Política

Outsiders na eleição: por que Augusto Cury parece ser o Pablo Marçal da vez

O escritor e psiquiatra Augusto Cury, autor de best-sellers que o consagraram no universo da autoajuda, surpreendeu neste início de semana ao aparecer na terceira posição na corrida presidencial, atrás apenas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), segundo levantamentos Nexus/BTG e AtlasIntel/Bloomberg.

Com percentuais que variam de 7,8% (na AtlasIntel) a 11% (na Nexus), Augusto Cury ensaia potencial para provocar algum abalo na calcificação política brasileira recente entre petismo e bolsonarismo – se isso será algo consistente, só as próximas pesquisas poderão dizer.

A aparição com destaque do escritor na corrida presidencial, de certa forma surpreendente, lembra outro fenômeno político recente. Em 2024, Pablo Marçal, empresário e ex-coach, também tumultuou o mundo político ao aparecer como outsider competitivo na disputa pela prefeitura de São Paulo, maior cidade do país.

Concorrendo por um partido pequeno, o PRTB, ele colocou em xeque o duelo entre o candidato apoiado pelo bolsonarismo – o prefeito Ricardo Nunes (MDB) – e o nome do lulismo – o deputado federal Guilherme Boulos (PSOL). Ao final do primeiro turno, após uma apuração tensa, ele teve 28,14% dos votos válidos e ficou muito perto de ir ao segundo turno – Nunes teve 29,48% e Boulos, 29,07%.

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Há vários pontos semelhantes entre os dois fenômenos. O primeiro é que ambos chegaram às urnas após uma trajetória construída fora da política – e fizeram disso um trunfo eleitoral. Marçal é empresário e autor de livros que falam sobre investimentos, finanças pessoais e empreendedorismo, enquanto Cury ficou milionário com publicações de autoajuda, como “O Vendedor de Sonhos”.

Ambos também apostam no discurso do empoderamento individual, promovendo a ideia de que as pessoas podem superar adversidades e vencer na vida, com crescimento pessoal, social e profissional – e com isso colocam no radar do eleitor saídas diferentes daquelas apontadas pela política tradicional.

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Os dois também se vendem como representantes da renovação de poder, o que nos dois casos fica facilitado pela persistente polarização política do país entre petismo e bolsonarismo, que já dura quase dez anos.

Engajamento digital

Por fim, ambos apostam bastante nas redes sociais, onde têm milhões de seguidores. Augusto Cury tem 10,7 milhões de adeptos só no Instagram, enquanto Pablo Marçal tem 13,9 milhões na mesma plataforma.

Os dois também têm estreitado relações, tanto que na semana passada, quando o número de seguidores de Cury passou a ter um salto exponencial, levantou-se a hipótese de que ele estivesse contando com a ajuda de Marçal, o que foi negado pelo marqueteiro da campanha de Cury, Sérgio Lima.

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No primeiro debate presidencial do ano, na Band, quando Cury ameaçou não participar, após as desistências de Lula, Flávio e Romeu Zema (Novo) – somadas à entrevista que Lula daria no mesmo horário na Record –, Marçal entrou ao vivo com o escritor em seu canal, apoiou e elogiou a sua atitude.

Propostas polêmicas

No plano da estratégia política, Cury e Marçal também se aproximam no que diz respeito a propostas polêmicas, algumas com pouca sustentação prática. O primeiro já prometeu substituir servidores públicos por inteligência artificial, usar drones contra a violência doméstica e fazer 80% dos atendimentos do SUS por telemedicina. Já Marçal, em 2024, propôs construir uma rede de teleféricos para ligar as regiões da cidade de São Paulo e um arranha-céu de mais de 1 km de altura, que seria o maior do mundo.

Há uma diferença importante, no entanto, entre ambos. Enquanto Marçal tentou ser prefeito por um partido minúsculo, o PRTB, que não tem parlamentares eleitos nem tempo de TV e rádio, Cury concorre pelo Avante, uma legenda que tem cinco deputados e um senador e, por isso, está presente no horário eleitoral e tem o direito de ter seu candidato convidado obrigatoriamente para os debates televisivos, de acordo com a lei.

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