ouro, resistência e memória negra em GO

Nas serras da atual Niquelândia, no norte de Goiás, o ouro atraiu exploradores, movimentou arraiais e levou milhares de pessoas escravizadas para o interior da então Capitania de Goiás. Foi também nesse território marcado pela mineração que homens e mulheres negros encontraram caminhos para escapar do cativeiro e organizar espaços de resistência. Entre eles estava o Quilombo do Muquém, registrado pela Universidade Federal de Goiás (UFG) entre os quilombos históricos do estado. A documentação sobre a comunidade é pequena, mas suficiente para revelar uma parte pouco conhecida da formação goiana.
A presença do Muquém nesse mapa ajuda a contar o ciclo do ouro por uma perspectiva diferente daquela dominada pelos exploradores, bandeirantes e arraiais mineradores. Dados históricos reunidos em pesquisa da UFG mostram que, em 1736, havia 10.265 pessoas escravizadas registradas no território goiano, das quais 1.196 estavam nas minas do Tocantins. A historiografia citada pela universidade também registra que praticamente não havia arraial em Goiás sem a presença ou a ameaça de quilombos. Onde o sistema escravista se expandia, portanto, diferentes formas de resistência também surgiam.
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O ouro transformou o norte de Goiás

A atividade mineradora nas chamadas Minas dos Goyazes ganhou força a partir das primeiras décadas do século XVIII e provocou uma corrida para o interior do território. A exploração exigia grande quantidade de trabalhadores, e a população negra escravizada tornou-se essencial para sustentar a economia que se formava ao redor do metal. Registros de cobrança de capitação analisados por pesquisadores mostram a dimensão desse contingente já nos primeiros anos da mineração. Em 1736, apenas poucos anos depois do início da exploração sistemática, mais de 10 mil escravizados estavam contabilizados em Goiás.
A distribuição dessa população acompanhava as áreas de mineração. Segundo os números apresentados em pesquisa da UFG a partir da obra do historiador Luís Palacín, 4.021 escravizados estavam nas minas de Sant’Anna, 1.366 em Crixás e 1.196 nas minas do Tocantins, além dos chamados “adventícios”, que trabalhavam por períodos proporcionais. A região de Niquelândia estava inserida nesse universo econômico do norte goiano. A riqueza retirada da terra dependia diretamente de uma estrutura baseada no trabalho compulsório.
As condições impostas aos trabalhadores escravizados aparecem em estudos acadêmicos sobre a mineração colonial. Homens eram submetidos a longos períodos dentro de rios, escavações e minas, enquanto a exploração também se estendia à agricultura, pecuária e outras atividades que sustentavam os núcleos mineradores. Fugir tornou-se uma das respostas possíveis a esse sistema. E as características geográficas do interior de Goiás ofereciam lugares onde grupos podiam tentar permanecer fora do alcance de seus perseguidores.
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As serras se transformaram em caminhos para a liberdade

Uma das referências sobre a formação do Quilombo do Muquém foi preservada pela historiadora Nilza Botelho Megale e reproduzida atualmente pelo Santuário Diocesano de Nossa Senhora d’Abadia do Muquém. De acordo com essa narrativa, negros escravizados fugidos das minas auríferas de Cocal, Água Quente, Traíras e São José do Tocantins procuraram as serras da região. Ali teria sido formado o Quilombo do Muquém. A informação coincide com o cenário histórico de mineração e escravização registrado pelas pesquisas acadêmicas sobre Goiás.
O deslocamento para regiões afastadas não era casual. A sobrevivência de uma comunidade formada por fugitivos dependia de distância dos centros coloniais, conhecimento da paisagem e condições para obter água e alimentos. O relevo e o isolamento podiam dificultar a ação das expedições organizadas para recapturar pessoas escravizadas. Em diferentes regiões de Goiás, essa estratégia contribuiu para o surgimento de comunidades quilombolas.
Mas chamar essas comunidades apenas de esconderijos reduz o significado histórico dos quilombos. Depois da fuga, era necessário construir moradia, produzir alimentos, estabelecer relações comunitárias e criar mecanismos para permanecer no território. A liberdade precisava ser organizada cotidianamente. É justamente essa passagem da fuga para a construção de uma comunidade que transforma o quilombo em uma experiência social de resistência.
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A UFG registra Muquém entre os quilombos históricos de Goiás

Material acadêmico disponibilizado pela UFG reúne uma relação de quilombos registrados na história do estado. Entre os nomes aparecem Acaba Vida, Ambrósio, Cedro, Forte, Kalunga, Mesquita e Muquém. Sobre este último, a universidade o localiza próximo à atual Niquelândia e junto ao povoado de mesmo nome. O registro acrescenta que Muquém foi um quilombo conhecido na região, embora poucas informações sobre ele tenham chegado ao presente.
Outro trabalho acadêmico da UFG também coloca Muquém entre os quilombos registrados em Goiás, ao lado de Acaba Vida e Papuã, igualmente associados a Niquelândia. O levantamento inclui ainda Forte, em São João d’Aliança; Mesquita, em Luziânia; Pilar e Kalunga, no Nordeste goiano. A presença de três registros relacionados a Niquelândia indica que a formação de comunidades de resistência negra não foi um episódio isolado na região. Ela integrava uma dinâmica mais ampla produzida pela escravidão e pela mineração.
O caso de Acaba Vida é particularmente interessante para compreender esse cenário. O levantamento da UFG informa que o quilombo ocupava terras férteis na mesma região de Niquelândia e aparece em registro de 1879. A referência demonstra que a presença quilombola atravessou diferentes momentos da história local. Mesmo depois do declínio do grande ciclo minerador, comunidades negras continuaram fazendo parte da ocupação daquele território.
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O fenômeno não estava restrito a Niquelândia. Pesquisa recente disponibilizada no repositório da UFG recupera a avaliação do historiador Luís Palacín de que praticamente não havia arraial em Goiás sem a presença — ou pelo menos a ameaça — de quilombos. Há registros inclusive nas proximidades de Vila Boa, atual cidade de Goiás. Isso mostra como a resistência acompanhou geograficamente a expansão da sociedade escravista.
Os números ajudam a dimensionar a sociedade em que essas comunidades surgiram. A série histórica reunida pela UFG aponta cerca de 10 mil escravizados em 1735, 15.321 em 1741 e 17.154 em 1749. Já o recenseamento da Capitania realizado em 1804 registrou aproximadamente 20.650 negros em cativeiro, equivalentes a 41% da população. Não se tratava, portanto, de uma presença periférica na sociedade goiana.
Essa dimensão altera a maneira de compreender a própria formação de Goiás. A população negra não participou apenas como força de trabalho utilizada na retirada do ouro, na agricultura ou nos serviços dos arraiais. Pessoas escravizadas também resistiram, escaparam, estabeleceram comunidades e criaram redes próprias de sobrevivência. A história dos quilombos é, nesse sentido, parte inseparável da história econômica e social do estado.
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A perseguição deixou mais registros que a vida dentro do quilombo

Há uma dificuldade particular para quem tenta reconstruir a história do Muquém quase três séculos depois. Grande parte da documentação colonial foi produzida por autoridades, proprietários, religiosos e agentes encarregados de manter a ordem escravista. Comunidades formadas por pessoas fugidas tinham exatamente o interesse contrário: permanecer distantes do controle oficial. Por isso, sabemos muitas vezes mais sobre as tentativas de capturá-las do que sobre o cotidiano de seus moradores.
A tradição histórica preservada sobre o Muquém exemplifica essa desigualdade documental. O relato associado à historiadora Nilza Botelho Megale informa que uma companhia de homens armados, comandada por um capitão do mato, capturou os quilombolas. A narrativa está atualmente reproduzida pelo próprio Santuário do Muquém. Não há, porém, documentação disponível nas fontes consultadas que permita determinar quantas pessoas viviam na comunidade ou identificar individualmente seus moradores.
Também não é possível estabelecer com precisão quanto tempo o núcleo permaneceu organizado. Essas lacunas precisam ser mantidas em vez de preenchidas por suposições. O que a pesquisa histórica permite afirmar é a existência do quilombo e sua vinculação ao território de Niquelândia. A falta de detalhes sobre seus habitantes diz também muito sobre quais vidas a documentação colonial considerava dignas de registro.
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O nome Muquém atravessou os séculos
Se os documentos sobre o antigo quilombo são escassos, o nome permaneceu associado ao território. Muquém continua identificando uma localidade de Niquelândia, município que possui 9.846 quilômetros quadrados e população de 34.964 habitantes no Censo 2022. A enorme extensão territorial ajuda a compreender as distâncias e o isolamento que historicamente caracterizaram diferentes núcleos rurais da região. Pesquisa da própria UFG situa o distrito de Muquém a cerca de 45 quilômetros da sede municipal.
A palavra aparece também em outra realidade contemporânea: Vargem Grande do Muquém. A comunidade é reconhecida atualmente como quilombola em Niquelândia e foi objeto de pesquisa de mestrado da Universidade de Brasília sobre território tradicional e conservação do Cerrado. O estudo acompanhou inclusive o processo de autorreconhecimento territorial da comunidade entre 2020 e 2023.
É necessário, contudo, fazer uma distinção histórica. As fontes consultadas não permitem afirmar simplesmente que Vargem Grande do Muquém seja a continuação direta do Quilombo do Muquém do período colonial ou que todos os atuais moradores descendam daquele núcleo. Demonstrar essa continuidade exigiria pesquisa genealógica, documental e de história oral específica. O que pode ser afirmado é que a identidade quilombola permanece presente no território de Niquelândia.
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A pesquisa desenvolvida na Universidade de Brasília apresenta Vargem Grande do Muquém como uma comunidade quilombola inserida no Cerrado. O trabalho analisa como seus moradores se relacionam com o território, os recursos naturais e a conservação ambiental. Também observa processos de automapeamento e organização comunitária vinculados ao direito de permanecer na terra. A discussão mostra como território, para comunidades tradicionais, ultrapassa a noção de propriedade física.
Vargem Grande do Muquém aparece ainda em registros oficiais recentes do Governo de Goiás. Em 2024, a comunidade foi uma das nove atendidas em uma operação estadual voltada a populações quilombolas do norte do estado que poderiam enfrentar isolamento durante o período chuvoso. Na mesma relação aparecem Rafael Machado e Traíras, também em Niquelândia. O dado mostra a presença contemporânea de diferentes comunidades quilombolas no município.
Em 2026, outro passo institucional alcançou Vargem Grande do Muquém. Iphan e Incra incluíram a comunidade entre seis territórios quilombolas goianos beneficiados por uma parceria voltada à regularização fundiária e preservação cultural. O acordo prevê levantamentos arqueológicos e antropológicos que poderão subsidiar processos de reconhecimento e titulação. Isso significa que a relação entre memória, ocupação histórica e território continua sendo investigada no presente.
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A arqueologia poderá ajudar a recuperar histórias que o papel não guardou
A parceria firmada em 2026 entre Iphan e Incra chama atenção justamente porque utiliza outra forma de investigar o passado. Levantamentos arqueológicos podem identificar vestígios de ocupação que documentos escritos não registraram. As informações poderão ser combinadas com estudos antropológicos e outros dados sobre os territórios quilombolas. Vargem Grande do Muquém está entre as comunidades escolhidas para esse trabalho.
O acordo terá duração de dois anos e prevê compartilhamento de bases de dados, diagnósticos arqueológicos e antropológicos e capacitação das equipes. Segundo o Iphan, evidências de ocupação histórica podem fortalecer os laudos utilizados nos processos de reconhecimento territorial. Em Goiás, além de Vargem Grande do Muquém, participam comunidades de municípios como Goiás, Piracanjuba, Professor Jamil, Santa Cruz de Goiás e Abadia de Goiás.
Para uma região cuja história quilombola deixou poucos registros escritos, a iniciativa abre uma possibilidade importante. O solo, os caminhos, objetos e formas de ocupação podem guardar informações que nunca chegaram aos arquivos oficiais. Não significa que a arqueologia necessariamente encontrará vestígios do antigo Quilombo do Muquém. Significa que novas ferramentas estão sendo usadas para compreender a profundidade histórica da presença quilombola no território.
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A história do ouro também precisa contar quem o retirava da terra
Durante muito tempo, o ciclo do ouro em Goiás foi contado a partir da descoberta das jazidas, do surgimento dos arraiais e dos personagens associados à colonização. Os números recuperados pelas pesquisas acadêmicas acrescentam outra dimensão. Em determinados momentos do século XVIII, dezenas de milhares de pessoas negras escravizadas integravam a sociedade goiana. Sem elas, a economia mineradora que marcou a formação do território simplesmente não teria funcionado.
Mas reduzir essas pessoas ao trabalho seria repetir outra forma de apagamento. Elas também construíram estratégias de sobrevivência, famílias, relações culturais e movimentos de resistência. Os quilombos são uma das manifestações mais concretas dessa capacidade de agir diante do sistema escravista. Muquém pertence a essa história.
O dado mais significativo talvez esteja justamente no contraste. O ouro deixou registros porque precisava ser pesado, tributado e controlado pela administração colonial. Quem fugia das minas precisava fazer o oposto: escapar dos registros, das estradas controladas e dos homens enviados para capturá-lo. Por isso, a escassez documental sobre Muquém não torna sua história menor; ajuda a explicar a natureza da resistência que ali existiu.
Onde havia ouro, nasceu resistência
Séculos depois, o metal retirado das antigas minas já não explica sozinho a história daquela região. A pesquisa acadêmica permite olhar para as serras do norte goiano e perceber que elas também serviram de abrigo para pessoas que recusaram o lugar que a sociedade escravista havia reservado para elas. O Quilombo do Muquém nasceu nesse contexto. E seu registro permanece entre as experiências históricas de resistência negra identificadas em Goiás pela UFG.
Não conhecemos os nomes da maioria daqueles homens e mulheres. Também não sabemos exatamente quantos eram, como distribuíam suas tarefas ou por quanto tempo conseguiram permanecer no território. Sabemos, entretanto, que existiram. E que sua existência foi significativa o suficiente para atravessar gerações e chegar aos registros históricos.
Hoje, pesquisas acadêmicas, comunidades quilombolas e novas investigações arqueológicas ajudam a deslocar o olhar sobre o passado de Goiás. A história deixa de ser apenas a narrativa daqueles que encontraram ouro e passa a incluir também quem foi obrigado a retirá-lo da terra. Entre as serras de Muquém, alguns deles fizeram mais do que fugir.
Construíram uma experiência de liberdade.
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