El Niño começou: o que muda para o agronegócio brasileiro?


A confirmação do El Niño pela agência meteorológica dos Estados Unidos, nesta quinta-feira (11/6), acende um alerta para o agronegócio brasileiro. Com mudanças previstas no regime de chuvas e nas temperaturas nos próximos meses, produtores já avaliam os possíveis reflexos sobre a safra, desde o plantio até a colheita de diferentes culturas.
O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento das águas do Pacífico Equatorial e costuma provocar aumento das temperaturas globais. No Brasil, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o El Niño provoca efeitos contrastantes entre as regiões. Enquanto o Sul tende a registrar aumento significativo no volume de chuvas, o Norte e o Nordeste geralmente enfrentam condições mais secas.
Esse padrão ocorre porque o aquecimento das águas do Oceano Pacífico altera a circulação atmosférica, deslocando a umidade em direção à porção sul da América do Sul. Mas qual deve ser o impacto do fenômeno para o agronegócio brasileiro?
Leia também:
El Niño começa e pode ficar mais forte, confirma agência dos EUA
Efeitos no campo
Os impactos no campo tendem a ser relevantes. No Sul, o excesso de chuvas durante o inverno e a primavera pode provocar encharcamento do solo, prejudicar o desenvolvimento das lavouras e favorecer o surgimento de doenças fúngicas, além de dificultar as operações com máquinas.
Os maiores danos podem devem ser para o café e a cana-de-açúcar. “Para as culturas do café e cana o problema seria um inverno mais úmido, clima típico do El Niño, com chuvas mais regulares, o que poderá atrapalhar a colheita entre setembro e novembro”, diz o agrometeorologista da Rural Clima Marco Antônio dos Santos.
Já para as culturas de soja e milho a previsão é boa. “O outono deverá ser de chuvas um pouco mais regulares, mantendo as condições mais favoráveis ao desenvolvimento”, indica Marco Antônio.
Culturas de inverno no Sul, como o trigo, segundo o Inmet, costumam ser particularmente afetadas, especialmente nos meses mais chuvosos, como setembro e outubro.
Por outro lado, nas regiões Norte, Nordeste e em parte do Centro-Oeste e Sudeste, a redução das chuvas aumenta o risco de veranicos, períodos de estiagem que podem comprometer o plantio e o desenvolvimento inicial de culturas como soja e milho.
Efeitos na safra de inverno
O aumento dos volumes de chuva, sobretudo na primavera, preocupa os agricultores porque coincide com o período de colheita de diversas culturas.
Em anos anteriores, levantamentos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostraram que eventos associados ao El Niño provocaram reduções significativas na produtividade do trigo, por exemplo.
O cereal não é o único prejudicado. Outros produtos agrícolas também sofrem impactos semelhantes, como aveia e azevém, duas culturas que não toleram excesso de umidade. E, segundo o meteorologista Celso Luis de Oliveira Filho, da Tempo OK, a quantidade de chuva prevista é elevada.
“O impacto pode ser mais crítico possivelmente para o fim do ciclo de desenvolvimento, entre a maturação e colheita, período em que há previsão de mais chuva”, alerta.
Mais uma consequência da alta umidade é o desenvolvimento de doenças, como a giberela, comum em plantações de trigo, mas que também atinge cevada, aveia e centeio. Conforme a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), duas condições climáticas a favorecem: precipitação pluvial por, no mínimo, 48h consecutivas e temperaturas entre 20°C e 25°C.
“Para piorar, um eventual solo encharcado dificulta a movimentação de máquinas para o controle fitossanitário e aumenta o risco de podridão das raízes”, finaliza.
Preocupação no Mato Grosso
A atuação do El Niño em Mato Grosso no segundo semestre poderá influenciar a projeção da safra de soja 2026/27 no Estado, principal produtor do Brasil.
O Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) aponta que a área, que será semeada a partir de setembro, deve crescer, mas em ritmo muito menor em relação aos anos anteriores, chegando a 13,04 milhões de hectares, ou elevação de 0,25% se comparado com 2025/26, refletindo cautela diante de juros altos e crédito mais restrito.
Com essa previsão climática, e um cenário de possível irregularidade das chuvas no Estado e variabilidade hídrica, especialmente em uma fase decisiva para o estabelecimento das lavouras, o desenvolvimento inicial da soja pode ficar comprometido, elevando o risco produtivo já no início da temporada.
E o Sul do Brasil?
O principal efeito esperado após a confirmação do fenômeno é a intensificação das chuvas. A diferença, segundo o meteorologista Celso Filho, estará no volume para cada Estado e na variabilidade climática ao longo dos meses.
“Em junho, por exemplo, espera-se chuvas acima da média entre Santa Catarina e Paraná e de média a abaixo no Rio Grande do Sul. Já em julho, as anomalias positivas de precipitação nos três diminuem um pouco, porque parte da umidade pode se espalhar no Mato Grosso do Sul e em parte do Sudeste”.
Para agosto, a condição muda novamente, com volumes maiores previstos apenas para o Rio Grande do Sul, enquanto os demais tendem a registrar um padrão mais seco e quente. Em setembro, a chuva volta a se distribuir de forma uniforme pela região.
Globo Rural



