Saúde

Sonho da medicina de precisão alcança SUS

Para quem dedicou ao genoma humano uma década da longa carreira jornalística e breve incursão acadêmica, é imperdoável desconhecer o Genomas SUS, projeto do Ministério da Saúde dentro do programa Genomas Brasil. De 2000, quando saiu o livro “Folha Explica/Os Alimentos Transgênicos” (Publifolha), até 2007, ano da publicação de “Promessas do Genoma” (Editora Unesp), a genômica esteve no centro de minhas pesquisas.

Felizmente apareceu o convite de Ândrea Ribeiro e Leandro Colli para participar da abertura do 3º Simpósio Genomas SUS, em Belém do Pará, encerrado sábado (31). Veio uma surpresa atrás da outra, como descobrir que o Brasil já tem 100 mil genomas individuais sequenciados, com investimento de R$ 1,37 bilhão desde 2020 (no ano passado foram R$ 330 milhões).

Por que gastar tanto recurso público com alta tecnologia num sistema único de saúde que tem tantos outros problemas básicos, como filas revoltantes para exames, consultas com especialistas e cirurgias? A resposta não é simples, mas grosso modo se pode argumentar que não é justo privar os brasileiros mais pobres de acesso a ferramentas de diagnóstico que já se espalham na saúde privada.

Pode parecer estranho saudar a chegada dessa promessa de medicina de precisão ao SUS após dois livros, várias colunas e dezenas de reportagens críticas aos exageros da retórica genômica, no início do século, como espalhar a miragem de que ela traria a cura do câncer. Mas o tempo passou, a pesquisa avançou e os custos do sequenciamento caíram; hoje há vários benefícios a oferecer para pacientes.

Um exemplo é a farmacogenômica: conhecendo todas as variantes de genes de uma pessoa, é possível em alguns casos recomendar a mudança de doses ou do próprio remédio a ser usado no tratamento. Outro é a confirmação de diagnóstico de doenças raras, muitas delas com forte componente genético, ou até de prognóstico sobre a evolução de algumas enfermidades, como diabetes tipo 2.

Não se trata de sequenciar –soletrar todas as mais de 3 bilhões de letras A, T, C e G com que se escrevem nossos genes herdados dos pais– a esmo, mas de fazer isso com o máximo benefício para a população. Daí a estratégia de privilegiar pacientes atendidos pelo SUS, cujos males (fenótipos) ficam registrados no sistema e servirão de material para estudos associando variantes genéticas com doenças.

Os problemas começam com a falta de sequências representativas da diversidade brasileira, mesma situação de América Latina, África e Ásia. Os estudos mais amplos para associar genomas completos com enfermidades se baseiam em populações de origem europeia, enquanto por aqui há forte presença de ancestrais africanos e indígenas.

O Genoma SUS está preenchendo essa lacuna ao estabelecer oito centros para ancorar equipamento e métodos de análise padronizados em todas as regiões do país. A promessa de uma medicina de precisão já tem um quarto de século e ainda está longe de entregar resultados notáveis na ponta final da assistência de saúde, mas é preciso começar em algum lugar –e o SUS parece um óbvio ponto de partida.

O jornalista Marcelo Leite viajou a Belém a convite do Genomas SUS do Ministério da Saúde


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Informação

Folha de São Paulo

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