Uefa pode seguir Itália em boicote da Copa

Reza a lenda que a Fifa é uma associação sem fins lucrativos. Na prática, minha filha de 10 anos que coleciona o álbum da Copa desde 2022 sabe que tudo que envolve a Fifa tem lucro, sim —ou prejuízo na mesada dela, no caso.
Mas quando nem o conselheiro sênior de Gianni Infantino consegue fingir cara de paisagem —e pede demissão— quando o escalvado presidente anuncia a intenção de privatizar parte da firma, é porque há algo de muito podre no reino da bola.
Infantino, que deve ter ficado muito tempo exposto ao bronzeador solar de Donald Trump, quer continuar no poder. Como presidente, só tem direito a mais um mandato.
A empresa compradora de parte da Fifa seria responsável pela operação de eventos, como a Copa do Mundo. E se um dos acionistas desta firma fosse o próprio Infantino? Bingo, o homem ficaria em cima da carcaça para sempre.
Entre as entidades continentais, a Uefa, da Europa (a de maior força política e econômica), foi a primeira a levantar o dedinho para reclamar.
E para mostrar que o tema é sério, o bloco anunciou que as 55 federações do continente vão boicotar todas as competições organizadas pela Fifa enquanto o plano de Infantino estiver na mesa.
E olha que a Europa não consegue 55 votos a 0 em praticamente nenhum tema do mundo. A Fifa realmente conseguiu intervir na união dos povos. Não é à toa que a entidade pode entregar prêmios em nome da paz.
Se o impasse durar, digamos, até 2030, o próximo Mundial não teria europeus. E a seleção brasileira teria que começar uma busca minuciosa por novos rivais para derrotá-la em mata-mata —Marrocos já demonstrou interesse.
Muito antes, porém, teríamos uma Copa do Mundo feminina bem esvaziada no Brasil, em 2027 —Brasil, EUA e Canadá já podem começar a disputar um triangular pelo título.
Esqueça também os joguinhos incríveis no tal Mundial de Clubes de 2029, como Palmeiras x Arsenal (uhu), Flamengo x Bayern ou Botafogo x PSG. Só no videogame.
Visionária mesmo foi a Itália, que boicota a Copa do Mundo desde 2018, quando a competição foi na Rússia, provavelmente por não concordar com os desmandos de Vladimir Putin.
Quatro anos depois, Infantino rodou cuidadosamente o globo no seu escritório e escolheu o Qatar como país-sede. Mas os italianos não concordavam com as violações de direitos humanos, principalmente com descriminação às mulheres e à comunidade LGBTQIA+. Resultado, novo boicote.
E se a Rússia não pode disputar as Eliminatórias por iniciar uma guerra contra a Ucrânia, evidentemente que os italianos não aceitariam jogar a Copa nos EUA após os ataques de Trump ao Irã sem aprovação da ONU.
Porém, se você gosta da Copa do Mundo, dos jogadores-estrelas dos clubes da Champions League, das torcidas que remam no metrô ou secam os pubs da cidade, não se preocupe. Em 2028, tem Eurocopa —e quase certeza que a Itália joga.
Aqui tem Copa América, sem Messi (uhu). Só não sabemos quando. Pode começar uma no mês que vem sem aviso prévio. É a beleza das competições da Conmebol.
Aliás, depois da Uefa, a Concacaf (que tem os EUA como membro) também se manifestou majoritariamente contrária à privatização da Fifa. Outras entidades continentais estão procurando um lugar no muro para sentar. E a Conmebol, no máximo, deve aplicar uma multa.
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Esporte / Folha de São Paulo



