PF aponta que Jaques Wagner pode ter recebido R$ 8 mi para atuar em favor do Master

O líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), um dos aliados mais próximos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi alvo nesta quinta-feira de uma operação da Polícia Federal. A investigação aponta que o senador teria sido beneficiário de vantagens econômicas indevidas que somam ao menos R$ 8,35 milhões, atuando em favor dos interesses do Banco Master.
A ação da PF é um desdobramento da operação Compliance Zero e visa apurar irregularidades envolvendo a instituição financeira. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, descreveu na decisão que autorizou a operação que Wagner é “apontado pela Polícia Federal como suposto beneficiário central das vantagens econômicas investigadas, figurando como agente público em favor de quem teriam sido estruturados pagamentos, benefícios e aquisições patrimoniais”.
O que aconteceu
- O senador Jaques Wagner, líder do governo no Senado, é investigado pela Polícia Federal por suposto recebimento de R$ 8,35 milhões do Banco Master.
- A PF apreendeu US$ 49 mil e 13 relógios em endereços ligados a Wagner durante a operação Compliance Zero.
- A defesa de Augusto Lima, apontado como operador do esquema, afirma que as medidas são desnecessárias e que ele agiu dentro da lei.
Durante as diligências, que incluíram buscas e apreensões em diferentes endereços na Bahia, São Paulo e Distrito Federal, foram apreendidos US$ 49 mil e ao menos 13 relógios em um local vinculado a Wagner, conforme informações de uma fonte da PF.
A nova fase da operação representa um revés para a estratégia do governo Lula, que buscava desgastar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário nas eleições de outubro, pela sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master. Flávio Bolsonaro foi flagrado em investigações anteriores pedindo um apoio milionário a Vorcaro para a produção de um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Relações políticas e acusações prévias
Além de Jaques Wagner, o presidente do PL e ex-ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro, Ciro Nogueira, também foi alvo de mandados de busca e apreensão da PF em uma fase anterior da Compliance Zero, no mês passado. Ele é acusado de receber propina de, no mínimo, R$ 300 mil mensais.
Em sua conta na plataforma X, Flávio Bolsonaro reagiu à notícia envolvendo Wagner, publicando uma imagem da reportagem e afirmando: “Escândalo envolvendo o PT é como a incompetência do governo Lula: não tem como esconder”. Ele ainda acrescentou: “CPMI do Banco Master já!”.
Jaques Wagner é pré-candidato à reeleição ao Senado na Bahia, um dos colégios eleitorais estratégicos para o projeto de reeleição de Lula. Em sua primeira gestão, Lula teve Wagner como ministro do Trabalho e da Secretaria de Relações Institucionais. Posteriormente, Wagner elegeu-se governador da Bahia por duas vezes.
No governo da também petista Dilma Rousseff, Jaques Wagner ocupou os cargos de ministro da Defesa, chefe da Casa Civil e, por último, chefe do Gabinete Pessoal da Presidência, permanecendo até o afastamento por impeachment de Dilma em 2016.
Quais os benefícios investigados pela PF?
Entre as suspeitas de recebimento indevido de recursos, a Polícia Federal aponta que Wagner e seus familiares teriam sido beneficiários da compra de um apartamento avaliado em R$ 2,45 milhões em um bairro nobre de Salvador. Há também menção a transferências de R$ 3,5 milhões para uma empresa familiar e outras vantagens, como o uso de aeronave particular e o pagamento de ingressos para shows no exterior. O empresário baiano Augusto Lima, próximo do senador e também alvo da operação desta quinta-feira, é apontado como o operador do esquema.
Em troca desses benefícios, a PF indica haver indícios de atuação do parlamentar em temas de interesse do Banco Master. Um exemplo é a discussão para aumentar o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) dos atuais R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Essa medida, apelidada de “Emenda Master”, foi apresentada por Ciro Nogueira (PI), mas não prosperou.
A investigação sugere que Wagner também teria atuado para tentar favorecer a venda do Banco Master para o Banco de Brasília (BRB) e para elevar a margem de crédito consignado a trabalhadores celetistas, aposentados e pensionistas, medida que também beneficiaria o grupo de Daniel Vorcaro.
As investigações revelaram tratativas por meio de mensagens de texto e outras formas de comunicação direta entre Wagner e Augusto Lima. Em um dos diálogos, o senador teria chegado a indicar a unidade de imóvel a ser adquirida e seu valor.
Reações e desdobramentos
Procurada, a assessoria de Jaques Wagner não respondeu ao pedido de comentário. O Palácio do Planalto não se manifestou de imediato sobre a permanência de Wagner no cargo de líder do governo após as revelações da nova fase da Compliance Zero.
O presidente do PT, Edinho Silva, manifestou confiança em Wagner, declarando: “Apoiamos todas as apurações envolvendo o Banco Master, a sociedade tem o direito de saber a verdade. Os crimes cometidos precisam ser apurados e os responsáveis penalizados. Nesse processo de investigação e apuração, temos confiança que o Jaques Wagner esclarecerá todos os fatos, comprovando a sua inocência”.
Em nota, a defesa de Augusto Lima afirmou que as diligências da PF eram desnecessárias, pois o cliente “está há seis meses à disposição das autoridades para esclarecer os fatos em apuração”. A nota complementa que “as medidas contribuirão para demonstrar que os fatos apurados nesta fase da investigação são rigorosamente lícitos” e que “Augusto Lima sempre atuou dentro dos limites da lei, com transparência, responsabilidade técnica e observância das normas que regem o sistema financeiro e a administração pública”.
A nova fase da Compliance Zero, segundo comunicado da PF, tem como objetivo apurar a eventual participação de agente público em esquema de irregularidades envolvendo instituições do sistema financeiro nacional. Ao todo, a PF cumpriu 18 mandados de busca e apreensão.
*Com Reuters
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