Tratamento completo contra câncer de mama poderia evitar 33% das mortes ante atual protocolo do SUS, diz estudo

Um estudo brasileiro indica que o uso de uma combinação mais eficaz de medicamentos no tratamento do câncer de mama HER2-positivo, um dos mais agressivos da doença, poderia diminuir significativamente o número de mortes em comparação com a estratégia tradicionalmente usada no SUS (Sistema Único de Saúde).
Com dados de 22,4 mil mulheres atendidas na rede pública, a pesquisa estima que um esquema terapêutico mais completo, que inclui um medicamento não oferecido pelo SUS, poderia reduzir em 33,7% o número de mortes ante a estratégia atualmente disponível. Trata-se de um modelo matemático preditivo, ou seja, as mortes são estimativas, não resultados reais.
Publicada na revista The Breast, a pesquisa “Impacto das terapias anti-HER2 nas mortes potencialmente evitáveis por câncer de mama HER2-positivo em estágios II e III no sistema público de saúde brasileiro”, avaliou o impacto de três protocolos de tratamento para esse tipo de doença, que representa de 15% a 20% dos casos de câncer de mama.
“Os resultados mostram que quando a gente não usa o melhor tratamento, isso pode impactar em milhões ou milhares de vidas”, afirma o mastologista André Mattar, da SBM (Sociedade Brasileira de Mastologia), que coordenou a pesquisa.
A proteína HER2 favorece o crescimento e a multiplicação das células, o que pode tornar a doença mais agressiva. Durante anos, a estratégia utilizada no SUS para esse subtipo combinou quimioterapia e trastuzumabe, medicamento que bloqueia a proteína.
Mais recentemente, o T-DM1 também passou a ser oferecido na rede pública. A Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS) recomendou o medicamento em 2022 e ele foi aprovado em 2023. A disponibilização efetiva ocorreu apenas em outubro de 2025.
O medicamento combina um anticorpo direcionado ao HER2 com uma substância que atua contra as células tumorais. Ele pode ser utilizado após a cirurgia quando ainda há doença invasiva residual, ou seja, quando o tratamento anterior não eliminou completamente o tumor.
Estudos clínicos demonstraram que outro medicamento, o pertuzumabe, pode aumentar a resposta ao tratamento antes da cirurgia. Ele atua sobre a proteína HER2, mas em um ponto diferente daquele atingido pelos outros medicamentos. O pertuzumabe, porém, não está disponível no SUS.
Os pesquisadores compararam três estratégias terapêuticas com esses três medicamentos. O primeiro cenário reproduziu o tratamento tradicional do SUS com o trastuzumabe. O segundo acrescentou o T-DM1 ao protocolo, enquanto o terceiro simulou uma estratégia completa, com os dois anteriores e com o pertuzumabe.
No primeiro cenário, a média projetada de mortes foi de 3.606. No segundo cenário, a média chegou a 2.672, uma redução de 25,9% dos óbitos. Na terceira estratégia, regime padrão-ouro, a média de óbitos alcançou 2.390, representando uma queda de 33,7% no número de mortes.
Segundo Mattar, a combinação de trastuzumabe, pertuzumabe e T-DM1 permite oferecer o tratamento mais completo entre os cenários analisados. “Deixar de tratar as pessoas de maneira adequada pode ter um potencial muito grande de deixar de curar essas pessoas.”
O pesquisador reconhece que a incorporação de medicamentos precisa considerar o orçamento público e a concorrência entre diferentes prioridades de saúde. O preço de uma ampola de pertuzumabe, que precisa ser aplicado a cada 21 dias, pode variar de R$ 17 mil a R$ 20 mil.
O valor pago pelo sistema público pode ser menor devido a negociações de compra. Mattar estima que o preço possa cair pelo menos 50% em uma negociação para incorporação ao SUS.
O argumento do estudo, porém, é que a avaliação financeira deve levar em conta também o impacto clínico de não oferecer uma terapia mais eficaz para os pacientes.
“A nossa ideia é mostrar que, quando há uma decisão dos órgãos governamentais, isso pode ter um impacto significativo para o paciente que está sendo tratado”, afirma.
Informação
Folha de São Paulo



