PT e aliados de Eduardo Paes discutem herança de virada de Lula no Rio

O PT e aliados de Eduardo Paes (PSD) tentam aproveitar a herança deixada pela virada no Rio de Janeiro em favor da reeleição do presidente Lula (PT) contra o senador Flávio Bolsonaro (PL).
Aliados do ex-prefeito tentam usar o resultado para mobilizar uma campanha em favor da realização de um segundo turno no estado, tema de uma ação no STF (Supremo Tribunal Federal). Deputados do PT e do PSOL avaliam como manter a mobilização para ampliar a força das legendas de esquerda na aliança fluminense, em vistas à disputa municipal.
Embora digam que o foco é a disputa no STF, aliados de Paes afirmam que o ex-prefeito tem tamanho e relações políticas suficientes para compor o novo governo. Integrantes do PT-RJ avaliam que Paes é um aliado a ser mantido e que pode ser considerado para um ministério, mas relativizam seu peso na virada.
“Acho que Eduardo [Paes] é um aliado importante que pode, sim, ganhar espaço, mas o personagem principal da virada no segundo turno foram as ruas. E esse movimento não pode se perder durante o governo”, disse Marcelo Freixo (PT), eleito deputado federal.
O deputado federal Renan Ferreirinha (PSD), que participa da mobilização nas redes pelo segundo turno no Rio de Janeiro, afirma que Paes não discutiu participação no governo Lula. “O foco dele é a discussão pelo governo do Rio.”
Paes está em viagem de férias no exterior desde domingo (25), após votar pela manhã.
O Rio de Janeiro foi a maior cidade em que Lula tomou a dianteira que Flávio havia obtido no primeiro turno. O petista venceu com 51,54% dos votos, contra 48,46% do candidato do PL. No primeiro turno, o senador havia obtido 47,88%, contra 43,91% do presidente.
O estado do Rio de Janeiro também deu em favor de Lula a maior mudança de margem na disputa contra Flávio. O candidato do PL venceu no primeiro turno com 53,01% dos votos válidos, contra 39,41% do petista. A diferença de 13,6 pontos percentuais caiu para 6,2 no segundo turno, com 53,1% dos votos para o candidato derrotado, contra 46,9% do reeleito.
O estado foi a origem dos primeiros atos de rua de estudantes, no centro e em Niterói. A mobilização se espalhou e resultou em atos diários em diferentes pontos do estado, sendo o último em Copacabana, com a presença de Lula.
Alvo de queixas de Lula no primeiro turno por uma suposta falta de empenho, Paes comandou no segundo turno encontros na capital, um deles ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin. Esteve também ao lado do presidente no ato de sábado (24), véspera da votação, e gravou vídeos para as redes sociais defendendo voto no petista.
Aliados do ex-prefeito aproveitaram o avanço expressivo obtido no Rio de Janeiro para iniciar uma campanha nas redes a fim de pressionar o STF a determinar a realização de segundo turno para governo estadual.
O grupo do ex-prefeito avalia que a vitória de Lula criou condições para que o julgamento possa favorecer o pedido de Paes, cenário que seria inviável no caso da eleição de Flávio Bolsonaro.
Foi criado um canal chamado Exército do Dudu —aos moldes do Exército do Lula coordenado pelo deputado André Janones (Rede-MG)—, que até esta terça-feira (27) reunia mais de 190 mil pessoas.
Um eventual segundo turno no Rio de Janeiro está em discussão num processo movido pelo PSD sob relatoria do ministro Cristiano Zanin.
O ex-prefeito pediu ao STF a realização de segundo turno contra o presidente da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), Douglas Ruas (PL), proclamado governador eleito do Rio de Janeiro após a anulação definitiva dos votos dados ao ex-governador Anthony Garotinho (Republicanos).
Ruas teve 49% dos votos nominais no primeiro turno, mas seu percentual subiu para 50,88% com a anulação dos 274 mil votos dados a Garotinho. A retirada dos votos ocorreu porque o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) confirmou a decisão do TRE (Tribunal Regional Eleitoral) de indeferir o registro de candidatura do ex-governador. A decisão só foi tomada quatro dias após a votação.
O ex-prefeito afirma ser inconstitucional a anulação posterior do votos de Garotinho. Ele argumenta que a legislação considera como voto nulo manifestações apolíticas do eleitor ou erro de digitação na urna. A ação diz que os eleitores escolheram votar no ex-governador.
O PT, por sua vez, discute como manter a mobilização de estudantes para fortalecer seu espaço na aliança com o PSD de Paes na cidade.
Um dos objetivos de longo prazo é ganhar musculatura para tentar disputar a Prefeitura do Rio de Janeiro daqui a dois anos, seja em aliança com o PSD ou não. O rompimento com o prefeito Eduardo Cavaliere (PSD) não está na mesa, mas o objetivo é avaliar de que forma os atos que lotaram as ruas podem viabilizar uma candidatura própria.
O PT ficou de fora da chapa de Paes, que queria manter seu grupo político no comando da cidade ao renunciar para disputar o governo. A legenda aceitou perder a vice para garantir o apoio do ex-prefeito a Lula nesta eleição.
Folha de São Paulo


