Política

Resultados ruins no Pisa deveriam mobilizar mais que polêmicas na educação

Os meus amigos e eu compartilhamos no WhatsApp uma figurinha com a palavra “Pisa”, em referência à avaliação internacional que mede como estudantes de 15 anos usam conhecimentos de leitura, matemática e ciências. Ela é enviada quando se encontra um erro de interpretação numa discussão sobre política ou economia: uma correlação usada para explicar causalidade, uma conclusão que contradiz os dados ou ainda um erro grosseiro na interpretação de um texto.

Embora usada em tom de brincadeira, a figurinha serve para lembrar que compreender textos e interpretar dados são habilidades que nem todos tiveram a oportunidade de desenvolver na escola. Afinal, no Brasil, 51% dos estudantes ficaram abaixo do nível básico em leitura, que inclui identificar a ideia principal de um texto de extensão moderada. Em matemática, foram 72%, aquém do patamar necessário para comparar a distância entre dois trajetos ou converter preços para outra moeda, segundo o Pisa 2025, divulgado neste mês.

Diante desses resultados, chama a minha atenção a diferença entre a mobilização provocada por algumas polêmicas e a cobrança sobre o que os estudantes aprendem. Um livro didático, uma apresentação ou uma disputa sobre o uso do banheiro mobiliza o debate nacional. Esses assuntos podem merecer discussão, mas parece que nos acostumamos a debater o que uma criança deveria ler sem exigir, com a mesma disposição, que ela consiga compreender o que lê.

organizações dedicadas a mudar esse quadro, produzindo diagnósticos, propondo políticas e cobrando providências das autoridades. Contudo, esse esforço ainda convive com uma aprendizagem que avança lentamente. Em leitura, passamos de 407 pontos em 2015 para 408 em 2025, praticamente uma década no mesmo lugar.

A participação de famílias de classe média e média alta, que têm mais recursos e acesso a quem decide, poderia intensificar a pressão por mudanças. Como argumenta Zeina Latif, o distanciamento desses grupos em relação ao ensino público, quando seus filhos estudam na rede privada, enfraquece a mobilização em favor da qualidade do ensino público.

Esse envolvimento também precisa chegar às urnas, impondo um custo eleitoral a quem explora polêmicas escolares, mas pouco faz pelo ensino. Governantes e parlamentares devem responder pelas condições das escolas e pelos resultados de suas políticas, inclusive quando estes exigem trabalho para além do mandato.

Para avaliá-los, porém, precisamos ter clareza sobre os problemas e os recursos necessários para enfrentá-los. O percentual do PIB destinado à educação, isoladamente, não permite afirmar se o financiamento é suficiente: comparações entre países devem considerar o gasto por estudante, a etapa de ensino e o poder de compra, como argumenta Bráulio Borges no Blog do Ibre. Tanto a defesa de mais recursos quanto a exigência de seu melhor uso devem indicar quais dificuldades se pretende resolver.

Se uma avaliação indica que os alunos leem, mas não compreendem um parágrafo, por exemplo, o diagnóstico deve orientar a formação docente e as atividades de leitura. Para isso, os professores precisam de materiais e de tempo para planejamento e acompanhamento, para verificar se as crianças aprenderam. Cabe aos gestores garantir essas condições e corrigir as medidas que não produzam os avanços esperados.

Portanto, nesta eleição, vale dedicar mais atenção ao que os candidatos fizeram pela educação e às propostas para os alunos que chegam à adolescência sem compreender um texto. Inclusive questionar como seriam financiadas e acompanhar seus resultados, para que essas respostas pesem na escolha do voto tanto quanto suas posições sobre as polêmicas escolares.


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Folha de São Paulo

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