Política

Salto patrimonial e assessores ligados ao TCP: as suspeitas do MP sobre deputado Val Ceasa

A investigação que levou o Ministério Público do Rio a fazer buscas na casa e no gabinete do deputado estadual Roosevelt Barreto Barcelos (PRD), o Val Ceasa, nesta quinta-feira, 18, teve início a partir de um alerta da Polícia Militar depois que o parlamentar procurou o 16º Batalhão, em Olaria, na zona norte, em dezembro de 2023, para tentar impedir a demolição de imóveis ligados ao Terceiro Comando Puro (TCP), a segunda maior facção do Rio, no Complexo de Israel.

Com o avanço das investigações, o Ministério Público encontrou conexões do deputado com o crime organizado. Val Ceasa empregou, na Assembleia Legislativa, o irmão de um traficante do TCP. Outro assessor do deputado foi indiciado em uma investigação sobre um homicídio atribuído a Bruno da Silva Loureiro, o “Coronel”, líder da facção na Comunidade do Muquiço. Um terceiro servidor foi morto pelo Comando Vermelho. Quatro outros funcionários comissionados “ostentam anotações criminais ou têm parentes que as possuem”, aponta a investigação.

Divergências no patrimônio do deputado também chamaram a atenção do MP. Em 2022, ele declarou à Justiça Eleitoral 1 milhão de reais em bens. No entanto, segundo os investigadores, Val Ceasa tem ligação com empresas e transações imobiliárias que ultrapassam, com folga, 13 milhões de reais, incluindo a construção de um galpão no Espírito Santo e a aquisição de dois imóveis, um no Recreio dos Bandeirantes e outro na Barra da Tijuca, na zona sudoeste do Rio.

Além do deputado, foram alvo da operação o ex-assessor parlamentar Michael Johnny Vianna de Azevedo e o ex-vereador Ulisses de Almeida Marins, que esteve com Val Ceasa no 16º BPM e também procurou a Secretaria Municipal de Ordem Pública para tentar evitar a demolição dos imóveis. Foram apreendidos 320.000 em dinheiro vivo em endereços ligados ao deputado. VEJA pediu manifestação de Val Ceasa. Mais cedo, ele afirmou em discurso na Assembleia Legislativa que sofre perseguição política e que vai provar que é “gente de bem”. 

Segundo Breno Carnevale, na época secretário de Ordem Pública, o então vereador teria relatado que o endereço alvo da polícia era chamado de “Espaço Fazendinha” e funcionaria como recreação infantil, colônia de férias e reforço escolar. O tenente-coronel Luciano Silva, comandante do 16º BPM, também prestou depoimento e relatou que o deputado contou uma versão semelhante, de que o sítio era usado para ações sociais. 

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O Ministério Público do Rio afirma que o grupo tentou, “por meio de ações artificiosas, levar as autoridades a pensar que o local era usado como centro social”. Segundo os investigadores, tratava-se, na verdade, de um resort de luxo do traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, o “Peixão”, um dos chefes da facção.

“A tentativa dos investigados Val Ceasa e Ulisses Marins de interceder junto ao Comando do 16º BPM para impedir a demolição dos imóveis consubstancia indício suficiente do comprometimento de ambos com os integrantes da facção criminosa Terceiro Comando Puro, que atuam no local e utilizam os imóveis”, argumentou o procurador-geral de Justiça Antonio José Campos Moreira ao pedir autorização para deflagrar a operação.

Os imóveis são descritos como “grande estrutura e suntuosidade” e seriam usados por integrantes do TCP para eventos e reuniões. Um deles teria lago artificial com pedalinho, academia e câmera escondida, além de uma rota de fuga por becos e vielas pouco movimentados. Imagens obtidas pela Polícia Civil mostram criminosos armados nos arredores da propriedade, um deles com fuzil.

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O inquérito aponta que, após a movimentação do deputado e do vereador para barrar a derrubada dos imóveis, uma faixa com menção a um suposto projeto social foi instalada na entrada de uma das propriedades e uma pintura com símbolos do TCP foi removida. Antes disso, a Polícia Militar fez inúmeras operações para verificar as atividades nos imóveis e nunca constatou qualquer ação social nos endereços. Val Ceasa negou em depoimento manter projetos sociais na comunidade e afirmou que “não sabe e nem tem ideia do porquê seu nome estar na faixa”.

“Após a indevida divulgação da informação de que o Poder Público concebia a demolição dos imóveis, os malfeitores agiram para camuflar sua real destinação e colocaram faixas para fazer crer que eram empregados em atividades voltadas ao bem-estar da comunidade, tentativa de fraude que foi desmascarada pela ação policial corporificada em sua atividade de inteligência”,

A operação foi autorizada pelo desembargador Gilmar Augusto Teixeira, que destacou na decisão a “gravidade dos fatos investigados”. Além das buscas, o magistrado determinou a quebra do sigilo de mensagem dos alvo e permitiu a requisição de relatórios ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) para verificar se o deputado e seus aliados receberam recursos de membros da facção.

Em nota, a Alerj afirmou que está à disposição para “prestar toda a colaboração necessária ao andamento das investigações”. “A Alerj reitera que atua com austeridade e compromisso com o povo fluminense”, diz o texto.

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