Política

Polícia Civil deixou produtora de ‘Dark Horse’ de fora de pedido ao Coaf

A Polícia Civil de São Paulo chegou a setembro sem esclarecer se recursos públicos foram usados para financiar “Dark Horse“, quase seis meses depois de o Ministério Público estadual requisitar, em 12 de março, a abertura da investigação.

O pedido do MP-SP foi encaminhado à corporação em 27 de março, e o inquérito foi instaurado quatro dias depois pela Polícia Civil, em 31 de março, mas os prazos se prolongaram desde então.

Só em 22 de maio, a polícia pediu à Justiça autorização para obter um relatório financeiro do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras). As buscas, com apreensão de celulares, computadores e documentos, foram realizadas em 1º de junho.

Até o início de setembro, a polícia ainda não tinha os dados do Coaf, nem havia incluído no pedido as contas da Go Up Entertainment, produtora responsável pelo longa.

Os documentos vieram à tona depois que o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), atendeu a um pedido da Polícia Federal e autorizou, em 21 de agosto, o compartilhamento das provas reunidas pela Polícia Civil de São Paulo.

A PF pretendia cruzar o material da investigação paulista com sua apuração sobre o financiamento de “Dark Horse”, que trata da biografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em 10 de setembro, Dino foi além e avocou o inquérito e a medida de busca, transferindo para o STF a supervisão integral do caso.

Os documentos mostram que a suspeita envolvendo o filme foi o ponto de partida do caso, mas acabou deixada em segundo plano quando o inquérito foi formalmente aberto. Em portaria assinada em 31 de março, a própria Polícia Civil registrou que as referências a projetos audiovisuais e relações políticas “não constituíam, naquele momento, objeto específico” da investigação.

As gravações do filme foram realizadas no Brasil de outubro a dezembro de 2025. A produtora executiva é Karina Ferreira da Gama, que também preside o Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização que recebeu R$ 69 milhões da Prefeitura de São Paulo, na gestão de Ricardo Nunes (MDB), para instalar e manter pontos gratuitos de internet em comunidades de baixa renda.

Apesar disso, a polícia aponta diversas coincidências entre as duas entidades e a produção de “Dark Horse”. Mostra, por exemplo, que tanto a produtora como o instituto são comandadas por Karina e tem o mesmo endereço, e que os pagamentos feitos pela gestão municipal ao instituto acontecem ao mesmo tempo em que a Go Up capta recursos públicos para a produção do filme.

A Polícia Civil avalia que há uma “aparente inexistência de separação estrutural e operacional” entre a ICB e a produtora.

A ligação entre Karina, o contrato público e a produção cinematográfica levou à suspeita de que recursos destinados ao programa Wi-Fi Livre SP poderiam ter sido desviados para o filme. O inquérito, porém, não apresenta uma conclusão que comprove essa transferência.

As primeiras suspeitas foram publicadas em 10 de dezembro de 2025. A representação chegou ao Ministério Público Federal em 21 de janeiro de 2026, mas foi enviada ao Ministério Público de São Paulo porque o contrato investigado envolvia dinheiro municipal. Em 12 de março, uma promotora determinou que o caso fosse encaminhado à Polícia Civil, e o inquérito foi instaurado quatro dias depois.

Ao instaurar o inquérito, a corporação decidiu concentrar a apuração no contrato de Wi-Fi com o ICB e deixou a origem do dinheiro do filme fora das investigações.

Em 30 de abril, um mês depois da abertura, a Polícia Civil já pediu mais prazo para trabalhar. A corporação afirmou que aguardava documentos da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia e o cumprimento de uma ordem de serviço pelos investigadores.

Em 22 de maio, quase dois meses depois de abrir o inquérito, a corporação pediu autorização judicial para obter relatórios de inteligência financeira do ICB e de Karina. Esses relatórios são documentos preparados pelo Coaf. Eles ajudam a polícia a reconstruir o caminho do dinheiro, identificar transferências e possíveis beneficiários ocultos.

Naquele momento, a Polícia Civil ainda não havia recebido da própria prefeitura a documentação integral do contrato.

A Polícia Civil disse ainda que “o rastreamento do fluxo financeiro é o único meio capaz de descortinar a destinação final das verbas recebidas” pelo ICB e mencionou a possibilidade de repasses para “as contas pessoais da investigada Karina Ferreira da Gama e de suas firmas individuais, como a Go Up Entertainment”.

Mesmo citando a produtora, o pedido apresentado ao Judiciário não incluiu as contas da Go Up, mas apenas o ICB e Karina.

Em 26 de maio, a Justiça autorizou buscas em oito endereços, incluindo a sede comum do ICB, da Go Up e da Go7 Assessoria, duas residências ligadas a Karina, empresas subcontratadas pelo instituto e a Secretaria Municipal de Inovação, mas não deu prosseguimento com o pedido para seguir o dinheiro.

As buscas foram realizadas em 1º de junho. Computadores, celulares, documentos e outras mídias foram apreendidos. A partir de julho, peritos começaram a extrair dados dos equipamentos, mas a análise não foi concluída.

Mesmo com o apoio do Ministério Público ao pedido da polícia para produção dos relatórios do Coaf, até agora a solicitação não foi acatada pela Justiça paulista.

A demanda, apresentada em maio, só recebeu uma análise do juiz em 28 de agosto, mais de três meses depois. E ao examinar a representação, o magistrado concluiu que a Polícia Civil ainda não havia mostrado quais provas próprias, independentes das reportagens sobre o assunto, sustentavam as suspeitas.

“Não se encontra suficientemente esclarecido, a partir dos fundamentos expostos no requerimento, qual o lastro documental já incorporado à investigação que confere suporte objetivo às irregularidades financeiras narradas”, afirmou o juiz Nelson Augusto Bernardes de Souza.

O magistrado exigiu uma explicação específica sobre o filme. Determinou que a polícia informasse quais elementos justificam a inclusão de Karina na pesquisa financeira, inclusive no que diz respeito à relação dos recursos do instituto com a Go Up Entertainment.

No fim de agosto, a Polícia Civil ainda não havia demonstrado documentalmente o elo entre o dinheiro do programa de wi-fi e a empresa que produzia “Dark Horse”.

No dia 4 de agosto, a polícia reiterou seu pedido para a produção dos relatórios do Coaf apenas de Karina e do ICB. “Não se pretende na manifestação inicial —e nem mesmo agora— a obtenção de dados do Coaf da Go Up Entertainment Ltda., mas sim, e tão somente, do Instituto Conhecer Brasil e de sua representante legal”, afirmou o delegado.

A polícia lembra ainda que o instituto usou notas fiscais sequenciais, “desprovidas de

qualquer documentação comprobatória da efetiva prestação do serviço” em sua prestação de contas à prefeitura.

Também apresentou, como comprovante, notas fiscais que foram canceladas no mesmo dia de sua emissão.

A corporação ainda informou que a investigação sobre o financiamento de “Dark Horse” já estava na esfera federal. Segundo a manifestação, “não faz parte da presente investigação, mas sim da seara de persecução penal federal” a suspeita de que a Go Up tenha recebido recursos para a produção do longa no mesmo período em que o ICB recebia dinheiro público.

Procurada pela reportagem, a Polícia Civil não se manifestou sobre o assunto até a publicação desta reportagem.

Folha de São Paulo

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