘O que não pode haver é alternância de regime’, diz Marina Silva em ato de frente ampla por Lula

O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) encerrou, na noite desta quinta-feira (22), o Ato de Frente Ampla pela Democracia e pela Soberania, na Casa de Portugal, no bairro da Liberdade, em São Paulo (SP). Organizado pelo Direitos Já! Fórum pela Democracia, o encontro reuniu lideranças do PSDB, do PSD e de outros partidos, além de intelectuais, artistas e representantes de movimentos sociais, em apoio à chapa Lula-Alckmin, a três dias do segundo turno.

Esta foi a 15ª edição do ato. Na abertura, o coordenador do Direitos Já!, Fernando Guimarães, leu o manifesto “Segundo turno: em defesa da Democracia, do Estado de Direito e da Soberania”, lançado com a assinatura de mais de 100 organizações da sociedade civil. O texto aponta ataques à Justiça Eleitoral, desinformação e propostas de anistia a quem atentou contra as instituições como sinais de corrosão democrática, e conclama o eleitor a votar “em quem esteve inequivocadamente ao lado da Constituição, da democracia, dos direitos da população mais pobre e da soberania”.

‘O povo não erra’

Último a falar, Alckmin pediu empenho nos dias que restam até a votação. “O povo não erra. Ele precisa ter todas as informações. E cabe a nós, é nosso dever, esclarecer a população”, afirmou.

O vice-presidente comparou as gestões de Lula e de Jair Bolsonaro (PL) em educação, saúde e combate à corrupção. Citou a operação Carbono Oculto, da Polícia Federal e da Receita Federal, contra o crime organizado no setor de combustíveis, e o fechamento do Banco Master, que, segundo ele, “nasceu no governo Bolsonaro, cresceu no governo Bolsonaro”. Alckmin também listou investigações envolvendo Flávio Bolsonaro (PL), como o caso das rachadinhas e a relação com o Banco Master, e cobrou do adversário prestação de contas.

Ao lembrar o ex-governador Mário Covas, de quem foi vice, Alckmin repetiu uma frase atribuída a ele: “Você pode ser um pouco mais à esquerda, um pouco mais à direita […], mas o que diferencia homens e mulheres públicos é quem tem apreço pela democracia e quem não tem apreço pela democracia”.

O vice-presidente pediu ainda que os militantes procurem quem não votou no primeiro turno. “Quem não votou no primeiro turno pode votar no segundo, nenhum problema. Vai ser rápido, agora é um voto”, disse.

Tucanos e PSD

O ato teve presença marcante de nomes do PSDB e do PSD. Mário Covas Neto, filho do ex-governador, dirigiu sua fala a filiados e simpatizantes do PSDB que resistem a votar em Lula por causa da antiga rivalidade com o PT. “Hoje não está em jogo sequer quem é o bandido, quem é o mocinho […]. Também não está em jogo um novo governo de quatro anos. O que tá em jogo hoje é a democracia”, afirmou.

O ex-governador de Goiás José Eliton, que lançou um manifesto de tucanos goianos em apoio a Lula, defendeu que o próximo governo seja “de conciliação e unidade nacional”. Pelo PSD, a vice-presidenta nacional do partido e ex-vice-prefeita de São Paulo, Alda Marco Antônio, resumiu: “Ou é o arbítrio ou a liberdade, ou é a democracia ou a ditadura da milícia”. O ex-prefeito de Salvador (BA) Edvaldo Brito, presidente do diretório municipal do PSD na cidade, lembrou que o partido liberou seus filiados no segundo turno. “O caminho da Bahia é Lula”, disse.

A deputada federal Tabata Amaral (PSB) se apresentou como alguém de “visão de mundo mais ao centro”. “Eu não preciso ser petista para ter clareza de qual é o caminho no próximo domingo”, afirmou, citando sua condição de mulher, de filha de nordestinos e de católica. Também discursou o deputado federal Fausto Pinato (União Brasil), que relatou ter perdido amigos e aliados por apoiar Lula.

Empate no Datafolha

A pesquisa Datafolha divulgada durante o ato foi lembrada em várias falas. O levantamento mostra Flávio Bolsonaro e Lula com 50% dos votos válidos cada; nos votos totais, Flávio tem 47% e Lula, 46%, em empate técnico.

A historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz, professora da Universidade de São Paulo (USP), anunciou o resultado do palco. “Nós estamos na ascendente. Então não é hora de economizar esperança e não é hora de economizar verdade”, disse.

A ex-ministra Simone Tebet (PSB) lembrou a evolução das pesquisas desde o primeiro turno, quando a desvantagem de Lula chegou a quatro pontos. “Hoje, exatamente hoje, faltando três dias, nós estamos numericamente empatados. O que significa que esta eleição ainda não está decidida”, afirmou. Tebet propôs um “pacto” até domingo: “Ninguém dorme, ninguém come, ninguém toma banho sem levar o celular até para o banheiro para poder continuar pedindo voto”.

Marina Silva (Rede) criticou a postura de Flávio Bolsonaro no debate da TV Bandeirantes, que classificou como “corporalmente agressivo” e “desrespeitoso” com o presidente, e defendeu a democracia como garantia de disputa futura. “Numa democracia há alternância de poder. O que não pode haver é alternância de regime”, afirmou.

Sociedade civil

O reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, José Vicente, atribuiu a Lula a chegada da população negra às universidades e a cargos de comando. “Negros de todas as partes do nosso país, levantem e andem até as urnas no domingo”, conclamou.

Também falaram a jurista Flávia Piovesan, ex-comissária da Comissão Interamericana de Direitos Humanos; Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora; a escritora Bia Bracher; o ator Cássio Scapin; e a vice-governadora eleita do Ceará, Gabriella Aguiar. “Votar é assumir responsabilidade pelo governo em que se votou. Abster-se, votar nulo ou em branco é um voto naquele que vier a ganhar”, disse Bracher.

Além do manifesto, o Direitos Já! divulgou a carta “Não há neutralidade possível”, em que declara apoio explícito a Lula e Alckmin. O texto se dirige a lideranças empresariais, acadêmicas, religiosas e culturais que ainda não se manifestaram. “Há momentos em que o silêncio deixa de ser prudência e passa a ser escolha”, afirma a carta.

Criado em 2019 e inspirado nas Diretas Já, o Direitos Já! reúne partidos de diferentes campos políticos, organizações e personalidades em defesa da democracia e da Constituição de 1988.




Brasil de Fato

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