Como Québec se tornou líder mundial em morte assistida em uma década

O painel de madeira na parede, cercado por superfícies em branco e azul suave, dão ao ambiente a sensação de um hotel boutique. Um pássaro solitário voa perto de um iceberg em uma fotografia emoldurada acima de uma cafeteira, um sistema de som e um telefone fixo.
Mas os sofás e poltronas estão orientados não para a TV na parede, mas para a cama hospitalar no centro do cômodo. Um grande recipiente plástico para seringas usadas dá pistas sobre a finalidade do lugar: uma instalação para morte medicamente assistida.
O quarto fica dentro de um novo centro de cuidados paliativos em Lanaudière, uma região de Québec onde 13 em cada 100 pessoas morrem por morte assistida. Essa é a taxa mais alta da província, que, por sua vez, é líder mundial em mortes assistidas, segundo relatórios dos governos canadense e de Québec.
Construído com dinheiro de doadores privados e administrado pelo governo provincial, o centro reflete dois elementos que impulsionaram Québec ao topo: a integração da morte assistida ao sistema público de saúde e seu amplo apoio popular.
Desde que Québec tornou-se pioneira na morte assistida no Canadá, em 2015, isso alimentou uma profunda transformação social na província francófona. Escolher morrer, em seus próprios termos e sem sofrimento, agora é visto como um direito individual em uma sociedade que rejeitou o ensinamento da Igreja Católica Romana de que a eutanásia é um pecado grave.
“Este é um fenômeno social que cresceu exponencialmente”, diz Louis Daigle, médico emergencista em Lanaudière que administrou 662 mortes medicamente assistidas desde 2017. “Muitas pessoas agora idealizam essa forma de morrer, com dignidade, tanto que acho que existe uma crença de que agora há duas boas maneiras de morrer: ou de repente, ou com morte assistida.”
O rápido aumento —8% de todas as mortes em Québec agora são por morte assistida, comparado com 5% no Canadá como um todo— levantou questões dentro e fora da província. Opositores na França, que agora debate a morte assistida, apontaram Québec como um conto de advertência: uma sociedade que embarcou em uma ladeira escorregadia rumo à expansão e normalização da morte assistida.
A Comissão de Cuidados de Fim de Vida de Québec, que supervisiona a morte assistida na província, analisa cada caso após a morte para garantir que seguiu a lei, afirma sua presidente, Lucie Poitras.
Diferentemente do resto do Canadá, a sociedade de Québec —legisladores, autoridades de saúde, especialistas em ética, pacientes e grupos religiosos— realizou um debate público oficial que durou vários anos antes de legalizar a morte assistida em 2014, diz Poitras. Isso construiu um consenso social em torno da “importância da autonomia ou controle sobre a própria morte, que é muito forte aqui”, afirma.
“A taxa de Québec é mais alta do que em qualquer outro lugar do mundo”, diz Poitras. “Existe uma taxa ideal? Acho que não.”
Mas mesmo alguns apoiadores dizem que a província precisa examinar atentamente o que a tornou líder global após apenas uma década, ultrapassando países com leis de morte assistida há muito estabelecidas, como a Holanda.
Pesquisadores apontam uma série de razões. Na província, ela foi enquadrada desde o início como uma forma de morrer com dignidade, evitando termos como “eutanásia” ou “suicídio assistido” usados em alguns países europeus. Em Québec, apenas médicos ou enfermeiros podem administrar uma morte assistida, enquanto em outros lugares apenas o próprio paciente pode realizar o ato final.
“Em jurisdições onde médicos prescrevem, mas os pacientes precisam tomar por conta própria, as taxas são muito mais baixas”, afirma Isabelle Marcoux, professora da Universidade de Ottawa e líder de uma rede de pesquisa sobre morte assistida em Québec.
A morte assistida é totalmente coberta pelo seguro de saúde pública de Québec. Médicos podem iniciar conversas com pacientes sobre morte assistida como uma opção de fim de vida, enquanto os pacientes devem trazer o assunto primeiro em lugares como Austrália e alguns estados americanos, afirma Marie-Ève Bouthillier, bioeticista da Universidade de Montreal que também é líder na rede de pesquisa.
Mas especialistas dizem que o rápido aumento não pode ser separado da história da Québec moderna. Em uma transformação social conhecida como Revolução Tranquila, a maioria francesa histórica da província começou a se afastar na década de 1960 da Igreja Católica, que exercia controle sobre a maioria dos aspectos de suas vidas. Em uma geração, uma sociedade outrora profundamente conservadora e religiosa passou a se definir por seu progressismo social.
A Igreja Católica tem sido a maior opositora da morte assistida em Québec, argumentando que é moralmente errado acabar com a vida mesmo para aliviar o sofrimento e que tais atos não podem ser considerados cuidado.
No que muitos especialistas consideram uma rejeição contínua aos ensinamentos da igreja, a morte assistida é mais alta em regiões com grandes concentrações de franco-quebequenses, como Lanaudière, que se estende por 240 quilômetros a nordeste dos subúrbios de Montreal até as florestas do centro de Québec. A taxa de mortes por morte assistida em Lanaudière, de 13,4%, é muito maior que a média provincial de 7,9%.
Em Lanaudière, as mortes assistidas estão concentradas no norte da região, onde um quarto da população predominantemente franco-quebequense tem 65 anos ou mais, comparado com 21,7% para a província em geral.
Daigle, que realizou 662 mortes assistidas, diz que frequentemente ouve referências à religião entre seus pacientes, a maioria dos quais tem mais de 80 anos e câncer em estágio avançado.
“Eles dizem que quando estavam crescendo, foram ensinados que tinham que sofrer para ir ao céu, mas agora dizem que isso não faz sentido nenhum”, diz Daigle. “Eles perceberam em algum momento que os velhos valores não faziam sentido, que não havia razão para sofrer daquele jeito.”
A mudança em direção à morte assistida encontrou expressão concreta no novo Centro de Cuidados Paliativos e de Fim de Vida em Saint-Charles-Borromée, uma cidade suburbana a cerca de 80 quilômetros a nordeste de Montreal. Quando uma instituição de caridade, a Fundação de Saúde do Norte de Lanaudière, procurou moradores locais para ajudar a construir um centro de cuidados paliativos —com um quarto para morte assistida— rapidamente arrecadou os 8 milhões de dólares canadenses necessários (cerca de 5,8 milhões de dólares americanos).
Um doador, Jean-François Champoux, presidente e CEO da Serraria St-Michel, diz que o centro tornaria a região mais atraente e ajudaria as empresas a recrutar trabalhadores.
“Há alguns anos, não seria possível nem falar sobre isso”, diz Champoux, 48, que doou cerca de 73 mil dólares em madeira para a construção.
Por anos, médicos de cuidados paliativos se opuseram à morte assistida, embora muitos agora a tenham aceitado, diz Virginie Plante, que atua em ambas as áreas no centro.
A mudança também foi resultado de uma lei de Québec de 2023 que exigiu que centros de cuidados paliativos incluíssem a morte assistida entre seus serviços.
No centro de cuidados paliativos em Saint-Charles-Borromée, três funcionários supervisionam um sistema central que recebe todas as solicitações de morte assistida na região. Mais de 300 pessoas morreram no centro desde sua abertura em setembro passado.
“Em vez de em casa ou em um hospital, elas vêm aqui. São acolhidas. É tranquilo. Elas têm seu espaço para morrer com dignidade”, diz Caroline Léger, diretora do centro.
Informação
Folha de São Paulo



