Política

Efeito TariFlávio: Lula abre vantagem em pesquisas eleitorais com migração de eleitores independentes

A queda do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas pesquisas de intenções de voto e o aumento de sua rejeição interromperam o cenário de empate técnico que vinha marcando a disputa presidencial de 2026 e abriram uma vantagem para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na avaliação da cientista política Priscila Lapa em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.

Para a doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o movimento foi impulsionado principalmente pela migração de eleitores independentes diante dos desdobramentos dos casos de corrupção envolvendo o Banco Master e da repercussão da agenda internacional do senador nos Estados Unidos.

A pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira (10) mostra Lula com 44% das intenções de voto em um eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro, que aparece com 38%. No primeiro turno, o presidente registrou 39%, enquanto o senador caiu de 33% para 29% desde maio. 

O levantamento é o primeiro da Quaest desde a divulgação dos áudios em que Flávio pede dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro. Os valores seriam utilizados para financiar o filme “Dark Horse”, sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado a 27 anos e três meses de prisão pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e preso por tentativa de golpe de Estado. No total, Flávio teria negociado R$ 134 milhões, dos quais aproximadamente R$ 61 milhões teriam sido pagos em seis operações.

Priscila Lapa defende que a divulgação de novas informações alterou a percepção de parte do eleitorado sobre a crise envolvendo a instituição financeira. “Agora, a partir da revelação dos áudios, semana a semana de reiteradas aproximações entre esses dois atores, Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, gera-se muito mais um sentimento de desconfiança em relação à campanha bolsonarista”, afirmou.

A pesquisa também foi realizada após a viagem do senador aos Estados Unidos para se reunir com Donald Trump, em meio à decisão do governo estadunidense de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas e impor uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros por supostas práticas desleais. O episódio rendeu o apelido de “TariFlávio” nas redes sociais.

Para a pesquisadora, a tentativa de reforçar os laços entre o bolsonarismo e o trumpismo acabou produzindo um resultado diferente do esperado entre os eleitores. “Quando Flávio Bolsonaro tenta explorar isso, para uma percepção do eleitorado, ficou um pouco deslocado o que ele estava fazendo ali, o que ele foi buscar. O resultado da reunião acaba gerando ainda mais desconfiança, gerando esse sentimento de que não foi bom para as empresas brasileiras”, disse.

O levantamento da Quaest também apontou um crescimento da rejeição de Flávio, que chegou a 56%, índice superior ao de Lula, que permaneceu em 53%. Segundo a pesquisadora, o avanço da rejeição está diretamente ligado a esse sentimento de desconfiança. 

“Sentimentos que estão muito atrelados a emoções negativas. A desconfiança é que gera a rejeição. A gente tem que observar, obviamente, o desdobramento disso nas próximas semanas. Mas sim, eu acredito que a rejeição está fortemente acionada a algo que foi trazido, plantado para ser algo positivo, que foi essa visita reforçando os laços entre o bolsonarismo e o trumpismo. Mas parece que isso gerou mais desconfiança do que um movimento positivo do eleitor”, afirmou.

Enquanto Flávio enfrenta desgaste, Lula passou a apresentar melhora na avaliação do governo. Para a especialista, medidas econômicas recentes ajudaram a fortalecer essa recuperação, principalmente entre eleitores impactados por dificuldades financeiras. “O Desenrola vem como quase uma salvaguarda muito imediata. Isso pode sim ter causado a ideia de que algo foi feito, de que o governo fez algo que afeta diretamente a minha vida, a vida da minha família. E isso, sim, é fator decisivo em uma eleição presidencial”, afirmou.

Embora o cenário eleitoral ainda esteja em construção, a cientista política avalia que o levantamento registra o fim do empate técnico observado nos meses anteriores. Para Lapa, o aspecto mais importante não é apenas a mudança nos percentuais, mas a identificação de qual parcela do eleitorado foi responsável por essa movimentação.

“Não basta a gente entender que houve um movimento da opinião pública, é preciso entender em que direção ele ocorreu, vindo de onde, indo para onde. E aí a Quaest traz isso de forma muito clara, que houve uma movimentação naqueles que são considerados eleitores independentes“, disse.

Segundo a pesquisadora, esse grupo tende a ser mais sensível aos acontecimentos da conjuntura política e econômica. Lapa afirma que foram justamente esses eleitores que passaram a se aproximar de Lula após os episódios envolvendo o Banco Master e a atuação internacional de Flávio Bolsonaro.

A pesquisadora acredita que as investigações sobre o Banco Master devem continuar produzindo impactos políticos. Segundo ela, novas delações e o avanço das apurações podem ampliar o alcance das investigações e revelar conexões entre diferentes setores do poder público e do mercado financeiro. 

“Vai sendo quebrada aquela proteção institucional que antes existia e encobria. Existe uma tendência muito forte de que agora a gente chegue numa equação que seja importante para que, dentro dessa delação, sejam revelados efetivamente todos os mecanismos de atuação dentro do caso Banco Master. O cerco está fechando”, concluiu.




Brasil de Fato

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