Geração Z ignora risco de câncer e busca bronzeado intenso nos EUA

Como muitos jovens de 19 anos de sua geração, Makai Wallace, de South Jordan, em Utah, nos Estados Unidos, se preocupa profundamente com os amigos, com a rotina de cuidados com a pele e em manter a saúde. Ela também adora os conteúdos do TikTok. Mas ficou surpresa ao viralizar depois de postar um vídeo de dentro de uma câmara de bronzeamento, em outubro. Com mais de 71 mil visualizações, seu vídeo provocou inúmeras reações da comunidade médica.
“A leoa não se preocupa com ‘câncer de pele'”, escreveu Wallace em seu post, mostrando a língua e apertando os olhos por causa da luz ultravioleta.
A dermatologista Brooke Jeffy, que trabalhou em um salão de bronzeamento quando era adolescente, foi uma das médicas que comentou o post.
“As câmaras de bronzeamento estão na mesma categoria de agentes cancerígenos que o amianto e o plutônio”, disse, acrescentando que entrar numa câmara antes dos 35 anos aumenta em 75% o risco de desenvolver melanoma.
O descaso de Wallace com os riscos do bronzeamento ecoa uma atitude surpreendentemente comum entre os jovens da geração Z (de 18 a 29 anos). Muitos acompanham o índice UV em aplicativos de previsão do tempo para saber em que momento podem obter uma maior exposição à radiação ultravioleta.
“Tanfluencers” (influenciadores do bronzeado, em tradução livre), como alguns influencers se autodenominam nas redes sociais, estão postando sobre “tanmaxxing” (brozeamento máximo, em tradução livre) com intensificadores de extrato de cenoura ou exibindo marcas de bronzeado e queimaduras solares após um dia de sol.
Uma nova pesquisa sobre hábitos de exposição ao sol da Academia Americana de Dermatologia (AAD, na sigla em inglês) descobriu que apenas 25% dos entrevistados da geração Z relatam preocupação em desenvolver câncer de pele ao longo da vida, em comparação com 39% da população em geral. Além disso, 20% dizem que ficar bronzeado é mais importante do que prevenir o câncer de pele, em comparação com 14% do grupo geral.
Especialistas dizem que os jovens podem estar desafiando ativamente os alertas sobre exposição solar. Ou podem estar inseguros sobre em que informação acreditar, um produto das fake news promovidas nas redes sociais e por figuras públicas como o secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr., que usa câmaras de bronzeamento. A FDA (Food and Drug Administration, órgão regulador dos EUA) retirou recentemente uma proposta que teria proibido seu uso por menores de idade. De qualquer forma, os especialistas estão perplexos.
“[Os jovens] não estão fumando, não estão bebendo e estão priorizando sua saúde em termos de sono, hidratação, exercícios e todas essas coisas”, disse Neelam Khan, dermatologista.
“Eu esperava que o conceito de bronzeamento tivesse feito parte disso e que se tornasse algo fora de moda. Tudo isso é preocupante, mas o risco muito real de desenvolverem câncer de pele é o que mais preocupa.”
Uma postura cínica em relação ao sol
O câncer de pele é o tipo mais comum de câncer nos Estados Unidos, mas também é um dos mais evitáveis. De acordo com a Skin Cancer Foundation, 1 em cada 5 americanos desenvolverá câncer de pele até os 70 anos, e ter cinco ou mais queimaduras solares dobra o risco de melanoma.
Marisa Garshick, dermatologista que atende em Nova York e Nova Jersey, diz que quando pacientes na faixa dos 70 anos chegam com câncer de pele, costuma dizer: “Não, não se preocupe. Você não fez nada de errado. Naquela época não sabíamos o que sabemos agora”.
Mas hoje é diferente, ela observou, porque “temos conhecimento das diferentes medidas que podemos tomar para nos proteger”.
Esse conhecimento não parece estar se conectando muito bem com a geração Z. Uma usuária do TikTok escreveu em um post: “O sol causa câncer. O protetor solar causa câncer. Morremos de qualquer jeito, então é melhor estar bronzeada.”
Não há, porém, evidências científicas de que o protetor solar cause câncer de pele.
Alguns adolescentes expressam “uma sensação reduzida de controle sobre o futuro”, afirma Lindsay Fleming, terapeuta especializada em jovens adultos. “Quando o futuro parece incerto, as consequências de longo prazo perdem seu peso emocional.”
Em uma pesquisa de 2024 da Academia Americana de Dermatologia, 25% dos entrevistados da geração Z disseram que valia a pena ficar lindo com um bronzeado agora, mesmo que isso tenha efeitos negativos futuramente.
A desinformação também é desenfreada. A alegação falsa de que o protetor solar causa câncer de pele convenceu muitos jovens, incluindo Wallace, a não usá-lo de forma alguma. Outros mitos, como o de que bronzear o períneo pode aumentar a energia e equilibrar os hormônios, também alimentaram a cultura de bronzeamento da geração Z.
Na nova pesquisa da AAD, os entrevistados da geração Z citaram o TikTok e o Instagram como sua principal fonte de informações sobre cuidados com a pele, e 65% deles se mostraram propensos a acreditar em mitos sobre bronzeamento, incluindo que um bronzeado pode prevenir queimaduras solares ou reduzir o risco de câncer de pele.
A enfermeira dermatológica Ann Frisius contou que seus pacientes mais jovens reclamavam regularmente do tamanho de seus poros ou perguntavam sobre botox preventivo. “Todos querem uma ‘glass skin’, mas vão torrar em uma câmara de bronzeamento, o que só faz os poros aumentarem. Todo bronzeado é danoso ao DNA.”
Informação
Folha de São Paulo



