Política

Vice-líder no ranking da Folha, Ceará tem a menor receita, educação e saúde eficientes e problemas na segurança

O modelo que levou o Ceará ao segundo lugar no Ranking de Eficiência dos Estados – Folha (REE-F) começou há cerca de duas décadas em Sobral. Hoje, a estratégia da educação é apresentada pelo governo como método de gestão para outras áreas.

O estado tem a menor receita corrente líquida por habitante entre as 26 unidades analisadas, R$ 4.275. Mas aparece em segundo, com índice de 0,665 (numa escala de 0 a 1), atrás apenas do Paraná. Na educação, a nota é 0,740; na saúde, 0,642.

O secretário de Planejamento, Alexandre Cialdini, atribui parte do desempenho à chamada governança interfederativa, com participação articulada dos governos federal, estadual e municipais. A ideia é compartilhar com as prefeituras execução e metas das políticas estaduais.

Na educação, o modelo é mais visível. A experiência de Sobral ganhou escala estadual em 2007, quando o grupo político que administrara o município chegou ao governo do Ceará, com a eleição de Cid Gomes, hoje senador pelo PSB.

“Em 2007, esse grupo assume o estado e consegue reproduzir o exemplo de Sobral”, diz Cialdini.

A lógica combinou apoio aos municípios, material didático, avaliação e incentivos financeiros, como aumento do ICMS para prefeituras que melhorassem as escolas. Em 2020, o mecanismo de distribuição baseado em resultados educacionais tornou-se referência para uma lei nacional.

O Ceará tem 93,4% das crianças de 6 a 14 anos frequentando o ensino fundamental e apenas 1,9% de abandono na rede estadual. A nota média no Saeb é de 274,7 pontos, acima da média dos estados, de 265,6.

A estratégia avança para o ensino em tempo integral. Das 778 escolas estaduais, 625 já funcionam nesse modelo, atendendo 198 mil estudantes. Cerca de 53% dos alunos da rede estadual estão em tempo integral, mais que o dobro da média nacional (26,2%).

Nos 184 municípios do estado, 119 tinham universalizado o tempo integral em 2025; a previsão é chegar a 152 em 2026. Cerca de cem novas escolas estão em construção.

Em Sobral, a Escola Estadual de Educação Profissional Monsenhor José Aloysio Pinto traduz parte da política. Com 513 alunos, oferece cursos técnicos de administração, desenho de construção civil, desenvolvimento de sistemas e redes de computadores.

Segundo Antonio Freire, das Coordenadorias Regionais de Desenvolvimento da Educação, todos os estudantes têm tablets, e a formação combina ensino regular, cursos técnicos, línguas e projetos de tecnologia. Empresas já procuram alunos com experiência em tecnologia.

O governo também tenta aproximar educação e desenvolvimento econômico. Segundo Cialdini, 76% dos 184 municípios cearenses já oferecem vagas de ensino superior. O estado busca atrair investimentos, sobretudo em infraestrutura e transição energética.

Um dos principais projetos é a chegada da Transnordestina ao Complexo do Pecém. Com o governo cearense e o porto de Roterdã (30% de participação) entre os sócios, reúne área industrial, porto e Zona de Processamento de Exportação.

Segundo Max Quintino, presidente do complexo, Pecém está em expansão e conta, entre outros, com investimento de R$ 200 bilhões para o primeiro data center do TikTok na América Latina.

A infraestrutura, porém, ainda é uma fragilidade. A dimensão recebeu nota 0,408, com as rodovias entre os pontos de atenção. O estado ainda não possui pedágios ou concessões rodoviárias que poderiam acelerar investimentos na malha.

No saneamento, a estratégia combina investimento público e privado. Uma PPP para 23 municípios prevê R$ 1,08 bilhão em investimentos, 1.029 km de novas redes de esgoto, 102 mil ligações domiciliares e 29 novas estações de tratamento. A meta é elevar a cobertura para 90% até 2033.

Por enquanto, a cearence Cleonice Vieira, 65, vive diante de um canal com esgoto e lixo na porta de sua casa na região de Messejana, em Fortaleza. Em períodos de chuvas fortes, sua casa chegou a ser inundada, o que a fez construir uma barreira na soleira da entrada.

Na saúde, a expansão pode ser vista no Hospital Universitário do Ceará, na capital do estado. O complexo, com pouco mais de um ano, está distribuído em três torres com 78,6 mil m², tem 661 leitos de internação, além de 182 complementares e estruturas especializadas. São 843 leitos no total, além de 46 poltronas para quimioterapia e imunobiológicos.

Para Ivelise Brasil, diretora-geral e cirurgiã especializada em transplantes, o complexo amplia o atendimento especializado e integra áreas da assistência. O hospital tem 17 salas cirúrgicas gerais, seis salas obstétricas e 40 leitos de UTI adulto.

A estrutura ajuda a explicar a nota de 0,642 na saúde. A atenção primária cobre 96,6% da população, segunda maior taxa entre os estados, e a mortalidade infantil é de 11,2 por mil nascidos vivos.

Os resultados, contudo, são desiguais. A segurança pública é o principal ponto fraco, assim como em outros estados do Nordeste: a taxa de mortes violentas intencionais chega a 34,7 por 100 mil habitantes no Ceará, e a nota da dimensão é 0,223, a terceira pior do país.

Nas áreas periféricas de Fortaleza é comum ver inscrições de facções pichadas em muros. Quando abordados sobre o tema, moradores evitam falar no assunto e se afastam.

Cialdini afirma que os investimentos dos últimos anos devem melhorar a segurança. O estado projeta queda de mais de 60% nos crimes violentos letais e intencionais neste ano, em relação a 2025. O governo usa o mesmo argumento dos investimentos para o saneamento, ainda em expansão.

Folha de São Paulo

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