Os bastidores da saída de Jaques Wagner da liderança do governo Lula no Senado

Nas últimas décadas, o Brasil testemunhou uma sucessão de escândalos de corrupção. Houve de quase tudo: desvio de emendas, compra de apoio parlamentar pelo governo com recursos públicos, pagamento de propina em troca de contratos superfaturados, venda de sentenças judiciais, roubo do dinheiro de aposentados e pensionistas e distribuição de favores, inclusive pecuniários, para garantir benefícios e proteção nos Três Poderes. Ao ser descoberto, cada esquema despertou a esperança de que a falcatrua seria passada a limpo, corruptos e corruptores seriam punidos e a República, finalmente, seria saneada. Não foi o que aconteceu. O julgamento do mensalão até levou para a cadeia dirigentes do PT, mas foi um ponto fora da curva, como admitiu o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso. Já a Operação Lava-Jato mandou para a prisão um ex-presidente, caciques partidários e alguns dos maiores empreiteiros do país, mas suas principais decisões foram anuladas, em razão de falhas processuais e do conluio entre o juiz e os procuradores responsáveis pelo caso. Como consequência, um ladrão teve até a ousadia de pedir de volta o dinheiro que roubou.
Contestadas com armas poderosas, as raras ações de combate à corrupção bem-sucedidas não geraram o efeito pedagógico esperado, não colocaram um freio na roubalheira e não conseguiram nem mesmo moralizar um pouco a relação entre interesses públicos e privados, que continua a ser tocada, muitas vezes, como se não houvesse limites a serem respeitados. O caso do Banco Master é emblemático. Na última fase da operação deflagrada para esquadrinhar a maior fraude bancária da história do país, a Polícia Federal (PF) acusou o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), de atuar no Legislativo a favor das demandas do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Em retribuição, ele teria recebido um apartamento avaliado em cerca de 2,5 milhões de reais e ingressos para o camarote de um show em Los Angeles, que teriam custado mais de 60 000 reais. Em outra fornada de propina, a empresa da esposa de um enteado de Wagner teria sido agraciada com repasses milionários.
Um dos petistas mais próximos do presidente Lula, Wagner recorreu ao Supremo contra a ação da PF alegando ter sido vítima de um erro grave, já que teria atuado não a favor, mas contra os interesses do Master, versão corroborada pelo ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, candidato ao governo de São Paulo. O avanço das investigações mostrará quem tem razão. O estrago eleitoral, de imagem e no campo da moralidade, no entanto, já está feito. Ao tentar justificar o recebimento do apartamento citado pela PF, o líder do governo disse que pediu a Augusto Lima, antigo executivo do Master de quem era amigo, que comprasse o imóvel, que depois seria recomprado por ele, Wagner. Não teria havido pagamento de propina, mas apenas um favor — no caso, uma espécie de empréstimo que o senador nunca esclareceu quando nem como pagaria. Além disso, a polícia apreendeu com o senador uma pilha de dólares e euros em espécie — dinheiro proveniente de diárias, segundo ele. Nem os petistas engoliram as histórias.

Com medo de que o caso respingue na candidatura à reeleição de Lula, estrelas do PT passaram a pressionar Wagner a entregar o cargo de líder no Senado. Ele até resistiu, mas jogou a toalha após uma reunião com o presidente, cujo objetivo é conquistar um novo mandato, e não salvar companheiros em apuros, por mais que em jogo esteja uma amizade de quatro décadas. “Minha prioridade é provar a minha inocência e me dedicar à reeleição do presidente Lula e do governador Jerônimo Rodrigues, além da minha reeleição junto com o Rui Costa para o Senado”, escreveu o ex-líder numa rede social, referindo-se às eleições presidenciais e as da Bahia. Antes de cair, Wagner recebeu uma manifestação de solidariedade do presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Nada mais compreensível. Conforme revelado por VEJA, advogados de Daniel Vorcaro disseram, durante negociação de um acordo de colaboração premiada, que Alcolumbre recebeu do esquema do Master 30 milhões de dólares — ou mais 150 milhões de reais — numa conta secreta no exterior. Vorcaro prometeu mostrar as provas disso caso a colaboração seja aceita, o que ainda não ocorreu. A PF já sabe que o fundo de previdência do Amapá investiu 400 milhões de reais em papéis do Master quando era dirigido por um afilhado político e ex-tesoureiro de campanha de Alcolumbre. Um irmão do senador também integrava o conselho desse fundo. Alcolumbre permanece em silêncio a respeito desses fatos e vem negando qualquer relação com o esquema Master.
Protagonista de uma ascensão meteórica no sistema financeiro e no mundinho da política, Daniel Vorcaro e seus tentáculos usaram favores como os prestados a Jaques Wagner para montar uma rede de contatos com autoridades dos Três Poderes. Bancando festas, jatinhos, garotas de programa e prazeres diversos como uma degustação de uísques premium, o ex-banqueiro se tornou um grande mecenas, que impulsionou sua galeria de falcatruas por meio também, segundo a PF, da distribuição de vantagens indevidas. Desde a eclosão da fraude do Master, poderosos do primeiro escalão da República agem para abafar as investigações, que já arranharam a imagem do Supremo. Numa sessão recente, o ministro André Mendonça, relator do caso, declarou ter recebido de um advogado uma proposta de delação premiada seletiva, que ele teria rechaçado. Decano da Corte, o ministro Gilmar Mendes aproveitou a deixa para declarar que Mendonça cometeu um erro crasso ao tratar da colaboração com o advogado, o que seria proibido por lei.

O decano também já reclamou de algumas prisões decretadas, que seriam uma forma de garantir a confissão de crimes, e não espontaneamente, como determina a legislação. O embate é travado sob os holofotes. Na segunda-feira 22, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, Mendes foi perguntado se a possibilidade de eventual delação do ex-banqueiro já não era uma página virada, por atemorizar tantos poderosos, de ministros do STF a líderes do Congresso. “No atual momento, parece que você tem razão, mas as coisas podem mudar. Eu não vou assumir nenhuma posição em relação a isso”, respondeu o decano. Nos últimos dias, circularam rumores de que Daniel Vorcaro estaria contratando uma outra equipe de advogados para apresentar uma nova proposta de colaboração — a terceira. Pessoas próximas ao ex-banqueiro reclamam de uma suposta má vontade da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República para investigar a fundo determinados personagens a partir das confissões dele e para levar adiante o acordo de delação.

No Congresso, a recente operação sobre Jaques Wagner reacendeu em parlamentares da oposição a grita pela instalação de uma CPI do Master. Desse grupo faz parte o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, que pediu 134 milhões de reais a Daniel Vorcaro supostamente para financiar a cinebiografia de Jair Bolsonaro. Um recurso privado para um empreendimento privado, alegou o Zero Um, acrescentando que não houve cobrança de contrapartida por parte do ex-banqueiro. Quando a fatura foi apresentada, o banco já enfrentava dificuldades e tentava se salvar com a ajuda da rede de relacionamentos tecida por seu dono. Os políticos, mais do que ninguém, sabem que agentes privados não dão apartamentos, não financiam filmes, não pagam viagens, não contratam consultorias e não bancam festas de forma desinteressada. Jaques Wagner, agora ex-líder do governo, certamente sabia.
Colaborou Ricardo Chapola
Publicado em VEJA de 26 de junho de 2026, edição nº 3001
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