Esporte

Voltei a correr depois que meu filho nasceu; se me faz tão bem, por que sinto culpa?

A mocinha inglesa pegou meu bebê nos braços e abriu um sorriso largo: “Oi, Déééniel!”, disse, sotaque britânico perfeito e rosto de princesa da Disney. “É nosso primeiro dia, precisam de algo?”, perguntei. “Não, qualquer coisa eu te ligo,” respondeu, tentando me tranquilizar, e saíram.

Nesta semana, depois que as avós voltaram para o Brasil, pela primeira vez deixei meu filho de três meses com uma “estranha”. Como aqui em Londres não temos rede de apoio nem um rim sobrando para contratar babá, investi na mensalidade de uma espécie de clube voltado para quem tem filhos, com academia e serviço de creche por hora.

Tenho consciência do privilégio que é poder pagar para ter um pouco de ajuda —ou “ter a chance de sair de casa e me sentir como um ser humano”, como descreveu outra recém-chegada, também sem família perto, confessando que passar os últimos sete meses só cuidando da filha a estava deixando “meio maluca”.

Com o Daniel na creche, desci um lance de escadas, entrei na academia e subi na esteira para correr. Não parei de olhar para o celular, que só tocou 40 minutos depois: “Pode vir”, pediu-me a cuidadora, com a mesma voz fofa.

Assim que meu filho nasceu, tirei o relógio de corrida que eu usava 24 horas por dia no pulso. Foi um banho de realidade sobre a perda de independência. Ele me mostrava como era ativa, inclusive na gravidez, quando fiz atividade física até a véspera do parto. Mas não fazia sentido usá-lo. Eu estava exausta, sem tempo para nada. Aos poucos, voltei a me exercitar em casa e, nos últimos dias, retomei a corrida, quando dá.

Mas se ao pisar naquela esteira eu estava fazendo algo que amo e sempre foi natural, por que me senti culpada, como se estivesse abandonando o Daniel?

Eu, que adiei a maternidade para focar na carreira, tenho vivido todos os seus clichês: o encantamento com cada sorriso e a certeza de que foi a melhor decisão, a mais transformadora. Mas a culpa veio junto.

Sinto que, para diminuí-la nas mães, o entorno precisa mudar. A licença-paternidade no Reino Unido é de duas semanas, deixando mulheres sozinhas quando estão frágeis e tirando dos homens tempo precioso com seus bebês —uma tristeza para pessoas como o meu marido, pai super presente.

O salário-maternidade do governo não cobre nem as compras do mercado. As mães, sobrecarregadas, abrem mão do exercício físico e de pequenos momentos de individualidade —para mim, a corrida é dos mais importantes.

Não estou sozinha. Entre amigas, culpa materna é assunto comum.

Uma pesquisa de 2019 do Sport England, órgão autônomo que gere o esporte no país, revelou que 61% das mães se culpam por se exercitarem em vez de estar com a família. O estudo lembra que mulheres ativas lidam melhor com estresse, têm mais energia e confiança e encorajam os filhos a praticar esportes e ter uma vida saudável.

Por tudo isso, seguirei correndo. Desejo que todas as mães consigam se exercitar, por mais duro que seja este início. Rede de apoio faz toda a diferença.

Em casa, antes de deixar o Daniel com a cuidadora, abri uma caixa com mensagens escritas por amigos durante a gravidez. Por coincidência, a primeira que apareceu, de uma colega de trabalho querida, dizia: “Lembre-se sempre: uma mãe feliz é igual a um bebê feliz. Boa sorte.”


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Esporte / Folha de São Paulo

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