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Previsão de um El Niño muito forte assombra ribeirinhos na Amazônia



Quase três anos depois de uma das maiores estiagens na região amazônica, quando rios secaram de tal forma que inviabilizou transporte, acesso e trabalho das populações ribeirinhas, o medo de que isso se repita assombra quem vive aqui. Não é para menos, pois entre 2023 e 2024 o fenômeno El Niño, que provoca seca na região Norte do Brasil, estava ativo e neste 2026 ele voltou, com mais força ainda.
Na comunidade Tumbira, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Negro, em Iranduba (AM), o empreendedor de turismo de base comunitária Roberto Brito não esconde seu desassossego. “Nosso rio, normalmente, todo ano ele enche e seca. Só que nos anos de 2023 e 2024, ele secou muito. Teve dia em que secou 25 a 28 cm”, conta o ribeirinho. “Isso foi totalmente fora do normal”.
Segundo Roberto, que tem uma pousada na comunidade, se a redução passa de 12 cm por dia no período mais seco e mais quente — entre julho e novembro —, há motivos para se preocupar.
Quando a reportagem esteve na comunidade nos dias 27 e 28 de agosto, o nível do Rio Negro diminuiu 28 cm, 14 cm por dia, de acordo com o acompanhamento do porto de Manaus. Em setembro, até agora o nível caiu mais 2,57 metros, para 21,62 metros. Só ontem, o recuo foi de 19 cm.
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Com receio de que o cenário de barcos impedidos de navegar nas partes menos profundas do rio volte a acontecer, Roberto já está deixando de fazer novas reservas na pousada para os meses de outubro e novembro. “Não estou fazendo reserva para outubro e novembro. Tenho uma reserva até dia 20 de setembro. (…) Porque em 2023, com a seca, tivemos muita desistência, porque não dava para operar. Eu tive que devolver dinheiro e ficar sem”, lamenta ele, que também é líder comunitário.
Como 70% da economia local gira ao redor do turismo e como tudo praticamente depende do rio, ele teme os eventuais efeitos de uma forte seca para a comunidade, formada por 40 famílias e cerca de 160 pessoas. Só é possível chegar ao local, que fica a cerca de 70 km da capital amazonense em linha reta, de barco.
Roberto Brito, liderança da comunidade de Tumbira: “Minha vida inteira é aqui. E de primeiro não tinha tanta quentura, não tinha tanta seca”,
Alda do Amaral Rocha
Roberto, que nasceu na comunidade de Santa Helena do Inglês, vizinha da Tumbira, há 51 anos, acredita que o clima está cada vez mais quente na região. “Minha vida inteira é aqui. E de primeiro não tinha tanta quentura, não tinha tanta seca”, afirma.
A fala do ribeirinho parece corroborar o que dizem os cientistas, que têm alertado para o aumento da frequência dos extremos climáticos em função do aquecimento global. “A gente acredita muito na ciência, né? E pesquisadores estão dizendo que esse El Niño vem muito forte, mais severo do que 2023, 2024. Então é assustador quando chegam para nós essas notícias”, diz.
Por enquanto, segundo Roberto, não houve movimentos do poder público em relação à comunidade para tentar enfrentar um novo período de estiagem.
Mas a sociedade civil tenta se mobilizar. Em agosto, a Caritas Arquidiocesana de Manaus convocou uma audiência popular para discutir ações emergenciais para povos e comunidades ribeirinhas diante das previsões de um El Niño muito forte. Participaram organizações da sociedade civil e órgãos públicos. De 28 órgãos públicos convidados, treze compareceram.
Representantes e lideranças de dez comunidades apontaram as suas principais necessidades em caso de nova seca por causa do fenômeno climático: segurança alimentar e água. “Elas querem perfuração de poço nas comunidades, querem triciclos para carregar a produção, sistema de irrigação para plantação. Só que falta investimento do poder público”, diz a secretária-executiva da Cáritas, Daniele Rodrigues da Silva.
De acordo com ela, a mudança do protocolo, com apresentação dos problemas das comunidades antes do poder público, foi uma maneira de garantir que os ribeirinhos fossem ouvidos. “Geralmente, os órgãos públicos falam, vão embora e quando as comunidades vão falar as suas demandas não tem mais ninguém. Então, fizemos o processo inverso”, afirma.
Ela diz, porém, que representantes do poder público, como a Defesa Civil do Amazonas, não apresentaram proposta ou plano para enfrentar uma possível seca. “Tivemos ali a Defesa Civil, a Secretaria de Saúde, o ICMBio, IPAAM, Secretaria de Meio Ambiente do Estado, mas o que a gente queria é que o governo desse uma resposta daquilo que estão pensando, se têm algo planejado, mas não trouxeram nenhuma proposta para a comunidade”. O IPAAM é o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas, ligado ao governo estadual, e o ICMBio é o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, ligado ao Ministério do Meio Ambiente.
A audiência popular deu origem a uma carta-manifesto exigindo uma resposta do Estado. Segundo o documento, “cestas básicas não substituem o direito de produzir, água emergencial não substitui sistemas permanentes de abastecimento, brigadas sem equipamentos não conseguem enfrentar o fogo, e planos que não saem do papel não protegem os territórios”.
A jornalista participou da Expedição Amazônia, realizada pela Aberje, a convite do Itaú


Globo Rural

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