Por que o algoritmo do TikTok pode manter você de coração partido

Dias após terminar o relacionamento com o namorado, Jasmine Barnett percebeu uma mudança abrupta em seu feed do TikTok: os esquetes de comédia e vídeos de exercícios de que normalmente gostava foram subitamente substituídos por um fluxo constante de vídeos sobre términos.
No início, Barnett, uma contadora de 27 anos de Atlanta, recebeu bem esse desvio pelo universo da desilusão amorosa, que incluía análises aprofundadas sobre estilos de apego e autópsias de relacionamentos. Após várias semanas, ela quis seguir em frente, mas o algoritmo não deixou.
Seu feed havia se transformado em montagens de mulheres chorando e cartomantes vendendo supostas revelações sobre a mente de seu ex. Ela diz que tentou várias vezes bloquear o conteúdo sobre términos, mas ele continuava reaparecendo.
É comum que pessoas em estado de vulnerabilidade após um término vejam seus feeds nas redes sociais inundados por esse tipo de conteúdo.
À medida que as empresas de redes sociais enfrentam escrutínio por recursos de design que causam dependência e por acusações de que seus algoritmos podem apresentar conteúdo nocivo, defensores da saúde mental apontam o modo como as plataformas lidam com conteúdos sobre términos como exemplo de falha na proteção dos usuários.
Direcionar pessoas recém-saídas de um relacionamento para um poço sem fim de conteúdos sobre términos pode aumentar o engajamento ao mantê-las em estado de ruminação e luto. Segundo especialistas, isso pode ter consequências graves para a saúde mental delas e levanta questões éticas.
“Quando as pessoas passam pelo fim de um relacionamento amoroso, ficar tão imersas nesse conteúdo e pensando na pessoa que perderam por um longo período pode dificultar sua recuperação”, diz Jodi Halpern, professora de bioética da Universidade da Califórnia em Berkeley.
O algoritmo sabe que você está sofrendo
O algoritmo do TikTok é eficaz em identificar as preferências dos usuários e oferecer um fluxo personalizado de vídeos para mantê-los engajados.
No BreakupTok, os vídeos incluem relatos pessoais de términos, conselhos para cortar todo o contato com ex-parceiros, transformações visuais após o fim do relacionamento e orientações variadas, inclusive de terapeutas credenciados e coaches especializados em términos.
Michael Rich, fundador do Digital Wellness Lab do Hospital Infantil de Boston, diz que o TikTok parece reagir a estados emocionais, especialmente em momentos de maior vulnerabilidade decorrentes de uma “nova solidão”. Segundo ele, a busca das redes sociais por aumentar o tempo de engajamento pode agir contra a saúde mental do usuário.
O TikTok não é capaz de ler as emoções humanas, embora às vezes pareça que sim. O aplicativo monitora o comportamento —incluindo o tempo de visualização dos vídeos, a velocidade de rolagem e se alguém curte, compartilha ou comenta— e reúne esses dados para determinar quais vídeos deve exibir em seguida.
Uma rolagem sem fim
Pesquisas demonstram que o uso das redes sociais após um término pode ser prejudicial. Deparar-se acidentalmente com um ex ou procurar informações sobre essa pessoa pode causar sofrimento e sentimentos negativos, além de retardar a recuperação emocional e inibir o crescimento pessoal. Outros estudos constataram que, mesmo quando os usuários removiam ex-parceiros de sua vida online, as redes sociais voltavam a exibi-los.
No contexto dos términos, especialistas costumam apontar como problemático e perigoso o caráter interminável de alguns feeds de redes sociais, além de recursos como notificações e “curtidas”, que podem incentivar o uso excessivo e o avanço de chatbots que abordam usuários em luto.
“Para além dos términos, essas táticas manipuladoras destinadas a levar as pessoas a usar redes sociais e chatbots em excesso têm sido associadas à piora da saúde mental e, entre os jovens, a atos suicidas e consequências graves para a saúde mental”, diz Halpern.
O TikTok não quis comentar. A empresa já reconheceu que alguns vídeos podem “reforçar involuntariamente uma experiência pessoal negativa para determinados espectadores, como quando alguém que terminou recentemente um relacionamento se depara com um vídeo sobre términos”.
Para lidar com isso, a empresa afirmou, em 2021, que havia projetado sua página “Para você” para “interromper padrões repetitivos” e testado formas de evitar a recomendação de conteúdos semelhantes. O aplicativo também oferece recursos de bem-estar, como ferramentas para limitar o tempo de tela e opções para ajudar as pessoas a relaxar.
Os vídeos ajudam ou prejudicam?
Nem todos têm uma experiência ruim com conteúdos sobre términos nas redes sociais. Alguns usuários disseram, em entrevistas, que gostavam desse tipo de conteúdo porque os ajudava a perceber que sua experiência era normal ou oferecia conselhos úteis, como maneiras de regular o sistema nervoso ou meditar.
“Eu me senti compreendida”, diz Ana Ruiz, 35, de Orlando. Ela afirma que grande parte do conteúdo que consumiu no Instagram a ajudou a compreender os problemas de seu relacionamento e a lidar com a perda.
Outros foram mais críticos. Jason Salem, que está no fim da faixa dos 20 anos, diz que o conteúdo sobre términos que assistia no Instagram e no YouTube era “totalmente viciante”.
Ele afirma que passava horas por dia nas redes sociais, assistindo a vídeos sobre teoria do apego ou a conteúdos de criadores prometendo maneiras de consertar seu relacionamento. “Eu queria ter esperança”, diz. Segundo Salem, o conteúdo retardou sua recuperação e o distraiu daquilo que era importante, como trabalho, amigos e hobbies.
Superando a falsa esperança
Quando alguém vive um luto profundo, a amígdala —parte do cérebro que desencadeia a resposta de luta ou fuga— assume o controle, e pode ser difícil acessar outras regiões do cérebro que proporcionam uma perspectiva mais ampla, diz Jeff Guenther, terapeuta credenciado que publica vídeos sobre términos e relacionamentos para quase três milhões de seguidores no TikTok.
“Nesses momentos, você vai procurar vídeos que façam com que continue sentindo que há algo muito, muito errado”, diz. Guenther acrescenta que continuar sentindo essas emoções é uma maneira de as pessoas permanecerem conectadas ao ex.
Segundo Guenther, há conteúdo útil sobre términos no TikTok, inclusive de coaches especializados ou de usuários que relatam experiências pessoais. Mas também há conteúdo “incrivelmente envolvente” que ele considera pouco útil, porque coloca toda a culpa no ex. “Assim, você nunca tem de fato a oportunidade de crescer, evoluir e analisar qual foi o seu papel.”
Informação
Folha de São Paulo



