Wally Funk, recordista de idade em viagens espaciais, morre

Wally Funk, uma das pilotos mais talentosas de sua geração e a mulher que realizou o sonho de viajar ao espaço mais de seis décadas após ter sido impedida de ingressar no programa de astronautas da NASA, morreu nesta quarta-feira (9) em sua casa, na cidade de Grapevine, no Texas (EUA). Ela tinha 87 anos. A morte foi confirmada por Mona Quintanilla, porta-voz da prefeitura de Grapevine.
Continua após a publicidade
Funk entrou para a história em julho de 2021, quando, aos 82 anos, tornou-se a pessoa mais velha a viajar ao espaço. O feito representou a realização de um objetivo perseguido desde o início da década de 1960. Em sua autobiografia, publicada em 2020, ela resumiu sua relação com a aviação: “A aviação foi minha vida inteira. Eu a como e a respiro.”
Única piloto a passar em todos os testes do Mercury 13
- No início dos anos 1960, durante os primeiros anos da corrida espacial, Funk integrou um grupo de 25 mulheres submetidas a rigorosos testes físicos e psicológicos para avaliar como mulheres reagiriam a missões espaciais;
- Posteriormente reduzido para 13 participantes, o grupo ficou conhecido como Mercury 13;
- Segundo o relato, Funk foi a única aviadora do grupo a ser aprovada em todos os testes;
- Apesar disso, a NASA selecionou apenas sete homens — conhecidos como Mercury Seven — para formar sua primeira turma de astronautas;
- Na época, a agência espacial estadunidense não estava disposta a assumir o risco de enviar mulheres ao espaço;
- Entre os integrantes do Mercury Seven estavam Alan B. Shepard Jr., primeiro estadunidense a viajar ao espaço em um voo suborbital realizado em maio de 1961, e John Glenn, primeiro estadunidense a entrar em órbita da Terra.
Sonho de ser astronauta foi adiado por décadas
Ao longo da carreira, Wally Funk tentou diversas vezes ingressar oficialmente no corpo de astronautas da NASA, mas não foi aceita. A agência só passou a admitir mulheres em seu programa em 1978, quando Funk já tinha 39 anos.
A primeira estadunidense a viajar ao espaço foi Sally Ride, integrante de uma missão do ônibus espacial em 1983. Antes dela, a soviética Valentina Tereshkova tornou-se, em 1963, a primeira mulher da história a viajar ao espaço em uma missão solo. Embora nunca tenha conseguido integrar a NASA, Funk permaneceu ligada à aviação durante toda a vida.
Ela trabalhou como instrutora de voo, conduziu inúmeras investigações sobre acidentes aéreos, tornou-se a primeira mulher inspetora da Administração Federal de Aviação (FAA, na sigla em inglês) dos Estados Unidos e posteriormente atuou no Conselho Nacional de Segurança nos Transportes (NTSB, na sigla em inglês).
Carreira acumulou mais de 19 mil horas de voo
Ao longo de sua trajetória profissional, Wally Funk foi proprietária de uma escola de aviação em Taos, no Novo México (EUA), pilotou aviões bimotores de passageiros da Sierra Pacific Airlines, sediada em Tucson, no Arizona (EUA), e participou das tradicionais corridas aéreas femininas transcontinentais conhecidas como Powder Puff Derby.
Na autobiografia “Higher Faster Longer”, escrita em parceria com Loretta Hall, ela afirmou ter acumulado mais de 19 mil horas de voo.
Seu trabalho também recebeu diversos reconhecimentos. Em 1995, Funk foi incluída no Women in Aviation International Pioneer Hall of Fame. Em 2017, seu nome passou a integrar o Wall of Honor do Museu Nacional do Ar e do Espaço, em Washington (EUA).

Continua após a publicidade
Leia mais:
Mesmo sem nunca ter voado pela NASA, Funk finalmente alcançou o espaço em julho de 2021. Ela participou de um voo suborbital de dez minutos e 19 segundos a bordo do foguete New Shepard, desenvolvido pela Blue Origin, empresa de turismo espacial fundada por Jeff Bezos.
Além de Funk, também participaram da missão o próprio Bezos, seu irmão Mark Bezos e um estudante adolescente de física. Durante o voo, o foguete ultrapassou a marca de cerca de 100 quilômetros de altitude, considerada de forma geral o limite entre a atmosfera terrestre e o espaço, antes de retornar ao solo.
Após a missão, Funk descreveu a experiência durante uma entrevista coletiva comemorativa. “Nós simplesmente subimos e eu vi a escuridão. Eu ia ver o mundo, mas não fomos alto o suficiente. Adorei cada minuto. Só queria que tivesse durado mais.” Seu recorde como pessoa mais velha a viajar ao espaço durou poucos meses.
Continua após a publicidade
Em outubro de 2021, o ator William Shatner, conhecido pela série “Star Trek”, realizou um voo da Blue Origin aos 90 anos e assumiu o recorde. Em 2024, Ed Dwight, também com 90 anos, mas alguns meses mais velho do que Shatner era na época de sua missão, tornou-se o atual detentor da marca.
Fascínio pela aviação começou ainda na infância
Mary Wallace Funk — que preferia ser chamada de Wally — nasceu em 1º de fevereiro de 1939, em Las Vegas (EUA), filha de Losier e Virginia Shy Funk. Ela cresceu em Taos, onde seu pai abriu uma loja de variedades.
Em um depoimento concedido à NASA em 1999, ela contou que sua paixão pelo voo surgiu ainda na infância. “Minha primeira tentativa de voar, simplesmente voar, foi pulando do celeiro do meu pai, usando minha capa do Superman, quando eu tinha cerca de cinco anos.”
Ela caiu sobre um monte de feno, mas disse que isso não diminuiu seu entusiasmo. “Pude fazer aviões com blocos de madeira balsa e pendurá-los no teto do meu quarto.” Funk também atribuiu parte de sua formação ao contato com a natureza durante a infância.
Continua após a publicidade
“Cresci em uma região onde havia espírito livre. Fui criada pelos indígenas de um pueblo de Taos e eles me ensinaram desde muito cedo a pescar, caçar, acampar e sobreviver na natureza. Então eu tinha tudo isso a meu favor, enquanto um jovem de hoje cresce em uma cidade, em um apartamento, e isso é tudo o que conhece. Eles não conhecem o oceano, o esqui, a neve e o ar como eu pude conhecer.”
Formação e primeiros passos na aviação
Wally Funk obteve sua licença de piloto enquanto estudava no Stephens College, faculdade feminina localizada em Columbia, no Estado do Missouri (EUA). Posteriormente, ingressou na Universidade Estadual de Oklahoma (EUA), conhecida por sua escola de aviação.
Aos 19 anos, já possuía habilitações para pilotar planadores e hidroaviões. Relembrando aquele período, ela afirmou que “nunca havia olhares ou sobrancelhas levantadas perguntando: ‘O que essa garota está fazendo?’”.
Continua após a publicidade
Depois de concluir a graduação, tornou-se instrutora de voo na base militar de Fort Sill, em Oklahoma, antes de iniciar sua longa jornada em busca do sonho de viajar ao espaço.
Reconhecimento veio décadas depois
Antes do voo realizado pela Blue Origin, em 2021, a cientista planetária Tanya Harrison, diretora de estratégia científica da Planet Labs, comentou ao The New York Times que ver Wally Funk finalmente alcançar o espaço tinha um significado especial.
“Vê-la finalmente conseguir ir ao espaço décadas depois de provar que não era apenas capaz, mas talvez mais capaz do que os homens contra quem competia durante o programa Mercury, é algo extraordinário.”
Após concluir a missão, Wally Funk deixou claro que seu sonho não havia terminado. “Quero ir de novo, rápido.” Funk nunca se casou e não deixou familiares mais próximos.
Rodrigo Mozelli
Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.
Olhar Digital



